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Eduardo Olimpio

E, ao romper de mais um ano, eis que...

A repetição dos votos de felicidade e outros desejos continua, e que possamos, diante deste inevitável ciclo, parar, pensar e, principalmente, agir

Eduardo Olimpio|Do R7

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Mensagens de um 'ano novo' impactam nossos desavisados corações e bolsos
Mensagens de um 'ano novo' impactam nossos desavisados corações e bolsos

Roteiro para escrever um texto público de fim de ano: fazer uma retrospectiva elencando o que de mais importante, ou de bom ou ruim na visão do autor e num apanhado geral de suas referências e contatos, aconteceu. No meio dele, profetizar rumos comportamentais da economia, da política e das relações sociais, e finalizar saudando a todos, ao criador, agradecer e desejar um futuro próximo cheio de amor, paz e esperança. O que está distante a gente vê depois, como de costume num país sem planejamento.

Taí um ponto interessante quando se trata de conversarmos nesta fase que parece, apenas parece, ser diferente de todo o resto dos 360 e poucos dias. Até mesmo o tal do "ano" chama a atenção, esse período que, dividido, ganha novos nomes e medidas nessa linha de passagem como dia, semana, mês. Tudo, lembremos, fruto de uma convenção, natural e historicamente ancorada na cosmogonia e nos milênios de observação humana das passagens da lua e demais astros pelo céu visível, nas constatações sobre luz e escuridão, ciclo de chuvas e de secas etc.


E por qual motivo o momento que antecede a "virada" nos faz crer que, no próximo intervalo que começa a contar desde já como um lícito ano novo, algo também inédito ou "mágico" acabará preenchendo nossa simples existência de um sentimento de esperança, provavelmente materializada numa alegria pulsante e relativamente curta, mesmo com o infinito caos a nos rodear?

O fato é que, para além do impulso já esperado nas transações comerciais da temporada em que Natal e Réveillon são o carro-chefe da indústria, do comércio e de serviços, as frases feitas que povoam propagandas que vendem de tudo, somadas a corais natalinos com neve artificial, trenó e um velhinho barbudo vestido de vermelho, impactam nossos desavisados corações e bolsos. Neste 2021, não sei nos anteriores, se somente pegarmos algumas das tradições, eu só descartaria juntar na lista a canção Noite Feliz, ícone pop sem igual que, me parece, neste fim de 2021 não deu as caras.


O sentido de pertencimento a um coletivo que se contorce quase como um ser único vivente faz-se presente nas nossas vidas, em qualquer época em que estejamos a respirar. Tal sensação se acentua quando nos emocionamos entre familiares e amigos, ouvimos juntos os jingles natalinos, comemos (os que ainda podem comer) uns petiscos diferentes do feijão com arroz. Isso acarreta uma espécie de "comportamento de manada" similar a uma eleição e suas pesquisas de 24 horas antes de se abrirem as urnas ao voto.

Renovação de votos de felicidade, estouro das rolhas de garrafas suadas, panos brancos que cobrem intimidades ou que esvoaçam em trajes sociais e todo o ritual que se instala nas rodas sociais no esperado "fim de ano" soam um dos clichês mais enraizados entre nós. Temo até já ter escrito algo sobre isso no início do verão passado.


Não sou diferente em relação a essa repetição. Nem sou contra os ciclos e lugares-comuns em que a vida insiste em nos inserir. Apenas paro um pouco em meio à roda do tempo para pensar no que, no quem, no como, no quanto, no quando, no porquê das pessoas e das coisas, e se posso fazer por onde.

Confesso, neste findar de ano e de reflexão, que esse exercício todo feito durante a moenda do trigo da vida sempre me fascinou.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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