Logo R7.com
RecordPlus

Pearl Jam pede punição a responsáveis por tragédia em Mariana e faz discurso pela paz em show em Minas 

Mesmo com chuva, banda norte-americana lotou o estádio Mineirão

Minas Gerais|Thiago Pereira, especial para o R7

  • Google News
Pearl Jam lotou o estádio Mineirão nesta sexta-feira (20)
Pearl Jam lotou o estádio Mineirão nesta sexta-feira (20)

Um dos melhores textos cunhados sobre o Pearl Jam — ainda no calor da fritura grunge que tomou o mundo de assalto no início dos 1990 — saiu da pena interdisciplinar do inglês Simon Reynolds. Publicada pela Melody Maker em 1993, a análise do crítico apontava as diferenças entre as então maiores bandas do chamado “som de Seattle”: o Pearl Jam e o Nirvana, especificamente entre as posturas de seus líderes, Kurt Cobain e Eddie Vedder. Enquanto Reynolds via o falecido loiro como empático com a ideia de “crucificação” do Salvador do Rock, Vedder “não desiste da luta”, o que faria dele um “herói do rock no sentido mais tradicional (...) decente demais, generoso demais, não é mesquinho ou patético o bastante”. Vale lembrar que o autor concluía brilhantemente seu texto com a receita “junte Vedder e Cobain e você terá algo próximo de um ser humano por inteiro”.

Mais de duas décadas depois, a caracterização do escritor soa mais fresca que a chuva que despencou no Mineirão algumas horas atrás, enquanto milhares de mineiros tiveram a oportunidade de ver pela primeira vez o Pearl Jam no quintal de casa. Vedder é, sim, esse herói do rock no sentido mais tradicional — pensando em tradição aqui como algo Springsteeniano, o working class, o sujeito comum, e não com as vestes ambiguamente pop de um Bono Vox. Se o mundo está em guerra, vai ter discurso e canções pacíficas sim — Imagine, em versão dispensável (porque tem canções que não precisam de versões, definitivamente), bateu ponto no estádio. Se o estado está na lama, vai ter menção e “engajamento” em relação a isso também — como quando Vedder cita nominalmente a Vale/Samarco e clama por punição aos responsáveis do crime ambiental acontecido em Mariana, garantindo que parte da renda do show iria para os prejudicados e emendando na sequência à raivosa Do The Evolution. O recente atentado em Paris também foi “citado”, numa versão de I Want You So Hard, do Eagles of Death Metal, banda que se apresentava na casa de shows Bataclan quando mais de uma centena de pessoas foram mortas na ação terrorista da última semana.


De certa forma, os caminhos tortuosos que levaram Cobain a meter uma bala na cabeça foram os caminhos que levaram o Pearl Jam a traçar sua trajetória errática, sim, mas que desembocou num show apoteótico como esse de hoje, e como tem sido, a julgar pelos comentários, a turnê no Brasil. Se um parecia se refugiar em seu mundo particular — uma lógica eu versus o mundo cruel —, o Pearl Jam faz de um estádio lotado a sua versão de mundo, seguro, compartilhável, hínico. O que foi visto no Mineirão trata-se, no fim das contas, da celebração de uma comunidade gigantesca espalhada pelo mundo, que muito além da relação espaço-tempo tingida nos românticos tempos de grunge, hoje se solidifica numa genuína instituição do rock norte-americano, coração eticamente batendo à esquerda, mas acordes e sonoridades tributando esteticamente escolas clássicas do som ianque.

Pearl Jam faz show em São Paulo e cita atentados na França: "Nosso amor vai para todos em Paris"


Aliás, é por aí a lógica, que (também) explica a alta média etária do público presente e a ausência da garotada: o Pearl Jam já se tornou um clássico. Se essa expectativa era o que afugentava o eterno angry white boy Cobain, ela parece uma delícia para esses quase cinquentões que se reuniram ainda nos anos 1980 embalados pelo hard rock linha dura pero radiofônico que gerou o intocável Ten e que, aí sim, se aventurou nos tortuosos caminhos da, aham, grande arte, através de experimentalismos em menor (No Code) ou maior grau (Vitalogy); folkismos, punk rocks, etc etc etc. Um catadão suculento do melhor da América seja de seus porões, de sua história, de suas rádios. E não foi isso que fizeram, no fim das contas, alguns dos artistas que o Pearl Jam parece se espelhar? Não é a partir desse mosaico de grandes referências, por mais díspares que sejam do Pink Floyd de Confortably Numb ao Dead Boys de Sonic Reducer (ambas executadas no show de hoje), que Vedder e Cia buscam forjar para si um verbete particular na enciclopédia do rock?

