Brumadinho: estudo indica exposição a metais acima da média em áreas atingida por barragem
Estudo da FioCruz e da UFRJ também aponta incidência de problemas como depressão acima da média na região
Minas Gerais|Antonio Paulo, da Record TV Minas

Um estudo da FioCruz (A Fundação Oswaldo Cruz) e da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), divulgado nesta quinta-feira (7), aponta uma exposição a materiais pesados acima da média em moradores das regiões atingidas pelo rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, em janeiro de 2019.
O levantamento também apontou uma incidência maior de problemas de saúde mental, em comparação com a média brasileira. De acordo com os institutos de pesquisa, os dados são preliminares.
De acordo com os pesquisadores da universidade e da fundação, durante estudo sobre a qualidade de vida da população de Brumadinho, foram identificados resquícios de cádmio, arsênio, mercúrio, chumbo e manganês além dos limites de referência. Entre os adolescentes, 29% apresentaram arsênio na urina, 52% apresentaram manganês no sangue e 12%, chumbo. Entre os adultos, 33% apresentaram níveis aumentados de arsênio na urina e 37%, manganês no sangue.
A pesquisa também levantou o panorama de doenças crônicas respiratórias entre os pacientes entrevistados. Entre os adolescentes, 12% foram diagnosticados, por médicos, com asma e bronquite.
Destes, a maior parte na zona rural como no Parque da Cachoeira e na própria comunidade do Córrego do Feijão, na vizinhança da barragem rompida. Entre os adolescentes, 11% foram diagnosticados com pneumonia, a maior parte na região às margens do Rio Paraopeba.
Nas regiões de Parque da Cachoeira e Córrego do Feijão, vizinhas às barragens, os índices são mais altos - 23,8% e 17,1%. Os casos de pneumonia foram citados por 10,9% dos adolescentes, mas, o índice na região do Pires, banhada pelo Rio Paraopeba, atingido pela lama de rejeitos, o nível chega a 16,7%.
"Os resultados sobre o diagnóstico médico de doenças crônicas, bem como sobre sinais e sintomas, demonstram uma elevada carga dessas condições para a população de Brumadinho, podendo refletir na procura por serviços de saúde. Dessa forma, é importante que se tenham ações para acompanhamento dos fatores de risco cardiovascular e doenças respiratórias, além de ações de promoção da saúde. Os resultados também mostram a necessidade de ter um olhar mais atento para as regiões com maiores percentuais dessas questões de saúde, que podem estar relacionadas às condições ambientais, como água e ar, e que precisam ser melhor investigadas", destaca Sérgio Peixoto, pesquisador da Fiocruz Minas, coordenador-geral da pesquisa.
Saúde mental
A pesquisa também avaliou as condições de saúde mental dos moradores. Dos adultos, 22,5% apresentaram diagnóstico para depressão, enquanto a média brasileira adulta segundo o PNS 2019 era de 10,2%.
Já 33,4% dos entrevistados com mais de 18 anos relataram diagnóstico de ansiedade ou problemas do sono. Dentre os adolescentes, 10,4% relataram depressão e 20,1%, ansiedade.
"Segundo os pesquisadores, os resultados encontrados permitem avaliar uma exposição aos metais e não uma intoxicação, que só pode ser assim considerada após avaliação clínica e realização de outros exames para definir o diagnóstico. Dessa forma, recomenda-se uma avaliação médica para todos os participantes da pesquisa que apresentaram níveis acima dos limites biológicos recomendados, de forma que os resultados sejam analisados no contexto geral da sua saúde", pontua o relatório.
Procurada, a Vale informou que ainda não teve acesso ao estudo e que "não há registros nas comunidades locais de casos de intoxicação por metais pesados em decorrência do rompimento da barragem B1, em 2019".
"A empresa também monitora níveis de material particulado em suspensão (frações inaláveis menores que 10µm e frações respiráveis menores que 2,5µm) nas comunidades impactadas de Brumadinho e, até o momento, os resultados desses monitoramentos estão a níveis de segurança adequados à saúde da população", completou a empresa em nota.
Rompimento
A Barragem B1, da Vale, na comunidade de Córrego de Feijão, rompeu às 12h28 do dia 25 de janeiro de 2019. A lama de rejeitos causou a morte de 270. Quatro vítimas seguem desaparecidas. A última identificação aconteceu em junho de 2022.
Veja a íntegra da nota da Vale:
"Vale não teve acesso ao estudo que está sendo realizado pela Fiocruz Minas e irá analisar os resultados tão logo o tenha. A empresa reforça que não há registros nas comunidades locais de casos de intoxicação por metais pesados em decorrência do rompimento da barragem B1, em 2019.
A empresa também monitora níveis de material particulado em suspensão (frações inaláveis menores que 10µm e frações respiráveis menores que 2,5µm) nas comunidades impactadas de Brumadinho e, até o momento, os resultados desses monitoramentos estão a níveis de segurança adequados à saúde da população.
Além disso, a Vale financia os Estudos de Avaliação de Risco à Saúde Humana e de Avaliação de Risco Ecológico, que estão sendo conduzidos pelo Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SISEMA) em articulação com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) e Secretaria de Planejamento (SEPLAG). Esses estudos investigam as áreas impactadas pelo rejeito para identificar uma possível contaminação e os riscos à saúde humana e ao meio ambiente, visando o estabelecimento de medidas de intervenção e reparação e ações de proteção da população, fauna e flora, se necessário.
Este trabalho, que tem metodologia validada pelos Ministérios da Saúde e do Meio Ambiente e é acompanhado pelos compromitentes do Acordo Judicial de Reparação Integral (Ministério Público do Estado de Minas Gerais, Ministério Público Federal, Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais e pelo Governo do Estado de Minas Gerais), está sendo elaborado em cinco fases. No presente momento, está em andamento a Fase I, que diz respeito ao levantamento de dados das áreas para a definição dos modelos conceituais e do Plano de Caracterização e Investigação Ambiental para as metodologias do setor saúde e do setor ambiental. Mais informações podem ser obtidas no site: http://www.meioambiente.mg.gov.br.
É igualmente importante destacar que o rejeito de minério de ferro é formado em sua maioria por minerais ferrosos e quartzo, sendo classificado como não tóxico e consequentemente não perigoso, conforme NBR 10.004, da Associação Brasileira de Normas Técnicas."














