Perda de energia a desconfiança nas urnas eletrônicas
Um plano de governo em vez de perseguições a fantasmas fraudadores destes dispositivos de voto seria mais útil ao debate eleitoral
Eduardo Olimpio|Do R7
Direto ao ponto. O presidente da República tenta, já há mais tempo do que o razoável e as instituições todas deveriam suportar, insistentemente colocar em dúvida o processo eleitoral brasileiro que se viabiliza via urnas eletrônicas desde 1996. Disse, em várias de suas lives ou pessoalmente como chefe do Executivo, pré-candidato pelo PL à reeleição, ex-vereador e ex-deputado federal eleito por 4 mandatos (pelas mesmas máquinas de votar autônomas e eletrônicas), que ele próprio teria levado a presidência no primeiro turno da eleição que o homologou ao Palácio do Planalto em 2018 se não fossem as aludidas mexidas que as ditas urnas receberam de gente que as teriam sabotado.

Provocar nacionalmente um debate acerca dos processos eleitorais em pleno exercício do mandato presidencial já causaria um desconforto democrático por si só. Embora possam ser colocadas a público, suspeições devem ser tratadas mediante, e tão somente, a indícios de provas por falhas comprometedoras, de sabotagens e demais ações que possam interferir no resultado da contagem dos votos.
Temos lido, assistido e ouvido diariamente um rosário de questionamentos respondidos pelo Tribunal Superior Eleitoral que, se não anulam na raiz, ao menos desencorajam quaisquer cidadãos a interpelar a Corte para dela arrancar uma verdade que, até agora, não existiu. Dizer ao vento que as urnas eletrônicas são temerárias e passíveis de ataques por hackers ou criminosos é gravíssimo se não mostrar as provas. É criar uma atmosfera de ruptura do estabelecido levando perigosamente a nação a um cenário a ser montado dizendo algo como ‘quem ganhar não vai levar’, tal como visto, infelizmente, em alguns países, principalmente terceiro-mundistas.
Imaginemos, pois, um deputado estadual, um senador, um deputado federal, um governador e mesmo um presidente não poderem assumir os respectivos cargos por falta de credibilidade de todo um sistema que, até hoje, passados 26 anos, tem se mostrado publicamente, aqui e no exterior, cada vez mais fortalecido, atualizado, complexo e, até prova contrária, confiável.
O próprio atual presidente, aclamado pelo mesmo Tribunal logo depois da eleição de 2018, deveria então ter pedido recontagem de votos e, se ainda insatisfeito estivesse, renunciado em nome da limpidez do pleito à qual se submeteu. Teria que ter ido às cortes internacionais, talvez, para denunciar um sistema viciado como outros tantos líderes internacionais já fizeram reclamando de golpes, de malandragens ou perseguições políticas. Não o fez, sabemos.
O Brasil não pode se dar ao luxo de ter uma história democrática, mesmo que recente, corroída pela ‘simples’ versão de que nada do que fora feito até hoje em matéria de votação eletrônica tenha sido válido.
A pergunta é: para que serve esta tentativa incessante em desqualificar, sem provas, as urnas eletrônicas? O ideal não seria, agora, estarmos infiltrados em debates consistentes sobre o que desejamos como nação e o que queremos como plano de governo para resolver, aí sim, os graves problemas sociais para os quais não faltam provas?
A imaginação popular, assim como as cabeças de formadores de opinião da sociedade, as Forças Armadas, a imprensa brasileira, as instituições classistas, os agricultores, os partidos políticos e a classe política na sua plenitude, as embaixadas, os correspondentes estrangeiros, os movimentos sociais, os sindicatos (sim, eles ainda existem!), os artistas, os professores e estudantes, os exportadores, os banqueiros e todas as demais camadas da sociedade que já sabem desse debate (não há como não saber), estão muito atentas para a balança que mede as perdas e ganhos que um tema desses, ao final, entrega.
Que não nos isolemos do resto do mundo. Que não nos tornemos uma republiqueta. Que, pacífica e ordeiramente, possamos mostrar mais uma vez aos eixos interno e externo nosso ciclo democrático pautado por eleições livres e auditáveis publicamente, como é aqui e deve ser em qualquer lugar da Terra onde esse valor já vigora ou venha a se estabelecer.












