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“É como se negros não existissem”: brasileira fala sobre racismo na Argentina

Relato expõe “apagamento” da população negra e repercute após episódios recentes no futebol

Minas Gerais|Maria Luiza Reis, do R7 e Antonio Paulo e Vinícius Araújo, da RECORD Minas

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Luísa Helena Saraiva, estudante de medicina em Buenos Aires, denuncia o racismo cotidiano enfrentado por brasileiros no exterior, especialmente negros.
  • A jovem observa que o preconceito na Argentina tem raízes históricas, refletindo um apagamento da população negra.
  • Recentes incidentes de racismo no futebol brasileiro, como o caso do torcedor do Boca Juniors e as ofensas contra Matheus Pereira, evidenciam a gravidade do problema.
  • Luísa destaca a importância da educação e da conscientização para combater o racismo, além da necessidade de punir os culpados.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Luísa Helena Saraiva, de 28 anos, é estudante de medicina em Buenos Aires Reprodução/Redes Sociais

O relato da mineira Luísa Helena Saraiva, de 28 anos, estudante de medicina em Buenos Aires, expõe uma realidade dura: o racismo cotidiano enfrentado por brasileiros, especialmente negros, fora do país. A experiência dela ganha ainda mais peso diante de episódios recentes no futebol, como o caso envolvendo o meia Matheus Pereira, do Cruzeiro, e a prisão de um torcedor argentino no Mineirão, em BH, por gesto racista.

Natural de Belo Horizonte, Luísa se mudou para a Argentina em 2023 para realizar o sonho de cursar medicina. No entanto, junto com a oportunidade acadêmica, vieram episódios frequentes de discriminação.


Segundo ela, o racismo no país vizinho tem características próprias e profundas raízes históricas. “Existe um apagamento da população negra. É como se os negros não existissem aqui. Isso é ensinado, passado de geração em geração”, relata.

A estudante explica que, na Argentina, o preconceito não se limita à cor da pele. “O brasileiro, independente de ser branco ou negro, pode ser chamado de ‘macaco’. Eles associam o Brasil à população negra, como se todos tivessem ‘sangue negro’”, afirma.


Luísa também chama atenção para o estranhamento social. “Quando um negro aparece em espaços públicos, existe um olhar de curiosidade, de julgamento, como se não pertencesse àquele lugar.”

Futebol como palco de tensão

A fala da mineira dialoga diretamente com episódios recentes envolvendo o futebol, um ambiente onde essas tensões se tornam ainda mais visíveis.


Na terça-feira (27), um torcedor do Boca Juniors foi preso no Mineirão, em Belo Horizonte, após ser flagrado fazendo gestos racistas durante uma partida. Segundo o boletim de ocorrência, ele teria imitado um macaco em direção a outros torcedores. O caso levou à aplicação do protocolo de tolerância zero e reacendeu o debate sobre racismo em eventos esportivos internacionais.

Pouco antes, o meia Matheus Pereira também foi alvo de uma série de ataques racistas nas redes sociais após atuações pelo Cruzeiro. As ofensas, algumas inclusive geradas com uso de inteligência artificial, geraram indignação e mobilizaram clubes, torcedores e autoridades.


Para Luísa, os episódios não são isolados, e têm relação direta com a dificuldade de aceitar o protagonismo de pessoas negras. “Quando um jogador negro se destaca, isso incomoda. Existe uma tentativa de ‘colocar ele no lugar dele’”, diz.

Lei mais dura e investigação especializada

Os casos também evidenciam o rigor da legislação brasileira e os desafios para investigação, como explica o escrivão Matheus Teotônio, da Delegacia Especializada em Investigação de Crimes de Racismo (DECM).

“Em casos de flagrante, a autoridade policial vai ratificar o flagrante e a pessoa pode vir a ser presa e aguardar a audiência de custódia para a decisão do juiz”, afirma.

Ele destaca que a legislação foi endurecida nos últimos anos. “A injúria racial foi equiparada ao racismo pela Lei 14.532 de 2023, com penas de 2 a 5 anos de reclusão, mais multa, podendo ser aumentadas se cometidas em ambientes esportivos”, explica. Segundo ele, o crime é inafiançável e imprescritível.

O escrivão também chama atenção para situações em que o crime é tratado como “brincadeira”. “Existe essa premissa do racismo recreativo, em tom de humor, que também pode ter a pena aumentada”, diz.

Nos casos envolvendo estrangeiros, como o registrado no Mineirão, ele é categórico: “Uma vez você estando em solo brasileiro, tem que respeitar a legislação brasileira”. Mesmo que o investigado deixe o país, o processo continua. “Uma vez dada a sentença, a pessoa vai ser cientificada, ela estando em qualquer lugar do mundo.”

Já nos crimes virtuais, como os ataques contra Matheus Pereira, o desafio é outro, mas não impede a responsabilização. “A Polícia Civil tem meios de solicitar dados às redes sociais para identificar os autores. Não adianta se esconder atrás de perfil falso”, afirma.

Segundo ele, o número de denúncias vem crescendo. “As denúncias estão aumentando de maneira escalonada. Hoje em dia, esses crimes estão sendo mais penalizados de acordo com o rigor da lei.”

Números que preocupam

Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que o Brasil tem mais de 14 mil processos relacionados a questões raciais em andamento. Minas Gerais aparece entre os estados com maior número de casos, com mais de 1.600 registros.

Para Luísa, no entanto, o enfrentamento do problema vai além da punição. “A punição é importante, mas não resolve sozinha. O que falta é educação, debate, conscientização. Sem isso, o racismo continua sendo reproduzido.”

Enquanto segue os estudos na Argentina, ela planeja voltar ao Brasil após a formação. Mas leva consigo uma experiência que, segundo ela, mudou sua forma de enxergar o mundo e reforçou a urgência de discutir o racismo em todas as suas dimensões, dentro e fora do país.

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