Augusto Cury e a candidatura presidencial no país da autoajuda
Do sonho ao concreto, Brasil tenta criar alternativas para superar polarização, mas esbarra em uma sociedade cansada de promessas
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Ficção e autoajuda: estas são as categorias de livros mais vendidas em todo o país e que dão pistas sobre a identidade do povo brasileiro. Frases como “se a gente não fizer por nós, ninguém vai fazer” são mantras de pesquisas qualitativas, principalmente entre eleitoras mulheres de classes B2 e C1.
A lógica de que o restante conspira contra e que, se não forem capazes de se imbuírem em uma missão de sobrevivência, a vida não prospera, está presente no imaginário desse público, que enxerga a necessidade de se preparar mentalmente para as batalhas reais e imaginárias que carrega todos os dias.
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Se a autoajuda traz senso de verdade, a ficção projeta sonhos. O mágico, o conto de fadas, a vitória do bem contra o mal recheiam as perspectivas de uma sociedade que tem grande dificuldade em enxergar o mundo concreto em que vive.
Em pesquisa da IPSOS, o Brasil e a África do Sul lideraram um preocupante ranking sobre a pior percepção da sua própria realidade. O sonho da Disney é um exemplo claro de uma tentativa de fuga do efetivo para um universo paralelo sem os problemas mundanos. 52% dos entrevistados da Datafolha disseram que o parque temático liderado pelo personagem Mickey é o seu preferido.
Muito distante desse mundo de magias, 50% da população adulta brasileira está endividada, segundo o Serasa. A guerra no Irã promete afetar o preço do diesel de modo a encarecer ainda mais os produtos em um país dependente da malha rodoviária para escoamento, e os noticiários são dominados por escândalos diários de corrupção que envolvem a Suprema Corte, o filho do presidente da República e aliados de primeira hora da oposição.
Um caos que tem feito o governo federal atingir os piores níveis de aprovação, desde que Lula sentou pela primeira vez na cadeira presidencial do Palácio do Planalto, ainda no início do século.
É nesse contexto que, em seis meses, os brasileiros precisarão escolher quem os governará pelos próximos quatro anos. Como numa resposta mágica, com tantos problemas reais para administrar, o Avante decidiu filiar e ventilar o nome de Augusto Cury para a presidência da República.
Depois do coach Pablo Marçal, sucesso de repercussão na disputada eleição paulistana de 2024, o antigo Partido Trabalhista do Brasil, surgido das lutas operárias e camponesas, uma esquerda que não admitiu os rumos do PTB perdido por Leonel Brizola, batizado agora de Avante, escolheu o psiquiatra e autor de bestsellers do ramo do autoconhecimento para representá-los na corrida presidencial.
As primeiras sondagens, ainda internas, não são tão animadoras. O nível de conhecimento do postulante ainda está muito aquém para causar um furor com o seu nome.
No entanto, a perspectiva é de que possa encaixar. Seus parcos discursos até agora sobre o mote que o fez aceitar o desafio perpassam sobre a construção de um projeto nacional pautado no desenvolvimento humano, na inteligência emocional e na valorização das pessoas.
Um resumo de sua teoria da inteligência multifocal, criticada por outros especialistas pelo baixo lastro de fundamentação científica, mas capaz de sustentar o bom resultado de vendas, que o faz competir com Paulo Coelho sobre quem é o maior autor brasileiro dos últimos tempos.
Fenômenos como Cury podem dar certo mundo afora. Na concorrida eleição peruana, o humorista Carlos Álvarez teve um crescimento vertiginoso nas pesquisas, que quase surpreendeu no resultado final. De imitador de políticos, o artista virou uma opção para um estado que foi governado por nove presidentes nos últimos 10 anos.
Cômico ou trágico, o fato é que figuras de expressão social, que coadunam com os momentos vividos por cada comunidade, podem tracionar de tal maneira a chegarem na posição de líderes políticos. Zelensky, na Ucrânia, e Beppe Grillo, na Itália, são exemplos dessas ocorrências.
Precisando de respostas, o brasileiro está cada vez mais letárgico em relação aos nomes apresentados. O cansaço com a figura de Lula e uma quebra de expectativas com um governo que prometeu uma reviravolta econômica que nunca chegou, e a situação de Jair Bolsonaro, encarcerado por uma tentativa de golpe, com um entorno belicoso e pouco propositivo, marcado por uma experiência reprovada nas urnas, dá margem para escolhas pouco ortodoxas.
Renan Santos tem tentado fazer o papel do antissistema e tem performado com algum louro, mas ainda muito longe de representar essa enorme fatia populacional.
Como um vendedor de sonhos, Cury ensinou em seus livros a nunca desistir dos seus. A multifocalidade, no entanto, precisará servir a diversas áreas, que não são metafísicas, mas sim absolutamente concretas.
O Brasil precisa superar a pobreza, aumentar o poder de compra do seu povo, conseguir melhorar índices de educação, saneamento e saúde. Resolver a insegurança pública e o domínio territorial de facções criminosas. Tratar do gargalo infraestrutural e a desigualdade federativa. Fazer as reformas de estado que urgem para a modernidade do funcionamento da máquina pública.
Sonhos, disciplina e autocontrole devem fazer da plataforma de Cury uma semeadora de ideias. Sem isso, qualquer outra solução poderá ser encarada como uma armadilha na mente de milhões de brasileiros.











