Christina Lemos 11/09: atentado calou jornalistas do Planalto e desconcertou FHC

11/09: atentado calou jornalistas do Planalto e desconcertou FHC

Presidente acionou Banco Central para conter derretimento da moeda. Iminência de uma terceira guerra e brutalidade das imagens chegaram a imobilizar os jornalistas especializados na cobertura da presidência

Fernando Henrique Cardoso durante pronunciamento

Fernando Henrique Cardoso durante pronunciamento

Reprodução

A marca na memória de cada um de nós é para sempre. Tornou-se lugar comum lembrar-se do que se estava fazendo ao ser alvejado pelas imagens. Mas o que os outros estavam fazendo pode ser mais expressivo. Ao entrar no comitê de imprensa do Palácio do Planalto, na manhã daquele dia, uma cena desconcertante: os jornalistas estavam de pé, em silêncio, diante das imagens do atentado. Todos eles, uns quarenta homens e mulheres, voltados para dois televisores fixados na parede, petrificados. Pela primeira e única vez na vida, em mais de 30 anos de reportagem, eu testemunhei o silêncio da incredulidade dos meus colegas de profissão.

Por mais que fosse urgente noticiar, a paralisia provocada pela busca do entendimento de cada novo instante da tragédia interrompeu a urgência dos mais experientes e ágeis jornalistas do país. Eles e o mundo ainda tentavam entender se haveria uma nova guerra mundial, se a economia do planeta entraria em colapso, e principalmente, como era possível que a maior potência mundial fosse tão frágil.

As brutalidades das imagens que ainda hoje chocam tinha enorme simbologia. A perplexidade que elas causaram, e ainda causam, está na colisão suicida dos aviões contra as torres, que se desmancham, a representar o poder que vira pó em instantes, mediante uma ação precisa, cortante e perfeita do terror. Os Estados Unidos eram postos de joelhos. Era mesmo uma cena de calar platéias.

O nervosismo e a falta de horizonte mínimo para o instante seguinte fizeram o presidente Fernando Henrique Cardoso titubear no pronunciamento que faria ao Brasil, sobre os fatos. O ex-chanceler, conhecedor do peso das relações entre países, precisou ler o discurso. Até o terno lhe parecia dois tamanhos maior. “Marcha da insensatez” foi como resumiu sua condenação ao ato terrorista. O Brasil já cuidava de preservar o valor da própria moeda, que começava a derreter, diante da imprevisibilidade em que o planeta acabava de mergulhar. Eram apenas as primeiras horas dos próximos 20 anos.

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