Descascando as tintas e encontrando histórias
Como as paredes do Centro Cultural Português revelam a beleza do passado restaurado por um lusitano entusiasta

Visitei nesta semana o Engenho dos Erasmos, um dos primeiros do país. Uma ruína de 1534 que operou por cerca de 100 anos.
Está tudo documentado na história e boa parte do que se sabe, certamente, veio dos registros deixados pelos belgas que fizeram acordos comerciais com a Coroa na metade do último milênio. As dúvidas, essas dependem de um amplo trabalho arqueológico para serem sanadas.

Pesquisadores da USP fizeram escavações e descobriram vestígios da existência de pessoas que passaram pelo engenho e que não aparecem nos documentos oficiais porque não eram letradas ou consideradas relevantes na época. Elas contam a história que não está nos livros. Não é romântica, mas também importa.
O salão José Duarte, do Centro Cultural Português, em Santos, está finalizado e será reinaugurado no próximo dia 20. O evento promete ser grandioso, reunindo autoridades e personalidades ligadas à preservação da cultura lusitana.
Pouco mais de 400 anos depois, as fases da relação entre lusitanos e brasileiros continuaram sendo construídas, de uma maneira mais leve e promissora. Nessa nova era, pessoas já pensavam no futuro e construíram, em Santos, um centro de socialização. Um espaço para migrantes portugueses que faziam o que muitos brasileiros fazem hoje: buscar oportunidades para melhorar a qualidade de vida em outro país.
O edifício permanece de pé e é mantido pelos descendentes daqueles sonhadores do início do século passado. Foram gerações e gerações, reformas e mais reformas. O Centro Cultural Português passou por muitas fases, muitas cores, e as belezas daquela gente que buscava uma vida melhor acabaram soterradas pelo minimalismo.

Estamos a caminho da terceira década dos anos 2000. Cem anos se passaram e a vida prosperou. O centro virou um lugar de celebração. Fiz inúmeras coberturas de festas que bendizem os velhos tempos e recontam, com sorrisos, o passado duro para as novas gerações.
Há alguns anos, com mais recursos, os mantenedores do espaço decidiram recuperar a história por completo: remover as tintas que cobriram as pinturas originais do Centro Cultural.
Era uma vontade encabeçada pelo português José Duarte, o mais longevo diretor do espaço. Ele sempre me recebeu com sorrisos. Parece levar as demandas mais duras com tranquilidade. A história dele está neste episódio especial que produzi sobre o Centro Cultural.

José Duarte é conhecido pelo entusiasmo em restaurar e pela capacidade de conseguir recursos para o trabalho de recuperação arqueológica das paredes do prédio.
Um dos espaços do edifício se tornou a assinatura desse empenho que levou três anos para ser concluído: o Salão Cerejeiras, que, em reconhecimento, foi rebatizado em homenagem ao diretor.
O salão está finalizado e será reinaugurado no próximo dia 20. O evento promete ser grandioso, reunindo autoridades e personalidades ligadas à preservação da cultura lusitana.
Vi de perto o trabalho dos restauradores segurando pincéis após descascarem todas as paredes com bisturis até chegarem à camada original — a primeira pensada para decorar a casa portuguesa.
A arte feita naquela época tem o tamanho da esperança daquele povo, que remontava, através das pinturas, o amor por Portugal. São arabescos belíssimos, redescobertos e repintados pelos restauradores liderados por Andreia Naline.
Uma curiosidade que descobri ao me reaproximar de José Duarte: ele levou a restauradora em uma viagem a Portugal para apresentar a história do próprio povo e colaborar para que o trabalho fosse o mais fiel possível.
E o prédio imponente da Rua Amador Bueno, no Centro Histórico de Santos, agora está bonito por fora e impecável por dentro.
Vale a pena a visita.
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