Christina Lemos Cúpula do Clima: Brasil segue desacreditado, dizem especialistas

Cúpula do Clima: Brasil segue desacreditado, dizem especialistas

Segundo eles, ao invés de pedir recursos o governo deveria usar o dinheiro que já tem para fiscalizar e combater o desmatamento 

O Observatório do Clima - organização que reúne os principais especialistas do Brasil no assunto - faz duras críticas ao discurso do presidente Jair Bolsonaro na Cúpula do Clima, aberta hoje pelo presidente americano Joe Biden. Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório disse que o Brasil sai da cúpula dos líderes como entrou: desacreditado. Em áudio enviado ao blog, Astrini disse que o pronunciamento de Bolsonaro traz "promessas muito fracas e vazias que não condizem com a realidade nem do que acontece no Brasil" e diferentes das propostas que foram submetidas a ONU há quatro meses.  Ele também contesta o pedido de recursos feito por Bolsonaro para ampliar a fiscalização do desmatamento:

- Ele  passou metade da fala dele pedindo dinheiro mundo a fora, isso é uma coisa que não faz sentido, o Brasil já tem dinheiro, então condicionar a vinda de dinheiro internacional para combater desmatamento. Temos R$ 3 bilhões  parados no Fundo da Amazônia desde 2019. O Brasil não usa recursos. O problema é a falta de governo e compromisso.

Bolsonaro na Cúpula do Clima: promessas vazias segundo especialistas

Bolsonaro na Cúpula do Clima: promessas vazias segundo especialistas

Marcos Corrêa/PR - 22.04.2021

O secretário-executivo ainda disse que o fato de Bolsonaro ser um dos últimos a falar mostra a irrelevância do governo brasileiro no momento nas discussões ambientais. "O Biden já tinha saído da sala quando ele falou. O Brasil sai desacreditado. Foram 28 meses destruindo o meio ambiente, ninguém confia no Bolsonaro".

A analista sênior do Observatório do Clima, Suely Araújo também adverte que o Brasil não usa os recursos que tem para combater o desmatamento: "O foco principal foi pedir recursos internacionais, mas o Brasil não usa os recursos que têm disponíveis.  O melhor exemplo é o Fundo Amazônia, com R$ 2,9 bilhões parados desde janeiro de 2019, porque este governo desmontou a estrutura de governança do fundo. Falta muito mais vontade de proteger o meio ambiente do que dinheiro.  Não acredito em promessas desse governo"

Suely Araújo lembra que as promessas serão cumpridas no longo prazo. "De concreto a curto prazo, prometeu dobrar o orçamento da fiscalização ambiental. Para 2021, são cerca de R$ 90 milhões na ação orçamentária 214N, da fiscalização do Ibama, por exemplo, R$ 180 milhões ajudarão, mas não resolverão o problema do desmatamento e outras infrações ambientais. Tem de ser garantida reposição na equipe, autonomia decisória para os técnicos da autarquia, várias outras coisas".

Leia na íntegra o comunicado do Observatório do Clima

  "A Cúpula do Dia da Terra, convocada pelo presidente Joe Biden e aberta nesta quinta-feira (22/4), marca uma virada histórica na economia e na geopolítica mundiais. As três maiores potências globais — EUA, China e União Europeia — devem começar a travar uma corrida rumo à recuperação verde e à descarbonização econômica. A disputa pela hegemonia se dará num mundo cada vez menos dependente de combustíveis fósseis. A sinalização política foi dada pelos anúncios das novas metas de EUA, Japão, Canadá, Reino Unido e outros países, e uma sinalização do engajamento chinês com a redução do uso de carvão. Uma nova ordem mundial começa a emergir.

O Brasil escolheu ficar de fora. O país tem um dos ativos mais importantes dessa nova ordem, a Amazônia, mas o regime de Jair Bolsonaro prefere entregá-lo a grileiros de terra, garimpeiros, pecuaristas predatórios e madeireiros ilegais. Tem sol, vento e biocombustível à vontade, mas prefere subsidiar petróleo. Regride na ambição de suas metas climáticas para admitir mais desmatamento e mais emissões quando o Acordo de Paris começa enfim a ser levado a sério. No encontro, Bolsonaro apresentou um compromisso de redução de desmatamento que ele próprio havia eliminado das metas brasileiras e prometeu antecipar para 2050 um compromisso que o país jamais chegou a assumir formalmente – a neutralidade em carbono em 2060.

“O Brasil sai da cúpula dos líderes como entrou: desacreditado. Bolsonaro passou metade de sua fala pedindo ao mundo dinheiro por conquistas ambientais anteriores, que seu governo tenta destruir desde o dia da posse", disse Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima

Bolsonaro fez uma opção deliberada pelo atraso num momento em que as vantagens comparativas do país poderiam atrair investimentos, emprego e qualidade de vida para os brasileiros. Espanto nenhum vindo de um líder que se aliou ao coronavírus contra a própria população, transformando o país num imenso cemitério.

Completa a ironia o fato de que a cúpula se realiza justamente no aniversário de um ano da infame declaração do ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro sobre aproveitar a comoção gerada pela pandemia para “passar a boiada”. Esta é a mais perfeita tradução da realidade brasileira neste momento de virada climática global: ver prestígio e recursos indo para outros países tropicais, enquanto ficamos com a Covid e o desmatamento. Ao perdedor, a boiada."

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