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Augusto Cury e a candidatura presidencial no país da autoajuda

Do sonho ao concreto, Brasil tenta criar alternativas para superar polarização, mas esbarra em uma sociedade cansada de promessas

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Augusto Cury, autor de autoajuda, surge como candidato à presidência pelo partido Avante no contexto de descontentamento popular.
  • A população brasileira está cansada de promessas e enfrenta problemas como alta dívida, corrupção e aprovações baixas do governo atual.
  • Embora Cury tenha pouca notoriedade política, suas ideias sobre desenvolvimento humano e inteligência emocional são centrais em sua campanha.
  • O Brasil necessita de soluções concretas para problemas estruturais, como pobreza, educação, saúde e segurança pública, que vão além dos sonhos e promessas.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Augusto Cury é pré-candidato a presidente do Brasil Reprodução/Instagram/@augustocury

Ficção e autoajuda: estas são as categorias de livros mais vendidas em todo o país e que dão pistas sobre a identidade do povo brasileiro. Frases como “se a gente não fizer por nós, ninguém vai fazer” são mantras de pesquisas qualitativas, principalmente entre eleitoras mulheres de classes B2 e C1.

A lógica de que o restante conspira contra e que, se não forem capazes de se imbuírem em uma missão de sobrevivência, a vida não prospera, está presente no imaginário desse público, que enxerga a necessidade de se preparar mentalmente para as batalhas reais e imaginárias que carrega todos os dias.


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Se a autoajuda traz senso de verdade, a ficção projeta sonhos. O mágico, o conto de fadas, a vitória do bem contra o mal recheiam as perspectivas de uma sociedade que tem grande dificuldade em enxergar o mundo concreto em que vive.

Em pesquisa da IPSOS, o Brasil e a África do Sul lideraram um preocupante ranking sobre a pior percepção da sua própria realidade. O sonho da Disney é um exemplo claro de uma tentativa de fuga do efetivo para um universo paralelo sem os problemas mundanos. 52% dos entrevistados da Datafolha disseram que o parque temático liderado pelo personagem Mickey é o seu preferido.


Muito distante desse mundo de magias, 50% da população adulta brasileira está endividada, segundo o Serasa. A guerra no Irã promete afetar o preço do diesel de modo a encarecer ainda mais os produtos em um país dependente da malha rodoviária para escoamento, e os noticiários são dominados por escândalos diários de corrupção que envolvem a Suprema Corte, o filho do presidente da República e aliados de primeira hora da oposição.

Um caos que tem feito o governo federal atingir os piores níveis de aprovação, desde que Lula sentou pela primeira vez na cadeira presidencial do Palácio do Planalto, ainda no início do século.


É nesse contexto que, em seis meses, os brasileiros precisarão escolher quem os governará pelos próximos quatro anos. Como numa resposta mágica, com tantos problemas reais para administrar, o Avante decidiu filiar e ventilar o nome de Augusto Cury para a presidência da República.

Depois do coach Pablo Marçal, sucesso de repercussão na disputada eleição paulistana de 2024, o antigo Partido Trabalhista do Brasil, surgido das lutas operárias e camponesas, uma esquerda que não admitiu os rumos do PTB perdido por Leonel Brizola, batizado agora de Avante, escolheu o psiquiatra e autor de bestsellers do ramo do autoconhecimento para representá-los na corrida presidencial.


As primeiras sondagens, ainda internas, não são tão animadoras. O nível de conhecimento do postulante ainda está muito aquém para causar um furor com o seu nome.

No entanto, a perspectiva é de que possa encaixar. Seus parcos discursos até agora sobre o mote que o fez aceitar o desafio perpassam sobre a construção de um projeto nacional pautado no desenvolvimento humano, na inteligência emocional e na valorização das pessoas.

Um resumo de sua teoria da inteligência multifocal, criticada por outros especialistas pelo baixo lastro de fundamentação científica, mas capaz de sustentar o bom resultado de vendas, que o faz competir com Paulo Coelho sobre quem é o maior autor brasileiro dos últimos tempos.

Fenômenos como Cury podem dar certo mundo afora. Na concorrida eleição peruana, o humorista Carlos Álvarez teve um crescimento vertiginoso nas pesquisas, que quase surpreendeu no resultado final. De imitador de políticos, o artista virou uma opção para um estado que foi governado por nove presidentes nos últimos 10 anos.

Cômico ou trágico, o fato é que figuras de expressão social, que coadunam com os momentos vividos por cada comunidade, podem tracionar de tal maneira a chegarem na posição de líderes políticos. Zelensky, na Ucrânia, e Beppe Grillo, na Itália, são exemplos dessas ocorrências.

Precisando de respostas, o brasileiro está cada vez mais letárgico em relação aos nomes apresentados. O cansaço com a figura de Lula e uma quebra de expectativas com um governo que prometeu uma reviravolta econômica que nunca chegou, e a situação de Jair Bolsonaro, encarcerado por uma tentativa de golpe, com um entorno belicoso e pouco propositivo, marcado por uma experiência reprovada nas urnas, dá margem para escolhas pouco ortodoxas.

Renan Santos tem tentado fazer o papel do antissistema e tem performado com algum louro, mas ainda muito longe de representar essa enorme fatia populacional.

Como um vendedor de sonhos, Cury ensinou em seus livros a nunca desistir dos seus. A multifocalidade, no entanto, precisará servir a diversas áreas, que não são metafísicas, mas sim absolutamente concretas.

O Brasil precisa superar a pobreza, aumentar o poder de compra do seu povo, conseguir melhorar índices de educação, saneamento e saúde. Resolver a insegurança pública e o domínio territorial de facções criminosas. Tratar do gargalo infraestrutural e a desigualdade federativa. Fazer as reformas de estado que urgem para a modernidade do funcionamento da máquina pública.

Sonhos, disciplina e autocontrole devem fazer da plataforma de Cury uma semeadora de ideias. Sem isso, qualquer outra solução poderá ser encarada como uma armadilha na mente de milhões de brasileiros.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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