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O Carnaval virou disputa de posicionamento

Entre blocos e trios, cidades competem por público, dinheiro e relevância no mapa do Brasil

Além do Marketing|Do R7

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Carnaval de BH Reprodução/Instagram @prefeiturabh

Carnaval deixou de ser somente samba, aché, pagode. Agora vale tudo, pra garantir que todo tipo de folião vai ficar feliz. Teve Pablo Vittar em São Paulo, Luisa Sonza em BH, Michel Teló nas duas e até Gloria Groove em Floripa. Pra não dizer que não teve cantor tradicional, Veveta abriu o carná de Sampa.

O que me parece estar acontecendo é uma guerra entre as cidades para atrair os foliões. E não é uma guerra silenciosa. É disputa de estilos, de público, de orçamento público e, principalmente, de posicionamento. Cada prefeitura parece ter entendido que Carnaval hoje é vitrine estratégica, é branding urbano ao vivo, transmitido em rede nacional e replicado nas redes sociais em tempo real.


A grande questão é como se diferenciar dos pontos tradicionais, como o Rio de Janeiro, Salvador e Olinda. Esses três já carregam décadas — ou séculos — de associação automática com folia. São marcas consolidadas no imaginário coletivo. Então quem chega depois precisa construir uma nova narrativa, própria.

BH já se anuncia como o “Melhor carnaval de rua do Brasil”. Apesar de bem subjetivo, mais de um milhão de pessoas concorda. Quer dizer, 1,2 milhão, o número esperado para este ano. Esse público mais do que dobrou desde a pandemia, quando a prefeitura resolveu fazer de BH o centro do carnaval de rua. Ali houve uma decisão clara de política pública: assumir o carnaval como ativo central da cidade, não como um evento secundário.


Pra se ter uma ideia do esforço, só de banheiros químicos foram instalados mais de 15 mil, para dar conta dos foliões dos 650 blocos que desfilam nos quatro dias. Isso não é um detalhe, é a prefeitura falando: “venha! estamos preparados”.

Oferecer infraestrutura é a melhor forma de atrair os foliões mais animados. Apesar de todo esforço, ainda é a cidade que menos arrecada com o evento, pois cada um dos fãs do Rei Momo mineiro gasta, em média, R$ 750. Mineiro é pão duro, ou paulistano tem mais dinheiro no bolso? Sei lá... mas talvez o posicionamento explique parte disso. BH aposta em carnaval democrático, pulverizado, de rua, menos dependente de camarotes premium e grandes patrocínios corporativos.


Só sei que o valor gasto pelo turista em SP passa de R$ 1,5 mil. Não arrecada mais porque a maior parte dos foliões é de moradores da própria cidade. Em número de pessoas, eram esperadas mais de 16 milhões nas ruas e nos blocos. Dessas, quase cinco milhões vieram de outras cidades, para pular nos mais de 600 blocos anunciados. Ao som do funk da Vittar e do sertanejo do Teló. São Paulo parece ter entendido que seu ativo é a diversidade. Se a cidade já é conhecida por ser plural, cosmopolita e híbrida, o carnaval precisa refletir isso. Aqui cabe tudo, pois ninguém estranha nada. Esse é o discurso implícito.

Atrasada na briga, Florianópolis trocou, no ano passado, a empresa que organiza seu evento e tem o primeiro carnaval planejado para concorrer com as demais cidades. Essa mudança também é simbólica: é reposicionamento. É a cidade assumindo que quer jogar o jogo das grandes. Sabe Ivete e Daniela Mercury? Passaram longe das praias de Floripa. Quem se apresentou foram Ferrugem, Gloria Groove, Jammil, MC Davi e MC Pedrinho. Tudo a ver com quem quer fazer um carnaval diferente, não é mesmo? Floripa parece mirar no público jovem, de festival, que mistura praia, turismo de verão e experiência musical. É quase um “CarnaWeek” com identidade própria.


O que dá pra perceber é que o turismo tem virado ponta de lança dos prefeitos para trazerem dinheiro pra economia local. Não é só festa. É estratégia econômica. Hotéis lotados, bares cheios, aplicativos rodando, ambulantes trabalhando, companhias aéreas operando no limite. Carnaval virou política de desenvolvimento. Mesmo com todo esforço, todo mundo está ainda muito longe do líder Rio, que fatura quase R$ 6 bi, ou da líder em gasto por pessoa, Salvador, que vê cada turista gastar mais de R$ 2,5 mil e deixar R$ 4,5 bi na economia local. Esses números funcionam como o alvo que todas as demais cidades perseguem.

É preciso lembrar que não tem folião pra todo mundo. E o que a gente deve ver é, cada vez mais, um esforço maior pra atrair quem gosta de pular feito pipoca. Mais investimento em artistas fora do eixo tradicional, mais experiências temáticas, mais comunicação direcionada para nichos específicos. O carnaval deixou de ser homogêneo. Ele se fragmentou em tribos. E parece que cada cidade está escolhendo quais tribos quer seduzir.

A única coisa que sei é que nesse vale-tudo só está faltando bossa nova e rock&roll pra agradar a todo tipo de pessoa. Do jeito que a disputa está aumentando, não duvido que em breve alguém anuncie o “Carnaval Indie”, o “Carnaval Jazz”, ou qualquer outro tipo de folia capaz de atrair pessoas que não gostam de Carnaval. Até porque, no fim das contas, o que está em jogo não é só quem tem o melhor trio elétrico. É quem consegue contar a melhor história sobre si mesma.

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