Chuvas agravam erosões e pioram drenagem em barragens da Vale

Duas estruturas da mina de Gongo Soco, em Barão de Cocais, são as que trazem maior preocupação, indica auditoria da empresa americana Rizzo

Temporais deixam barragens da Vale em risco com erosões e falta de bombeamento

Temporais deixam barragens da Vale em risco com erosões e falta de bombeamento

Record TV Minas

A chuva recorde da última semana em Minas provocou erosões e danificou sistemas de drenagem de barragens de rejeitos da Vale que já estavam em níveis críticos. Duas estruturas da mina de Gongo Soco, em Barão de Cocais, são as que trazem maior preocupação, indica auditoria da empresa americana Rizzo. 

A companhia foi contratada pela Vale, em acordo com o MP, em julho de 2019, para avaliar as barragens Sul Superior (nível 3 de emergência, o mais elevado) e Sul Inferior (nível 2). Os auditores enfatizam os problemas hidráulicos agravados pela recente chuva: "O sistema de bombeamento permanece inativo, apesar da urgência de funcionamento".

Temporais deixam barragens da Vale em risco com erosões e falta de bombeamento

Temporais deixam barragens da Vale em risco com erosões e falta de bombeamento

Record TV Minas

Com os temporais no fim de janeiro, os engenheiros voltaram nas estruturas mais críticas da Vale em Minas e encontraram problemas - para corrigir, trabalhadores precisam entrar em áreas atualmente com acesso proibido por conta do risco de rompimento.

Leia mais: Criança levada por enxurrada é 58ª vítima das chuvas em Minas

Na barragem Sul Inferior, o laudo aponta erosões em um trecho de 85 m de comprimento por 3 m de largura e define como "urgente que a berma superior seja reconstruída o mais rápido possível, a fim de evitar mais danos ao corpo da barragem".

A Rizzo também destaca uma área com fraturas perto da crista do lado esquerdo da estrutura, que em janeiro teve o nível de emergência elevado de um para dois justamente por causa da chuva. Não foram encontrados vazamentos no corpo da barragem, que permanece seco.

Robert Galery, coordenador do departamento de Engenharia de Minas da UFMG,  explica como temporais podem agravar o problema. "A chuva provoca corrosão, provoca um desbarrancamento do material da barragem. Isso tem que ser corrigido imediatamente, porque a barragem é a estrutura principal que sustenta todo o rejeito". 

 Risco para Sul Superior

O estudo mostra que em caso de dano severo ao topo da Sul Inferior, poderia haver um gatilho que rompesse também a Sul Superior, que está em nível 3 de emergência . É que haveria uma pressão excessiva no pé da Sul Superior, que sofreria uma falha por liquefação estática.

Os engenheiros contratados recomendam corrigir o problema com reparos na inclinação e bombeamento de água a cada dois dias para reduzir aos poucos o nível do reservatório - a saída de mais de 150 mm por dia também pode causar danos à tubulação. 

 "Se for provocada alguma instabilidade na parte inferior, e se a parte superior estiver sendo suportada por ela, você pode ter problema também na parte superior. 

O pior cenário é chegar a uma condição em que não se consegue mais fazer a manutenção e a estrutura da barragem só vai deteriorando. Aí a tendencia é o rompimento", alerta o professor Galery.

Os auditores da Rizzo ainda lembram que para corrigir os problemas "é necessário que as autoridades (considerem) a liberação de acesso controlado a essa área" e que a Vale deveria apresentar um plano detalhado para "reconstrução da berma erodida, limpeza de drenos de superfície, habilitação do bombeamento do sistema e instalação de instrumentos para controle", além de garantir a correção do trecho inclinado e a retirada segura de trabalhadores da área. 

Mais temporais 

A previsão de temporais para os próximos dias deixa as equipes em atenção, pois há risco de que "chuvas severas e ventos fortes possam continuar a corroer rapidamente a encosta a montante da Sul Inferior", ou mesmo que o acúmulo de chuva neste verão corroam a encosta lentamente.

A auditoria da Rizzo enfatiza que há risco de "violação da barragem se não forem tomadas medidas imediatas para reparar a encosta a montante".

Agência Nacional de Mineração explica que o estado de alerta para mineradoras foi ampliado até 10 de fevereiro por conta da previsão de chuva forte em Minas.

"As equipes de segurança de barragens devem se manter em alerta com monitoramento diário das condições das estruturas – em especial do estado de conservação – além de manter atenção especial às tomadas d'água dos vertedouros", explica a agência, que recomenda acionar o plano de emergência (PAEBM) em caso de anormalidade. 

Resposta da Vale 

A Vale afirmou à RecordTV que "recebeu o relatório da Rizzo e está cumprindo as recomendações". Segundo a mineradora, "as questões apontadas no documento não alteram o atual cenário de segurança das estruturas" e que no período chuvoso as equipes e inspeções são reforçadas para eventuais emergências.

A Vale afirma também que todas as barragens em Minas são monitoradas por instrumentos como piezômetros, radares, estações robóticas, câmeras de vídeo no Centro de Monitoramento Geotécnico. 

Feam

A Feam respondeu à reportagem que a Vale deve seguir as definições legais para garantir a segurança dos trabalhadores envolvidos nas obras. A Feam destaca que publicou em janeiro o termo de referencia de descaracterização de barragens a montante, elaborado por 19 especialistas. As mineradoras receberam o termo e devem apresentar cronograma de descaracterizao das barragens em 60 dias.