Um raro prazer nas entrelinhas e releituras da morte
Como tudo, ou quase tudo na vida, a morte, quando liricamente chega até nós, redefine a leitura que costumeiramente fazemos dela
Eduardo Olimpio|Do R7

Saio avisando que não sou necrófilo, fetichista com relação ao tema ou amante da arte tumular, apesar de saber distinguir em qualquer cemitério o que é criação artística, o que é abstracionismo macabro.
O problema do assunto que ora repito, com desdobramentos e variações sobre seu eixo, é que o falecimento é um fenômeno naturalmente incessante e inquietante, que nos obriga de vez em sempre a parar o que estamos vivendo para refletir sobre o que ou quem está morrendo, seja ao nosso redor, seja do outro lado do mundo, uma pessoa ou uma fornada delas.
O fascínio que o tema da morte causa na espécie humana remonta a tempos para lá de longínquos, e vem desafiando a própria vivência das pessoas nas mais variadas formas. Desde elixires da longa vida até pactos com o além, o fato é que existe um apego inapelável à vida que simula um enorme eletroímã, cuja energia é sempre desejada que nunca se desligue da fonte que o alimenta e o faz agregar.
Não é engraçado, mas curioso, que o ser humano, desde que se conhece como tal, vem tentando esticar a vida (com enorme sucesso, diga-se) e achar, ao mesmo tempo, qualquer coisa que evite o seu desaparecimento e, se assim for, ao menos estanque o medo de morrer... e sofrendo. Fora das linhas que traçam os desígnios espirituais, não sobra muito para quem está do lado de fora das cordas por discordância ou ceticismo, o que pode despertar um receio de que, na hora do adeus à carne, alguma dor física recaia sobre ela ou no conjunto, incluindo aqui a alma.
Sacerdotes, filósofos, poetas, autores, cientistas sociais, biólogos, psicólogos e pesquisadores em geral nunca deixaram de se interessar pelo tema na sua forma mais elástica e abundante que essas linhas de pensamento perpassam. Listaria aqui um monte de gente, curiosamente já morta, que da morte fez seu ganha-pão. Gosto, particularmente, do que enseja em suas linhas o espirituoso poeta Augusto dos Anjos. Vejam, até no nome deste há algo de etéreo. Paraibano nascido, prestem atenção de novo aos sinais, em Cruz do Espírito Santo, em 1884, segundo uma linha biográfica dele, pelo que há em sua obra dilacerante e eterna foi, mais um, a gozar de mais respeito entre críticos depois de sua morte.
O "poeta macabro", ou "poeta da morte", fez de sua inteligência e cultura um poço de versos que jorravam fúnebres descaminhos, com amores enterráveis e um traço vivo sobre as mais variadas mortes simbólicas que abalaram, pelos relatos, uma certa elite letrada e versada em Lisboa e adjacências. Seu Psicologia de um Vencido diz um pouco, ou muito, de seu peculiar olhar sobre a Terra e seus esquisitos nativos, como talvez se visse também neste soneto: “Eu, filho do carbono e do amoníaco/Monstro de escuridão e rutilância/Sofro, desde a epigênese da infância/A influência má dos signos do zodíaco. Profundissimamente hipocondríaco/Este ambiente me causa repugnância.../Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia/Que se escapa da boca de um cardíaco. Já o verme — este operário das ruínas —/Que o sangue podre das carnificinas/Come, e à vida em geral declara guerra/Anda a espreitar meus olhos para roê-los/E há de deixar-me apenas os cabelos/Na frialdade inorgânica da terra!"
Sim, como escrevi anteriormente, naturalizamos a morte "matada". Contudo, esta morte lírica, também de indispensável reflexão, nos remete ao outro lado da banalização, que é uma erudição necessária e urgente em cima de quem, antes de nós, se debruçou nas entranhas do humano para ajudar a nos explicar as nossas evoluções e barbáries simétrica e milimetricamente pareadas. Aliás, os mortos continuam a nos escrever, descrever e reescrever.












