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Professores ameaçados por pais e alunos sofrem com medo e ansiedade em Minas Gerais

Psiquiatra explica danos à saúde mental dos docentes e como isso pode prejudicar, também, o rendimento no ambiente escolar

Minas Gerais|Arnon Gonçalves, do R7 e Juliana Pereira, da Record Minas

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Professores em Minas Gerais enfrentam ameaças constantes, afetando sua saúde mental e desempenho profissional.
  • Casos recentes incluem ameaças a uma professora por pais de ex-aluno e suspensão de atividades na UFOP devido a ameaças de um estudante.
  • Pesquisa do Sind-UTE/MG revela que 94,3% dos educadores sofreram violência no ambiente escolar, com impactos psicológicos significativos.
  • A psiquiatra Cíntia Braga destaca que essas situações podem levar a transtornos mentais e comprometer a qualidade do ensino.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Aluno invadiu campus da UFOP e fez várias ameaças contra diretoria, professores e colegas Reprodução/Daniel Tulher/ICEA

Casos envolvendo professores ameaçados têm se tornado cada vez mais constantes. Duas ocorrências foram registradas em Minas Gerais, nos últimos dias. No primeiro caso, uma docente relata que está sendo perseguida pelos pais de um ex-aluno. No segundo, um estudante foi expulso e depois preso, em uma Universidade Federal, por fazer ataques de ódio contra diretoria, colegas de sala e professores.

Uma pesquisa recente evidencia que são constantes os episódios de violência contra professores dentro e fora das salas de aula. Além do risco à integridade física, os educadores que passam por situações assim ainda precisam lidar com os danos psicológicos. Muitos desenvolvem ansiedade, estresse, depressão e isso pode atingir diretamente o exercício da profissão e a relação deles com os outros alunos e docentes no ambiente escolar.


Professora denuncia perseguição

O medo de sofrer novas ameaças mudou a rotina de uma professora de Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Há cerca de dez dias, a educadora afirma ser alvo de intimidações feitas por um casal que, segundo ela, seriam pais de um ex-aluno da escola onde trabalha. O caso foi registrado em boletim de ocorrência e está sendo investigado pela Polícia Civil de Minas Gerais.

Segundo ela, a situação começou com a acusação de que ela teria difamado o filho do casal quando ele ainda estava na instituição. A educadora, no entanto, afirma que não teve qualquer atrito com o adolescente e diz desconhecer o motivo das acusações.


Câmeras de segurança instaladas na residência registraram a movimentação do homem em frente ao imóvel. Em uma das gravações, ele aparece chegando de motocicleta e parando sobre a calçada, próximo ao portão da garagem. Segundo o relato, o homem pediu que ela fosse até a porta. Como a educadora decidiu não abrir, ele deixou o local.

A situação teria se repetido. De acordo com a professora, a mulher, que seria mãe do adolescente, também foi até a escola para procurá-la. As ameaças, segundo a professora, também chegaram por meio do telefone de sua irmã. “Eu não sei por que isso está acontecendo. Não tive nenhum atrito com esse aluno”, afirmou.


O adolescente estudou na instituição há aproximadamente dois anos e deixou a escola depois de ser transferido a pedido dos próprios pais. A professora afirma que não teve problemas com ele durante o período em que foi seu aluno. Para a educadora, a situação deixou de ser um conflito relacionado ao ambiente escolar e passou a representar uma ameaça à sua vida pessoal e à de sua família. “Escola não é para isso. A gente está ali para educar, não para sofrer esse tipo de ameaça”, desabafou.

A Polícia Civil informou que todos os envolvidos deverão ser intimados para prestar depoimento. Depois dessa etapa, o caso deverá ser encaminhado ao Juizado Especial Criminal para as providências cabíveis.


Aluno ameaça professores em federal

Em João Monlevade, na região Central de Minas, outro caso envolvendo ameaças contra profissionais e estudantes levou à suspensão das atividades acadêmicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). O episódio ocorreu na unidade de Ciências Exatas e Aplicadas (Icea). Segundo a universidade, um estudante que já havia sido afastado voltou ao campus e, de acordo com a instituição, fez novas ameaças contra integrantes da comunidade acadêmica. O universitário, de 22 anos, é investigado pela Polícia Civil.

Conforme informado pela UFOP, as ameaças começaram ainda no primeiro semestre de 2026. Na ocasião, o estudante foi afastado administrativamente e impedido de participar presencialmente das atividades acadêmicas e de frequentar os espaços do campus. As vítimas foram orientadas pela universidade, registraram boletins de ocorrência e passaram a receber acompanhamento da instituição.

Além do afastamento administrativo, havia uma medida cautelar judicial proibindo o estudante de entrar no campus. Segundo a UFOP, a determinação foi descumprida com o retorno do aluno à universidade. Diante do episódio, a Direção do Icea e a Reitoria determinaram preventivamente a suspensão das atividades acadêmicas para preservar a segurança de estudantes, professores e demais funcionários.

