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Eduardo Olimpio

A qual argumento acatar ou atacar? 

A questão não é agradar gregos e troianos; é salvar um e o outro na medida do possível

Eduardo Olimpio|Do R7

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Os brasileiros, da forma mais dura, pagarão a conta das quedas dos corpos pelas UTIs
Os brasileiros, da forma mais dura, pagarão a conta das quedas dos corpos pelas UTIs

Um amigo meu, de longa data, fez de tudo na vida. Foi fotógrafo, vendedor de lotes de terras na Grande São Paulo, representante comercial de multinacionais e dono de loja de roupas ‘surfwear’, entre outras ocupações que devem ter ficado no limbo da minha memória.

Já maduro, resolveu dar uma guinada em tudo e viu-se, literalmente, cara a cara com uma profissão para qual se formou (foi a segunda faculdade. A primeira foi em Publicidade) e se sente, de fato, realizado. Obturações, cirurgias de canal, limpeza de tártaro, remoção de dentes e demais serventias da Odontologia passaram a fazer parte do dia a dia dele além de um mestrado já em curso na USP.


Isso tudo até o surgimento da quarentena.

Entre dois a três atendimentos de emergência na semana e despesas correntes aumentadas (a caixa de 50 máscaras custava 20 reais e hoje ele compra 5 por cerca de 40 reais), está num curso à distância para perícia judicial e, como milhões de pessoas no país, se viu em apuros para honrar os códigos de barra dos boletos e demais despesas pessoais.


Assim como ele, fazendo uma conta de multiplicação e ampliando do setor de Saúde para outros, já temos alguma coisa em termos de dados pra começar a refletir acerca do isolamento social imposto por governadores Brasil afora para frear a proliferação do vírus da moda.

Não acompanho os números miúdos publicados que somam mortes ou curados na atual pandemia. Acho pertinente sim dar uma lida ‘macro’ neles e, com mais carinho, nas conjunturas em que se materializam como localização, infraestrutura associada, ações de políticas públicas para lidar com os algarismos e perfis de populações afetadas pelo novo mal do século.


E argumentos prós e contras não faltam para quaisquer lados que queiramos parar para racionalizar. Os da saúde física e mental são incontestáveis, assim como os da economia doméstica e de mercado. Prefeitos, governadores, presidente, CEOs, gestores de sistemas prisionais, de saúde, econômicos, produtivos e demais autoridades públicas e privadas cobrem-se de razões para cada um defender o seu.

No entanto, em vez do cooperativismo, o que andamos vendo são cabeçadas, descontroles emocionais coletivos ou individuais, politização excessiva, conjunturas eleitorais equivocadas e perigosamente antecipadas, vaidades afloradas, incontinências verbais, ameaças. Tudo isso e mais um montão de coisas que não vemos, pelo menos dessa forma brasiliensis , no resto do mundo, a não ser em ambientes politicamente controlados por regimes governamentais únicos ou pouco transparentes.


A população brasileira, da forma mais dura, pagará a conta das quedas dos corpos humanos pelas UTIs (de pacientes e profissionais da Saúde) e do volume de dinheiro nas contas correntes. São vidas produtivas e relações afetivas que se vão. São produtos que não entram na esteira de produção das fábricas, nos caminhões de entrega e nas prateleiras do comércio. Onde vamos parar com essa disritmia e a burra e inexistente competitividade entre a Saúde e a Economia?

Alguma recuperação dos padrões de consumo se impõe pela sobrevivência, bem como uma queda na curva da ocupação de leitos nos hospitais pra não matar as pessoas de covid-19 nem de outras doenças por falta de atendimento. Decretos municipais e flexibilizações estaduais tentam devolver a energia cortada do comércio enquanto laboratórios devolvem às famílias resultados positivos para a doença.

No final, sabemos, a responsabilidade é de todos. Sem exceção. Também é do meu amigo, que por ora trocou de jaleco e, com o próprio carro, está entregando ao paciente consumidor as compras feitas online em uma rede de supermercados.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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