Logo R7.com
RecordPlus
Eduardo Olimpio

As lembranças de uma ilha singular

Cuba voltou às minhas memórias pela morte de um carismático personagem e um aniversário vergonhoso, condenado até pela ONU

Eduardo Olimpio|Do R7

  • Google News
Cuba é dona de belos cenários
Cuba é dona de belos cenários

Há menos de um ano escrevi aqui neste espaço sobre uma vivência pessoal e profissional em Cuba no ano de 2005 que, mesmo tendo sido curta, foi o suficiente para agregar à minha personalidade as experiências lá vividas e aprendidas. Conheci praias, as ruas, os drinks, os espaços religiosos ‘clandestinos’, os restaurantes tolerados pelo regime castrista, as moedas local e para turistas, as habitações coletivas, o cotidiano de pessoas e suas histórias individuais e sociais contadas em viva voz e nos museus visitados, bem como os números da economia local e comércio exterior à época.

De lá para cá, muitas coisas mudaram na ilha. A saída de cena do presidente Fidel Castro em 2008 e sua morte de causas naturais em 2016 mexeram com o imaginário global, mais precisamente no tabuleiro político-ideológico interno. Nada a ponto de fazer surgir uma ruptura no sistema de governo e organização social, mas Cuba acelerou o passo na busca de uma desafiante identidade só sua numa nova era hiper globalizada, contudo, “sin perder la ternura jamás.“


Também nesse período aconteceram movimentações tectônicas na diplomacia entre o país e seu principal algoz. Estados Unidos e Cuba vivenciaram, na era Barack Obama (2009 - 2017), um noivado com direito à troca de alianças para, logo em seguida, sob o governo de Donald Trump (2017-2021), enfrentarem uma crise pré-nupcial que, de novo, ofuscou alguma pretensa luz sobre a tensa e emaranhada relação histórica entre as nações. Sem contar o insustentável embargo econômico erguido ainda na era John Kennedy (1961 -1963), que agora completa 60 anos de uma maioridade caricata e caduca condenado em sucessivas votações pela Organização das Nações Unidas desde os anos 1990, exceto pelos votos dos próprios EUA e Israel.

O que não mudou, para somar fatos, é a excrescência da base naval norte-americana de Guantánamo que ‘toma’ aproximadamente 116 quilômetros quadrados na região sudeste de Cuba desde 1898.


Naquelas minhas andanças pela ilha tive a oportunidade de conversar com o então embaixador brasileiro em Cuba, Tilden Santiago, falecido agora em fevereiro. Mineiro, o escolhido pelo governo Lula (2003-2010) não era das carreiras diplomáticas do Itamaraty. Deputado federal e um dos fundadores do PT, foi escolhido a dedo para essa representação diplomática em alinhamento direto entre os governos de ocasião.

Bom de papo, estava internado no hospital de base quando conversamos e, despojado das credenciais de figurinos finos por conta das circunstâncias, vestia uma camiseta um tanto surrada do Flamengo e uma bermuda sem maiores lembranças. Sua formação eclética em filosofia, jornalismo, como padre-operário, sindicalista, professor, defensor do meio ambiente e, por que não, diplomata, rendeu mais do que o combinado com a assessoria à beira do leito hospitalar. Entre risos, conceitos, comprimidos e água, foi transparente nos dados disponibilizados via embaixada e ganhou o respeito pessoal e profissional deste jornalista.

Em meio a delícias de mojitos e de histórias, ficam as lembranças e marcos como a morte de um carismático ser humano e o aniversário de 6 décadas de uma hipocrisia sem precedentes na modernidade.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.