Qualquer tom importa
Deveria ser o óbvio quando se trata de vidas humanas e as cores das peles que as revestem
Eduardo Olimpio|Do R7

Não sou negro, nem cafuzo ou mulato, e jamais conseguiria sequer chegar perto dos dissabores pelos quais pessoas não brancas passaram (ops, passam) ao longo da história. Também não vou discutir tais dores físicas e psicológicas sofridas pelas populações negras num mundo brancocentrado em distintas épocas que, infelizmente, não estão restritas só ao passado. Olha que tenho amigos de variados matizes epidérmicos, sem que eu consiga distinguí-los entre si, e mesmo sendo antigas, essas relações de amizade não me legitimam à experiência.
O que vimos acontecer nestes tempos atuais, em que cartazes sobre a importância da vida dos negros saltam aos olhos, ocorre por conta de uma lista de situações de episódios nada raros. Não apenas pela flagrante lente de câmeras que captam chocantes modos de tratamento diferenciados dispensados pelos chamados brancos aos ‘diferentes’, negros, indígenas, albinos. É para além que se deve ir nesta leitura. É avançar história adentro para se dar conta de que é mais que passada a hora de reconhecermos, todos, que a vida de cada um é importante.
Luther King, Rosa Parks, Mandela. Abdias do Nascimento, Zumbi, Joaquim Nabuco. São apenas seis estrangeiros e brasileiros dentre uma lista magna bem maior do que esta, cada um no quadrado do seu tempo e de seus instrumentos de luta pelos direitos dos negros, que marcaram a ferro e fogo (como seus antepassados foram fisicamente ‘patenteados’) suas passagens pelo planeta que, por certo, não se originou racista com as ditas minorias.
De onde, então, vem esse desapreço pela cor da pele do outro? Sabemos que lá pelas terras europeias medievais o Cristianismo andou asfixiando outras matrizes espirituais e, por muitos e muitos anos, apequenou - para não dizer que tentou exterminar - o misticismo politeísta de nações colonizadas entre os continentes americano e africano. Seria também motivo de escravidão a derrota imposta pelo mais aparelhado exército aos tribais, dando a noção de que não bastava fazer sangrar até morrerem todos; era preciso humilhar, cativar, usar forçosamente a mão de obra gratuita e aniquilada para o deleite do alvo burguês, eternizado em estátuas em praças públicas na Europa que, hoje, caem no chão derrubadas pela racionalidade, ainda que tardia.
No Brasil tem muita, mas muita gente mesmo, competente, discutindo com lucidez o racismo estruturado no país. Nem vou tentar aqui listar um por um e menos ainda comentar seus conteúdos por justamente errar o número de quantos são e achar pertinentes quase a totalidade dos debates e suas abrangências propostos por essa massa crítica, que desde sempre se posicionou e, mais do que antes, vem a público nos fazer ouvir e ler algumas realidades que, como disse, sou incapaz de sentir pelo meu ‘lugar de fala’. Aconselho a procurarem as publicações dessa ‘brava gente brasileira’ para aprendermos mais sobre.
São tantas as necessidades de fincarmos nossos verdadeiros sentimentos e olhares para a questão do ‘colorismo’ (porque racismo não deveria fazer sentido algum quando tratamos por raça a simples existência humana num conceito social, e não científico como espécie) que, sem risco de errar, dá para afirmar que todo o espectro de cores importa.
Escrevo sobre isso na esteira da cena do norte-americano preto, recentemente assassinado por uma luva preta apoiada sobre uma calça preta que protegia um joelho branco, e esta articulação dura, de cor ‘pura’, prensando o pescoço preto dele contra uma faixa branca pintada sobre o asfalto preto.












