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‘Me deu quatro socos no rosto’: enfermeira é agredida em UPA de MG e relata ameaças de morte

Levantamento do Coren-MG mostra que 95% dos profissionais ouvidos já sofreram violência no trabalho

Minas Gerais|Cler Santos, do R7; Alice Brito e Vinícius Araújo, da RECORD Minas

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Enfermeira Keila Cristina Rodrigues Barbosa foi agredida fisicamente enquanto trabalhava na UPA de São Joaquim de Bicas, MG, e relatou ameaças de morte.
  • Levantamento do Coren-MG revela que 95% dos profissionais de enfermagem já sofreram algum tipo de violência no trabalho, incluindo agressões físicas e verbais.
  • Após o incidente, Keila buscou assistência jurídica e relatou sentir-se psicologicamente abalada, temendo por sua segurança no ambiente de trabalho.
  • O Projeto de Lei nº 2.672/2025, em tramitação no Congresso Nacional, propõe aumentar as penas para crimes contra profissionais de saúde e educação durante o exercício da função.

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Além das agressões físicas, a profissional afirma que foi ameaçada de morte pela mãe da criança e pelo marido dela
Além das agressões físicas, a profissional afirma que foi ameaçada de morte pela mãe da criança e pelo marido dela Reprodução/RECORD Minas

“Ela me deu quatro socos no rosto, chutes, pontapés e empurrões.” O relato é da enfermeira Keila Cristina Rodrigues Barbosa, agredida enquanto trabalhava na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) de São Joaquim de Bicas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O ataque aconteceu na última segunda-feira (31), durante o atendimento a uma bebê de 9 meses. Além das agressões físicas, a profissional afirma que foi ameaçada de morte pela mãe da criança e pelo marido dela.

O episódio expõe uma realidade que vai além do caso ocorrido na Grande BH. Dados do Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais (Coren-MG) mostram que, entre 479 profissionais que responderam a um formulário da instituição entre julho de 2025 e julho de 2026, 455, o equivalente a 95%, afirmaram já ter sofrido algum tipo de violência no ambiente de trabalho. Foram relatados casos de violência verbal, assédio moral, agressões físicas, injúria racial e até violência sexual.


No caso de Keila, a confusão começou durante a classificação de risco. Segundo a enfermeira, a mãe chegou à UPA dizendo que a filha estava engasgada. A criança recebeu atendimento imediatamente, antes mesmo da abertura da ficha.

A enfermeira avaliou os sinais vitais e constatou que a bebê estava ativa, chorando, com respiração regular e saturação de oxigênio em 100%. Keila afirma que mostrou os dados à mãe e tentou tranquilizá-la, explicando que, naquele momento, não havia sinais de engasgo, mas que, ainda assim, a menina seria encaminhada para avaliação médica.


Enquanto o pai foi abrir a ficha, Keila começou a fazer perguntas para entender como o suposto engasgo havia ocorrido e reunir informações para repassá-las ao médico. Segundo a enfermeira, a mãe interpretou os questionamentos como se a profissional estivesse duvidando dela.

“Eu estou tentando te acalmar, estou te explicando a situação”, relembrou Keila. Mesmo assim, segundo ela, a mulher começou a ofendê-la e, em seguida, partiu para a agressão.


“Ela me deu quatro socos no rosto, chutes, pontapés, empurrões. As agressões aconteceram por até um minuto, até que o porteiro da unidade pudesse chegar e tirar a agressora de cima de mim”, contou.

Agentes penitenciários que estavam na UPA também teriam ajudado a conter a situação. Ainda conforme a enfermeira, a mulher e o marido permaneceram no local e fizeram ameaças de morte.


“Eu estaria morta”

Keila afirma que a Polícia Militar foi acionada cinco vezes pelo telefone dela, além de outras ligações feitas por colegas. Segundo a profissional, a mulher permaneceu na unidade por cerca de meia hora depois das agressões.

Antes de ir embora, ainda conforme a vítima, a suspeita deixou na recepção um papel com o nome e números de telefone e teria dito que ainda procuraria a enfermeira. Funcionários conseguiram fotografar a placa do veículo usado pelo casal.

A demora no atendimento policial, segundo Keila, aumentou a sensação de insegurança.

“Se ela tivesse uma arma naquele momento, infelizmente eu não estaria aqui dando entrevista. Eu estaria morta se ela ou o marido dela estivessem armados”, afirmou.

A enfermeira também reclama da falta de profissionais de segurança dentro da UPA.

“É o tempo todo a gente é ameaçado, violado. A unidade, infelizmente, não dispõe de guarda municipal, aqui a gente não tem vigia. Nós estamos à mercê da violência o tempo todo”, disse.

Segundo Keila, quando os militares chegaram, a suspeita já havia deixado o local. Os policiais receberam a placa do veículo e teriam ido até o endereço relacionado à mulher, mas não encontraram ninguém. A profissional afirma que posteriormente procurou assistência jurídica e fez a representação.

A Prefeitura de São Joaquim de Bicas informou que a coordenação administrativa da UPA prestou apoio à enfermeira e acionou imediatamente a polícia. Segundo o município, a unidade possui circuito interno de câmeras acompanhado 24 horas por uma central de monitoramento.

A administração municipal afirmou ainda que está colaborando com as autoridades e disponibilizando imagens e informações que possam ajudar na apuração. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, este é o primeiro caso registrado de agressão física contra enfermeiros durante o expediente na rede municipal.

