Logo R7.com
RecordPlus
Notícias R7 – Brasil, mundo, saúde, política, empregos e mais

A noite em que encontrei Joan Baez

Para o Meninas e Meninos de Miracema, grupo de amigos reencontrados no Facebook

Prisma|Octavio Tostes

  • Google News

Procurando numa rádio da Internet uma playlist para ouvir enquanto escrevesse, meus olhos reencontraram Joan Baez. Lembrei da noite em que a encontrei. Um sábado na primavera de 1994 na Califórnia. Estudava inglês em Berkeley e colaborava com o “Brazil Today”, tablóide editado pelo jornalista gaúcho Pedro Haase para os brasileiros da Bay Area, as cidades em torno de São Francisco. Um deles era o Fio Maravilha, do Flamengo, sem a dentuça e um artilheiro na entrega de pizzas.

Pedro e eu tínhamos ido cobrir um carnaval fora de época em Santa Cruz, a uma hora e meia de carro de Berkeley. Na quadra, o Brasil esquentou os pandeiros e eu avistei Joan Baez. Aos 53 anos, já usava o cabelo curto de hoje, então grisalho, com uma charmosa trança fina amarrada com fecho de metal e tiras de couro. Um cordão também de couro com uma cruz de prata, três pulseiras no braço esquerdo, uma no direito e um cinto rústico davam o ar folk ao conjunto de camiseta preta com estampa asteca e jeans negro com um retalho patchwork azul.


Joan Chandos Baez, uma das faces mais famosas dos agitados anos 1960 e 70 nos Estados Unidos - e talvez a mais suave e consistente. Cristalina nas melodias e cortante nas letras. Filha de pai mexicano e mãe escocesa, foi criada nos preceitos quaker de culto a Deus sem sacerdotes, leitura diária da Bíblia e vida simples, baseada nos valores de igualdade, honestidade, ação social e pacifismo. Esta teria sido a fonte da militância que a levou a marchar com Martin Luther King pelos direitos civis e a protestar contra a guerra do Vietnam. Rainha do folk, namorada de Bob Dylan, estrela de Woodstock, ativista contra armas nucleares e pelos direitos de gays e lésbicas, ela estava ali, serena, no meio da batucada de ioiô e iaiá.

Aproximei-me e receoso de tropeçar no inglês, disse que era brasileiro e jornalista. Que cobrira sua visita ao Brasil, em 1981, quando fora proibida de cantar para universitários em São Paulo. As ditaduras militares têm razões difíceis de entender, disse Joan com um sorriso. Contei que quando ouvi pela primeira vez “Diamonds and Rust” – inspirada no relacionamento com Dylan –, achei a música tocante (touching). E perguntei como se lembrava daquela história, tanto tempo depois. Ela fez uma pausa mínima, esboçou um sorriso ainda mais sutil e respondeu que Bob era uma pessoa muito especial e um grande amigo. Agradeci e nos despedimos.


Nunca mais esqueci o breve silêncio de Joan Baez sobre Bob Dylan. Ela era já rainha do folk quando revelou Dylan. Namoraram de 1963 a 1965. O documentário “Don’t Look Back” (Não olhe para trás), sobre uma turnê à Inglaterra em 1965, mostra o fim do relacionamento. Dylan, irritadiço e arrogante, nem a defende quando seus amigos debocham dela com sarcasmo.

Dez anos depois, Joan está compondo, o telefone toca e Dylan, de uma cabine do meio-oeste, recita para ela a letra de “Lily, Rosemary And The Jack of Hearts”, uma das baladas mais intrigantes do compositor. A música que Joan compunha incorpora o telefonema e se torna “Diamonds and Rust” – título do disco de 1975 e uma assombração do amor que tinham vivido. Nós dois sabemos o que as memórias podem trazer, elas trazem diamantes e ferrugem, diz a letra. E desfia lembranças de Joan que oscilam entre a cena de Dylan no inverno de Nova York, folhas secas caindo ao redor, a sensação de que poderiam ter morrido ali e naquele instante, de tão felizes, e o travo: você disse que minha poesia era nojenta.

Hoje ela mora em Woodside, a uma hora da Santa Cruz de nosso encontro. Em um dos carvalhos do jardim, ergueu uma casa de árvore onde medita. Seu Twitter mostra fotos dos quadros que agora pinta, de ensaios e shows mundo afora. Registra os 50 anos do discurso “I have a dream”, de Luther King. Em um vídeo, violão em punho, canta “Imagine” em solidariedade a manifestantes na Turquia. Aos 73 anos, a voz não vai mais às alturas de antes e emociona sempre. Em um dos shows a luz violeta refletida nos cabelos - curtos como há 20 anos e agora brancos - sugere uma pétala de orquídea. Joan na estrada, on the road. Na ativa, on the stage. Divine, divina.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.