O dia em que lavei a mão com água sanitária antes de aparecer ao vivo na TV
A entrevista com cheiro de limpeza: saí desinfetado, limpinho e ileso das manchas

São Vicente é uma cidade do litoral paulista. Parte dela fica na ilha e de frente para o mar. A outra parte é a que chamamos de área continental. Lá mora uma família que viveu um drama recente: agressão escolar.
Duas adolescentes, de 12 anos, foram agredidas várias vezes por colegas de classe de uma escola estadual que fica no bairro. Foram agressões violentas, que deixaram hematomas pelo corpo e um dos olhos de uma garota bem machucado.
A família, claro, tentou resolver a questão na escola. Mas você já deve ter percebido que a RECORD foi acionada porque o problema não chegou ao fim.
Fomos até a casa das adolescentes para entender o caso e fomos recebidos pelas mães.
O bairro era simples, mas tudo muito bem estruturado. A casa era enorme, bem-feita. Estava em construção e, por dentro, tinha muito conforto. Todos estavam na sala, esperando a equipe. Estavam as mães e as meninas vítimas.
O clima era pesado, de tristeza. Eu senti isso assim que cheguei.
Mas, apesar dos pesares, evito fazer o trabalho nessa tensão. Eu geralmente conto histórias, sou complacente, tento deixar os entrevistados confiarem em mim. Foi o que fiz e, em poucos minutos, avistei os primeiros sorrisos.
Lá também estavam um vereador e os colaboradores dele.
Eu tinha a missão de fazer uma reportagem e uma entrada ao vivo. Eu tinha uma hora para tudo isso, então não podia perder tempo. Gravei as entrevistas com as mães; não as identificamos por conta da insegurança. Enviei o material com a ajuda do cinegrafista e, em seguida, me preparei para o ao vivo.
Uns 10 minutos antes, estava muito apertado. Eu tenho dificuldade para usar banheiros na casa das pessoas, acho um incômodo para todo mundo, inclusive para mim. Não tive escolha, minha bexiga estava lotada e fiz o pedido:
— Eu posso usar o banheiro?
— Claro! Fica aqui na frente, primeira porta à direita. Só leva o celular, porque lá está sem lâmpada.
Fui correndo, o tempo era meu inimigo. Tive mesmo que iluminar com o celular, já eram 18h e pouco. Fiz o que precisava e, na hora de lavar as mãos, percebi que a torneira estava seca. Não tinha o que fazer, mas, olhando ao redor, percebi uma garrafa PET com água. Ainda pensei:
— Hummm, pode ser cloro ou algum produto químico. Vou cheirar antes!
Foi o que fiz. Abri a tampa e tentei perceber um aroma diferente, mas esqueci que tenho um olfato ruim. Depois da Covid, em 2020, ele nunca mais foi o mesmo. Não senti cheiro de água sanitária ou algo do tipo. Decidi lavar as mãos com aquela água.
Gastei metade dela e o restante joguei no vaso sanitário.
Saí com a sensação de dever cumprido e aliviado, e fui me posicionar para a entrada ao vivo.
Não havia nada de errado.
Chegou minha hora, contei o caso e vi, em meio ao trabalho, uma das meninas indo ao banheiro. Ela ficou poucos segundos, voltou correndo e rindo. Vi perifericamente, pelo canto do olho.
A menina cochichou com a outra, que cochichou com a mãe, e todas riram muito. A mãe até tentou segurar, mas era impossível.
Aquilo despertou meu senso de alerta. Primeiro porque eu precisava me segurar. Estava na televisão falando de uma agressão, mas, do meu lado, havia uma crise de riso. E, claro, depois comecei a sentir uma leve pinicação nas mãos e um cheiro de água sanitária.
É isso mesmo! Não só lavei as mãos com água sanitária, como joguei toda a garrafa no vaso.
Foram os cinco minutos mais tensos que já vivi. É muito mais difícil segurar o riso do que segurar o choro, a raiva ou o medo.
Assim que acabou, eu me virei e disse:
— Já até sei do que estão rindo. Lavei as mãos com água sanitária, né?
As meninas abaixaram a cabeça e uma das mães tentou disfarçar:
— Jura? Nossa, me desculpe! Eu não te avisei…
A outra já estava na cozinha com um sabonete me esperando. Foi a salvação!
A sorte é que eu não sequei as mãos na roupa. Saí desinfetado, limpinho e ileso das manchas.
Ah, se todo ao vivo fosse assim...
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