Ameaças

Para Keila, as consequências da violência não terminaram quando as agressões cessaram. Enfermeira há cinco anos e acostumada a trabalhar com crianças e gestantes, ela afirma estar psicologicamente abalada e não saber quando conseguirá retornar ao trabalho.

“No momento, o meu psicológico está muito abalado. Eu estou vivendo à base de remédios, à base de medicações. Eu não sei quão cedo eu vou conseguir trabalhar novamente. Eu não sei se ela vai chegar aqui, se ela vai me agredir, se ela vai me matar”, desabafou.

Segundo o advogado que acompanha a enfermeira, foi solicitada a apuração de possíveis crimes de lesão corporal, ameaça, injúria e eventuais crimes contra a honra.

Violência atinge profissionais da saúde

Os números do Coren-MG ajudam a dimensionar o problema enfrentado pelos trabalhadores da Enfermagem no estado.

Das 479 pessoas que responderam ao formulário da instituição entre julho de 2025 e julho de 2026, 250 são enfermeiros, 196 técnicos de Enfermagem e seis auxiliares. Os demais disseram exercer mais de uma dessas funções.

Entre as violências relatadas estão 227 registros de violência verbal, considerando as duas classificações adotadas no formulário; 172 de assédio moral; 61 de violência física; 11 de injúria racial; e oito de violência sexual.

Os pacientes lideram entre os apontados como responsáveis pelas violências, com 144 registros. Depois aparecem integrantes da própria equipe de Enfermagem, com 71; familiares de pacientes, com 62; integrantes da equipe médica, com 46; empregadores, também com 46; e acompanhantes de pacientes, com 29.

Outro dado revela o que acontece depois das agressões: 337 dos 479 profissionais, ou 70,4%, disseram não ter recebido apoio institucional após o episódio de violência. Apenas 142, ou 29,6%, afirmaram ter contado com algum tipo de suporte.

O Coren-MG ressalta que os números correspondem somente aos registros feitos por meio do formulário e, portanto, não representam necessariamente todos os casos de violência contra trabalhadores da Enfermagem no estado. Segundo o conselho, a subnotificação também deve ser considerada, já que muitos profissionais não formalizam os episódios.

Médicos também são alvo

A violência também aparece em números nacionais envolvendo médicos. Um levantamento do Conselho Federal de Medicina (CFM) aponta que o volume de agressões contra esses profissionais aumentou 68% em uma década.

Em 2024, foram registrados 4.562 boletins de ocorrência, o equivalente a aproximadamente 12 casos por dia ou um registro a cada duas horas. Segundo o CFM, foi o maior número da série histórica analisada.

Desde 2013, foram contabilizados quase 40 mil boletins de ocorrência envolvendo médicos vítimas de crimes como ameaça, injúria, desacato, lesão corporal, difamação e furto.

Minas Gerais aparece em posição de destaque no levantamento. Em 2024, o estado teve o terceiro maior número de registros do país, atrás apenas de São Paulo, com 832 boletins de ocorrência, e Paraná, com 767.

Agressões deixam marcas além das lesões

A exposição à violência dentro do ambiente de trabalho também pode comprometer a saúde mental dos profissionais.

O médico e professor de psiquiatria Jorge Tostes explica que o estresse e o trauma provocados pelas agressões podem levar ao burnout e provocar irritabilidade, maior reatividade emocional ou, no sentido oposto, distanciamento e frieza nas relações pessoais e no contato com pacientes.

“O estresse crônico, o sentimento de vulnerabilidade e a ansiedade recorrente podem culminar em outros transtornos mentais e doenças físicas, como depressão e abuso de álcool, drogas e medicamentos”, explica.

Um estudo sobre qualidade de vida dos médicos divulgado pela Afya apontou que 45% dos participantes apresentam algum transtorno de saúde mental. Cerca de 40% disseram ter diagnóstico de ansiedade e 58,2% afirmaram já ter vivenciado algum grau de esgotamento relacionado ao trabalho.

Segundo Tostes, a insegurança pode agravar uma rotina que já é marcada pela pressão, principalmente em ambientes de urgência e emergência.

“Lidar com vidas em risco é difícil, especialmente em serviços lotados, com poucos profissionais e recursos escassos. Nesse contexto, a sensação de insegurança, pressão e vulnerabilidade pode agravar problemas de saúde mental, como ansiedade, depressão e burnout”, afirma.

Congresso discute penas mais duras

A violência contra trabalhadores da saúde também chegou ao Congresso Nacional. O Projeto de Lei nº 2.672/2025 prevê o endurecimento das penas para crimes praticados contra profissionais da saúde e da educação durante o exercício da função ou em razão dela.

O texto prevê aumento das penas para crimes como lesão corporal, ameaça, crimes contra a honra, constrangimento ilegal, incitação ao crime e desacato, além de alterações relacionadas aos casos de homicídio e lesão corporal grave ou seguida de morte.

A proposta foi aprovada pelo Senado com mudanças e, por isso, deve retornar à Câmara dos Deputados para uma nova análise.

A advogada Tereza Cristina Sader Vilar ressalta que penas maiores, isoladamente, não resolvem o problema. “O endurecimento penal não substitui políticas de segurança, prevenção e gestão de conflitos dentro dos estabelecimentos de saúde”, afirma.

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