Logo R7.com
RecordPlus
Eduardo Olimpio

O assédio sem alma da lente da câmera

Ataques sexuais quase nunca escapam dos olhos eletrônicos, que captam closes delituosos, pois ali estão sem o consentimento da outra parte

Eduardo Olimpio|Do R7

  • Google News

Cena 1. Um homem se aproxima de uma mulher e, com um gesto, enseja uma intimidade que, num aparente instante sem testemunhas, parece normal, mesmo que o movimento que parte do corpo dele resulte numa encostada não solicitada no corpo dela. Corta!

Cena 2. Não há cena 2. O que existe é um roteiro geralmente curto, mas não necessariamente único que se repete nos mais variados cenários possíveis e imagináveis. Uma ponta de balcão de bar, um corredor ou um banco de ônibus, um canto do café da empresa, um cubículo qualquer. Qualquer mesmo. Um local onde uma importunação sexual acontece, majoritariamente oriunda de um homem e direcionada a uma mulher. O contrário também ocorre, mas numa proporção tendente a zero diante de números escancaradamente mais parrudos antes da vírgula.


O comportamento usualmente dispensado nestes casos em que vítimas são mulheres é sintetizado numa leitura desprezível que ainda, pasme, se encontra por aí. Aliás, pelo mundo inteiro chegam relatos de pessoas que, por ‘simples’ tara, posição profissional ou com ‘bala na agulha’ na conta corrente, partem para uma ação ‘sedutora’ em cima de outras por acharem que estão, de alguma forma, empoderadas pelos hormônios, distúrbios psicológicos, cargo que ocupam ou pelo que podem pagar. Esse conjunto de ‘valores’, somados ou contabilizados individualmente, costumam indicar o grau de investimento com que homens abordam mulheres em situações difíceis de escapar. Isso sem contar a máxima machista de que a mulher, por vestir-se de determinada forma, assume aos tresloucados que está ali para o que der e vier.

Creio, sem muito medo de errar, que cada um de nós já presenciou algum episódio com um roteiro mais ou menos como o relatado, ao alcance dos nossos olhos e de lentes de câmeras que, chatas como são, estão constantemente espreitando tudo e todos nos detalhes.


E estes pedaços de vidro, excitados pela eletrônica, vejam só, teimam em registrar o que era para ficar no mais absoluto plano privado. Pior, nem sempre estas sacanas máquinas respondem à chamada...encontram-se ‘clandestinamente’ assediando pontas de balcão de bar, corredores de ônibus, cantos de café de empresa ou cubículos. Pois é, elas são a corporificação do que bendizemos como ‘mal necessário’; estão lá para vigiar a segurança do ambiente, mas ‘extrapolam’ quando captam mãos bobas ou ‘encoxadas’ cujos donos e autores esquecem que estão constantemente monitorados por elas. Até quando cai a energia essas pragas entram em modo infravermelho! 

Uma destas traquitanas pode ter selado o destino de um homem público, que possivelmente cheio de alguma adrenalina em meio à matilha e ao poder político a ele concedido depositou, por mais de um segundo, sua mão direita na região peitoral (um seio, no caso) de uma mulher, colega de trabalho. O que a imagem mostra será objeto de análise e posterior julgamento. O que também exibe é que não foi um esbarrão. 

Se for culpado pelo assédio sexual, será mais um nefasto caso dentre incontáveis que acontecem a todo momento. Inclusive neste exato instante em que o leitor decifra esta escrita, isso está acontecendo em algum lugar, desse jeitinho, com câmeras a gravar agora o fato, em locais como os relatados ou onde o empoderamento político, financeiro e psicológico reinam como, por exemplo, parlamentos, empresas, instituições públicas, privadas e filantrópicas em geral.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.