Usos e abusos das palavras e gestos
Os termos e os atos praticados numa relação pessoal devem ser bem colocados a fim de se separar o que nutre e o que apavora
Eduardo Olimpio|Do R7

Parece que está na moda. Pior, nunca saiu do cenário das relações pessoais desde que o mundo é mundo, ou desde quando seres humanos começaram a se relacionar socialmente entre si, e nisso já se vão milênios.
O conceito de assédio, que numa primeira busca fácil pelo dicionário traduz-se como “operação militar” ou “conjunto de sinais ao redor ou em frente a um local determinado, estabelecendo um cerco com a finalidade de exercer o domínio”, se articula facilmente com o segundo significado numa livre extensão do pensamento, cujo teor é “insistência impertinente, perseguição, sugestão ou pretensão constantes em relação a alguém”. Portanto, é uma articulação que intenciona ir para cima de alguém, certo?
Se pegarmos pela memória recente, recortando séculos de ações que deixaram marcas profundas e aparentemente indissolúveis nas mais variadas formações sociais patriarcais e hierárquicas que perduram até hoje, vamos ver no noticiário uma verdadeira explosão de narrativas acerca de assédios dos mais variados tipos, provocados ou recebidos, de pessoas com algum poder em mãos ou a ele submetido. Essa influência de uns sobre os demais passa pelo dinheiro, cargo, capacidade mental e força física que se unem e agem, quase que exclusivamente, no campo desconhecido e, ao mesmo tempo, natural em nós, que é o medo.
Parece que vivemos uma pandemia inesgotável na qual depoimentos colhidos e, hoje, flagrantes de imagens ou áudios, se avolumam nas delegacias de Polícia, nos fóruns de Justiça, em simpósios presenciais, nas redes sociais, nos meios de comunicação, em instâncias governamentais e em outras portas de entrada do problema. Salvo engano, nunca se viu, exceto em territórios controlados pela violência ou tomados por guerras, tantas histórias sobre assédio moral e sexual, os mais falados e talvez conhecidos. Mas há outros, como o bullying e o stalking, além do assédio ao consumidor ou o midiático.
Rapidamente, o assédio moral caracteriza-se como exposição à situação humilhante e constrangedora de um trabalhador por parte de seu superior hierárquico, que no ambiente de trabalho o ridiculariza e hostiliza, provocando constrangimento, insegurança e estresse, de forma repetitiva ou não. O assédio sexual, por exemplo, e materializa por um comportamento indesejado de cunho sexual, sob forma verbal ou física, direcionado a uma pessoa que não consentiu tal investida, de qual sexo for.
Já o bullying é a prática de atos violentos, intencionais e repetidos para causar danos com ameaças físicas e psicológicas à vítima, muito comum em ambientes escolares. E há o stalking, que é a perseguição decorrente de uma obsessão que invade a intimidade de outro, incluindo contato insistente pelo telefone e pela internet, por exemplo. Por dentro e por fora destes existe a tortura, que merece atenção por colocar violentas ferramentas de caráter psicológico e físico a serviço de obtenção de informações ou para simplesmente satisfazer um prazer psicótico de quem a pratica.
Vão dizer os mais libertários que há muito ‘mimimi’ neste cenário e que o ‘politicamente correto‘ tomou conta da espontaneidade com que pessoas se relacionam. Há, claro, inflação de dados, delações mentirosas, avaliações equivocadas, paqueras mal interpretadas etc. mas saber reconhecer um assédio com todas as suas nuances e tomar providências o quanto antes para acabar com tal prática é imperioso, assim como separar liberdade de expressão de abuso, ou entender quando se trata apenas de um discurso de poder.
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Deixo aqui registrado meu pesar pelo falecimento do jornalista Domingos Fraga, profissional com quem troquei, além de ideias e pautas, momentos de pura gentileza.