Em vídeo divulgado nas redes sociais do ICEA, o diretor, Wagner Ragi, explica a situação e conta é o pior momento da carreira dele em 16 anos de docência. “Nós já não temos mais condições de tomar outras atitudes em relação ao estudante. Agora a decisão tem que vir da justiça brasileira. Enquanto o judiciário brasileiro não tomar uma decisão, nós precisamos garantir a segurança da comunidade acadêmica”, disse Ragi.

A Polícia Civil de Minas Gerais informou que investiga a conduta do estudante. Segundo a corporação, ele estava prestes a ser desligado da instituição por jubilamento e passou a ameaçar funcionários e alunos. O inquérito é tratado como prioridade pela Polícia Civil.

Cenário alarmante

Os dois episódios chamam atenção para um problema que vai além de situações isoladas e envolve a segurança e a saúde emocional dos profissionais da educação. Um levantamento do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE/MG) aponta que 94,3% dos profissionais da educação no estado já sofreram algum tipo de violência no ambiente escolar.

Segundo os entrevistados:

- 86,1% já sofreram violência verbal.

- 73,2% relatam ter sofrido violência psicológica.

- 42,5% sofreram violência discriminatória.

- 55,6% dos entrevistados já sofreram violência física.

- 54,1% dos docentes afirmam que os atos violentos ocorrem pelo menos uma vez por mês.

- 39,4% dos professores dizem se sentir totalmente inseguros no ambiente de trabalho.

Saúde mental abalada

Para especialistas em saúde mental, situações de ameaça e perseguição podem produzir efeitos que ultrapassam o momento do episódio. O profissional pode passar a trabalhar em estado constante de alerta, com medo de novos acontecimentos, dificuldade de concentração, ansiedade, alterações no sono e sensação de insegurança.

“Esse trabalhador pode desenvolver vários sintomas, desde insônia, irritabilidade, hipervigilância, até desenvolver transtornos psiquiátricos, transtornos depressivos, transtornos ansiosos, eventualmente um transtorno de estresse postraumático”. explica a psiquiatra Cíntia Braga.

Além do sofrimento individual, a violência pode comprometer a qualidade do ambiente escolar. Segundo a especialista: “Um educador que se sente ameaçado dentro ou fora da instituição pode ter dificuldade para desempenhar suas funções com tranquilidade, principalmente quando a perseguição ultrapassa os limites da escola e chega à residência ou à família”.

Sobre os registros de casos de violência terem se intensificado nos últimos anos, a psiquiatra acredita que havia uma subnotificação que está vindo à tona. “Em números, eu acho que as pessoas estão falando mais sobre isso. Acho que isso tem sido mais conversado, as violências têm sido mais explicitadas. Às vezes a gente observava situações que eram violências e não eram compreendidas como tal. Então, as redes sociais, o acesso à informação trouxe um entendimento maior do que é violência, os limites que a gente pode colocar”.

Braga evidencia, ainda, a complexidade envolvendo a profissão de docente e o quanto isso os torna vulneráveis a direntes situações: “Lidar com muitas pessoas, com ser humano em formação, que vem de diversas formações, diversas histórias, diversos contextos, coloca esse professor num estado de uma fragilidade, de ter que se desdobrar pra atender pessoas muito diferentes. Então, isso traz essa complexidade da profissão. E, sem dúvida, tá exposto a tudo, seja dos alunos, seja de colegas, seja de pais”.

Nota da UFOP na íntegra:

“O Instituto de Ciências Exatas e Aplicadas (Icea), unidade da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) em João Monlevade, suspendeu as atividades acadêmicas na última quinta-feira (27) com o objetivo de garantir a segurança da comunidade acadêmica. A medida vem de forma preventiva após uma série de ameaças feitas por um estudante a outros alunos, professores e à diretoria do instituto.

As ameaças tiveram início no primeiro semestre de 2026. Diante do teor e gravidade das intimidações, a UFOP aplicou medida administrativa, impedindo o estudante de participar presencialmente das atividades acadêmicas e de frequentar os espaços do campus. As pessoas ameaçadas foram orientadas, fizeram boletins de ocorrência e estão sendo acompanhadas pela UFOP.

Além da medida administrativa, há uma medida cautelar judicial que proíbe a entrada do estudante no campus. Uma vez que o estudante tem descumprido essa determinação, a Universidade aguarda os encaminhamentos e as decisões das autoridades competentes. Preventivamente, a Direção do Icea e a Reitoria da UFOP determinaram a suspensão das atividades acadêmicas, de forma a garantir a segurança e o bem-estar de todos.

Por enquanto, não há determinação sobre a oferta das atividades de forma remota. Para que isso ocorra, a questão deverá ser apreciada pelo Conselho Universitário (Cuni). A Pró-Reitoria de Graduação e a Direção do Icea avaliarão as condições para retomada das aulas e a necessidade de adequações no calendário acadêmico".

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