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"Não tenho raiva", diz diretora agredida por aluno com barra de ferro

Profissional relata inchaço nos olhos, dor de cabeça e lapsos de memória 15 dias após crime

Minas Gerais|Enzo Menezes, do R7

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Estudante de 16 anos atacou diretora na Escola Estadual Bolivar de Freitas
Estudante de 16 anos atacou diretora na Escola Estadual Bolivar de Freitas

Agredida por um aluno de 16 anos com uma barra de ferro, a diretora da Escola Estadual Bolivar de Freitas diz não sentir raiva do jovem. Rosalina Amaral, de 52 anos, é professora de português e inglês há 25 anos e desde 2013 dirige a escola, que fica no bairro Jardim Guanabara, na região norte de BH.

Afastada das atividades, ela relata dores de cabeça e inchaço no olho esquerdo, e aponta que a pior dor é emocional, por ser ver impedida de trabalhar com o que mais gosta.


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Nesta entrevista ao R7, Rosalina analisa que os alunos violentos "também são vítimas" porque levam para a escola o que aprendem no convívio em sociedade. Para ela, o estudante violento libera a ravia "no lugar que achar mais frágil".

Confira a entrevista completa a seguir:


Como está sua recuperação?

Estou fazendo exames, o médico pediu para fazer outra tomografia. Tive um probleminha com minha visão esquerda porque inchou muito e atrapalhou a vista. Estou usando colírio antiinflamatório e tenho muitas dores de cabeça. O que mais dói é a questão emocional. Ando realmente esquecendo algumas coisas, porque a pancada foi muito forte. Pego um objeto e não sei onde pus. Tudo isso pode ser pelo trauma emocional, fui ao psiquiatra e ele me receitou ansiolíticos. A secretaria me concedeu um período de licença para cuidar de mim. Vamos ver com os exames como vai ser, porque a escola requer muita dedicação.


O que você lembra do dia da agressão? Como você foi atacada?

Ele já chegou na escola bastante alterado e estava conversando com a vice-diretora e a supervisora, eles se desentenderam e saiu chutando tudo. Alguém falou que ia chamar a polícia, e nisso ele voltou, pegou o tripé e acertou quem viu pela frente. Não existia um motivo. No dia anterior ele já havia ameaçado uma professora e foi difícil conter. Ele chegou à escola alterado porque chamamos a mãe. Na verdade, o aluno também é vítima de muita coisa. O aluno vai soltar a violência que está dentro dele no lugar que achar mais frágil. Por isso a violência nas escolas. Não tenho raiva, só quero ficar bem. Ele não era o aluno mais agressivo, já tivemos casos piores.

Ele vai ser transferido?

Ele aceitou a transferência, mas precisamos de um apoio diferente. Transferir o aluno não vai resolver, porque outro colega [na outra escola] vai ter o mesmo problema. É necessário acolher e trabalhar outra noção de escola para essas questões deficientes. Não dá para ensinar como uma receita.

Atos violentos são comuns na sua escola?

Apesar da escola ser em uma comunidade que requer cuidado, temos lidado com isso [violência escolar], estamos acostumados. É claro que temos alunos muito bons, pais que nos ajudam, mas também temos alunos violentos, e não podemos deixar de assisti-los. Já tivemos até aluno cumprindo regime sócio-educativo que nos saiu agradecendo pela ajuda. De vez em quando, alguns se alteram, e a escola tem que aceitar, porque na escola pública o aluno não pode ser expulso.

A senhora está há dois anos na direção da escola. O que muda em sua visão em relação à sala de aula?

A gente sofre pressão dos pais, dos professores e das leis que nos regem. A situação da direção é bem complexa. Há famílias que não cumprem seu papel e transferem para a escola o dever de educar. Nosso papel é o de ensinar, trazer questões para o intelecto. É preciso investir em coisas diferentes, mas também na formação do aluno dentro de casa, para ele chegar na escola com um pingo de respeito e valores. É necessário que os governantes pensem nisso, porque daqui a pouco teremos o sistema totalmente desestruturado e desmotivado.

O salário e a falta de estrutura das escolas também desanimam.....

Nossa geração ama a profissão. Eu comecei a dar aulas porque quis, amo o que faço e fico profundamente chateada de pensar no que aconteceu. Qualquer professor que sofra agressão física ou emocional fica no chão. O salário é baixo mesmo, é ilusório. Mas foi o problema que menos me angustiou. É muito mais triste ter de parar a aula porque houve uma interferência no ambiente escolar. Como por exemplo a polícia ter de interferir porque a indisciplina ultrapassou qualquer limite controlável. Isso veio de fora da escola, é incapaz de ser resolvido dentro dela. Muito aluno sai de sala e fala que vai buscar uma arma. O professor surta e nem volta. É uma situação desesperadora.

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