Minas Gerais Justiça deve soltar motoboy negro, acusado de roubo no interior de MG

Justiça deve soltar motoboy negro, acusado de roubo no interior de MG

Maxsuel Ribeiro, de 35 anos, foi indiciado mas, agora, a Polícia Civil diz que ele não é o autor do crime pelo qual foi acusado

  • Minas Gerais | Lucas Pavanelli e Pablo Nascimento, do R7

Maxsuel foi reconhecido por vítima de roubo

Maxsuel foi reconhecido por vítima de roubo

Arquivo pessoal

A Justiça de Ipatinga, a 220 km de Belo Horizonte, deve determinar a soltura, ainda nesta terça-feira (3), do motoboy e administrador Maxsuel Vieira Ribeiro, que foi preso no dia 15 de julho, acusado de roubar um cordão e uma pulseira de ouro de uma mulher de 40 anos. A delegada da Polícia Civil pediu a soltura do homem, "por entender que ele não é o autor do crime pelo qual foi acusado". 

Maxsuel, que é negro e tem 35 anos, foi indiciado por roubo pela Polícia Civil após a conclusão do inquérito policial. O principal argumento para a prisão dele foi o reconhecimento pela vítima diante das autoridades. 

A prisão injusta motivou um protesto na última quinta-feira (29), por familiares e amigos do motoboy, que vivia em Santana do Paraíso, a 240 km de Belo Horizonte. No dia anterior ele teve negado o direito de responder ao processo em liberdade. 

Neste momento, de acordo com a Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública), ele está detido no Ceresp (Centro de Remanejamento de Presos) de Ipatinga. 

Relembre o caso

O boletim de ocorrência indica que o motoboy e administrador Maxsuel Ribeiro foi preso após ser reconhecido pela mulher assaltada, uma secretária de 40 anos. Ela alegou que teve duas joias, avaliadas em R$ 40 mil, furtadas pelo homem. Na delegacia, os policiais acionaram a vítima de um outro roubo similar ocorrido no dia 6 de julho, em um bairro vizinho, em Ipatinga. Ela também confirmou que foi atacada pelo motoboy.

O administrador, que não tem nenhuma passagem pela polícia, negou os crimes e disse que não tinha conhecimento sobre os fatos relatados. As joias também não foram encontradas com ele. 

De acordo com familiares de Maxsuel, ele estaria trabalhando na hora em que o crime foi registrado. 

Em entrevista ao R7, a delegada Amanda Morais, plantonista responsável pela detenção de Ribeiro no dia 15 de julho, explicou que o reconhecimento feito pela vítima foi determinante para o pedido de prisão, mesmo diante da ficha limpa do suspeito.

— É atípico, mas não impede [a prisão de suspeito com bons antecedentes]. O que chamou atenção foi que a vítima foi muito convicta ao afirmar que foi este suspeito. Ele usava trajes parecidos com o indicado. Além disto, ele se contradisse em alguns momentos com a polícia.

Racismo 

A Comissão de Direitos Humanos da ALMG (Assembleia Legislativa de Minas Gerais) enviou à Justiça, na última semana, um ofício questionando a prisão do motoboy.

O documento assinado pela deputada Andréia de Jesus (PSOL), presidente do colegiado, pede que o juiz responsável pela 2ª Vara Criminal de Ipatinga realize uma audiência de custódia, reveja a decisão que manteve o suspeito preso durante as investigações.

No texto, a parlamentar aponta suposta falta de "prova material para a comprovação de autoria" do crime. Andréia de Jesus pontuou questionamentos feitos pela família e pelos advogados do motoboy, que é formado em administração de empresas e nunca havia sido preso.

"Conforme consta no boletim de ocorrência, o assaltante descrito pela vítima seria um homem negro de 1,80m, enquanto o sr. Maxsuel mede apenas 1,60m; ademais, o assaltante teria cometido o crime de capacete, de modo que seria no mínimo insuficiente o reconhecimento dado pela vítima", destaca trecho do ofício.

A deputada também pontuou que documentos já apresentados pela defesa indicam que Maxsuel Ribeiro estaria trabalhando no horário próximo ao que o assalto teria ocorrido. Ao R7, Andréia de Jesus avaliou que o investigado pode ter sido vítima de racismo estrutural.

— Essa prisão, de um jovem negro, trabalhador, com residência fixa, sem antecedentes criminais e que não poderia ter sido reconhecido como autor de um crime que não cometeu é mais uma prova do racismo estrutural de nosso país. É inadmissível esse brutal encarceramento de corpos negros mesmo quando não existe nenhuma prova de crime. É a barbárie.

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