Mas, claro, não é possível fugir de certa localização específica. O GPS histórico que localiza a banda não é assim tão descartável. Esse é o grupo que ainda (quase) encerra ou faz questão de tocar em (quase) todos os seus shows o hit primeiro Alive — no caso do show desta sexta-feira (20), tivemos após o hino, já com luzes acesas, a belíssima Yellow Ledbetter, com o exausto Vedder babando vinho e o monstro Mike McReady assumindo as cores hendrixianas da canção com uma menção ligeira à Little Wing.


E, olha, observando Belo Horizonte cinzenta, molhada de chuva o dia inteiro, fica difícil não imaginar que uma boa parcela do público ali estava finalmente realizando a aproximação definitiva da capital mineira com a mítica Seattle. A cidade que pariu a melhor banda “grunge” do Brasil, a Diesel; que carrega na sua retina até hoje o antológico show do Mudhoney por aqui em 2001; que faz balsaquianos recuperarem a camisa de flanela das traças do armário para ver esse show... Quantos adultos que estavam ali no estádio não traçaram paralelos que incluíam encadeamentos afetivos como “clipe de ‘Alive’ na MTV — acústico — namoros ao som de Black — briga com Ticketmaster — o difícil começo dos anos 2000 — a boa retomada no final da mesma década”? Quantos ali não compraram uma guitarra depois de escutar Go, Porch, Rearviewmirror, Garden e, ao escutarem elas finalmente executadas ali, praticaram air guitar fervoroso? Quantos não aguentaram calados à crítica malhar discos que hoje merecem cuidadosa revisão?

A possibilidade de passar tudo isso a limpo, em três horas de show, é tentadora demais e até poética demais para cair no imenso valão da nostalgia, hoje uma chancela em si. O Pearl Jam — e seu show — são melhores que isso. E a banda ajuda — e muito — com seu saudável hábito de dispensar o piloto automático e fazer dos set lists agradáveis surpresas. O Pearl Jam é clássico mesmo: assim como nas antigas, seus shows REALMENTE começam antes da banda pisar no palco. Eles vão tocar o que? Quais serão os covers? Quanto do disco novo vai pintar no palco? Sites como o Set List FM não resolvem muito o caso, e isso é ótimo.


E, sim, temos o fator magia. Indispensável para o circo da idolatria, que o Pearl Jam consegue e mantêm como poucos no mundo rock contemporâneo. Parece até piada: depois de quatro horas castigantes de chuva na capital mineira, quando a banda sobe ao palco às 20h50 da noite, executando uma inesperada (mas bem vinda) versão de... Rain dos Beatles, a garoa cessa. Ou quando, de cara, soltam uma daquelas sing along songs que, mesmo tão simples, parecem preencher todo um Mineirão, como Eldery Woman Behind The Counter In A Small Town. Ou ainda, quando Vedder transforma o óbvio em histeria, anunciando que vai dizer algo que nunca disse antes: “Boa noite, Belo Horizonte”, emocionando quem ainda não tinha se emocionado com o matador início do show.

Era só o início. Por quase três horas, o quinteto brincou com o público composto de fanáticos e simpatizantes ao destilar canções como o lado B Bee Girl; com Vedder procurando no palco algo para se erguer durante uma tesudíssima Even Flow, aos moldes do clássico clipe; com as cenas de Belo Horizonte no telão durante a execução de Given To Fly; lembrando que ainda é capaz de compor canções com ligação direta no coração, nas vozes e nas palmas de seu público como Sirens. Mas, principalmente, mostrou que conseguiu constituir alguns quase clichês que nunca vão nos cansar, como aquela introdução de baixo em Jeremy, ou aquele I know someday you´ll have a beautiful life/ I know you´ll be a star/In somebody else sky que estica as lágrima retidas (desde, sei lá, 1994?) a rolarem cansadas no chão do estádio. E se a capital mineira é um lar confortável para o chamado classic rock, não era de se esperar outra coisa senão uma acolhida muito afetuosa para os ex-jovens de Seattle. E os cabelos brancos de Matt Cameron, as rugas proeminentes de Jeff Ament, o cansaço aparente de Gossard e McReady agradeceram o entendimento do público com uma performance inesquecível. Vedder? Vedder se mostrou um ser humano por inteiro, comandando os amigos e um estádio repleto de fiéis, escapando do messianismo chato ou da egolatria fútil do rock star. É ao vivo, portanto que o Pearl Jam garante que seu lugar na prateleira é outro: lá onde repousam os gigantes. Contrariando o que disse seu pai espiritual, Neil Young, é melhor envelhecer que se esvair...

Acesse o R7 Play e assista à programação da Record quando quiser

Com lembrança a atentado em Paris, Pearl Jam faz show emocionante em São Paulo:

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.