Virtualização delivery
Sem pedir licença, uma vivência não concreta vem reinventado a roda do saber e do sentir das coisas
Eduardo Olimpio|Do R7

O mundo como é nos convida, forçosamente diria, a experimentá-lo logo após a saída do útero. Dos primeiros acordes ouvidos já fora da barriga até o último som a entrar pelos tímpanos à porta da morte, o corpo humano corre atrás de resolver as incontáveis demandas para quais é literalmente levado a lidar. Não dar conta de tudo que é oferecido, mesmo hoje sabendo que apenas um punhado delas, de fato, vira matéria-prima para a vida, parece não nos confortar.
Este mesmo mundo, o natural, é ainda um desconhecido passado o tempo em que nele habitamos. Mas há outro, paralelo, que foi estabelecido de forma diferente, pelos meios manuais e intelectuais do Homem ao se desenvolver enquanto vem lutando pela sobrevivência e colhendo seus frutos na forma de tecnologias.
Se formos consultar, há algumas definições para o tal mundo virtual, mas o que chama mesmo a atenção é a maneira como estamos pesquisando e realizando eventos para transformar como sentimos o ambiente que nos envolve. Ou como não estamos!
Não muito recentemente – cerca de 20 anos atrás - foi criado o Second Life, que resumidamente é um ambiente virtual no qual espelhamos a nós mesmos por meio de ‘avatares’ que vivem nossas vidas simulando-as nessa espécie de ‘Vila Sésamo’ ou ‘Wall Street’ virtual. Antes dele - bem antes, aliás -, o cinema, assim como a literatura, nos brindavam desde os seus primórdios com viagens estrelares, seres mitológicos, doenças pandêmicas a exterminar a humanidade e cavernas na boca da crosta terrestre a nos engolir, entre inúmeras outras formas de se ver, desafiar e entender a frágil vida que vivemos.
O interessante é observar como esse ser humano foi e é capaz de reinventar-se e recriar não só o modo como se vê, mas o ambiente em que ‘vive’ suas tragédias, principalmente. Presas pela gravidade à Terra, as pessoas parecem que nunca se sentiram pertencentes ao sistema terreno e, movidas sejam lá por quais forças, de alguma forma buscaram, ao longo da vida, ‘romper a bolha’ da camada atmosférica, ‘afrontar’ a natureza para destruí-la, reinventar suas formas de apresentação e sustentação ou, de forma paradoxal, deixá-la quieta como reserva e buscar recursos ‘naturais’ na Lua, por exemplo. O ex-presidente norte americano Barack Obama, pasme, aprovou no Congresso americano legislação permitindo exploração mineral no satélite natural do planeta.
Ficção científica? Ao interferir nisso, o humano tem buscado ‘naturalmente’ se eternizar por aqui e, se assim é o jogo, por que não juntar sua tentativa de ir mais longe no tempo e no espaço com mais conforto, bem-estar e prazer, com menos dor física e psíquica?
A virtualização dos afazeres ajuda a preencher este vazio e, se não resolve, ao menos ameniza, fato. Quando se ativa no cérebro uma região em que, por meio de ondas sonoras, esta reaja e ‘se lembre’ do cheiro marcado talvez por uma emoção remota, o que é isso se não uma tentativa de apaziguar, dar um momento de deleite à existência por meio de uma tecnologia? Sacar dinheiro em cédulas que se materializam nas suas mãos após uma operação remota via celular será possível?
‘Transmitir’ odores pela internet, tocar superfícies virtualmente e sentir nos dedos a aspereza ou maciez das coisas, ‘fazer’ desaparecer um objeto e ‘levá-lo’ a outro destino. A matéria orgânica dentro dos nossos cérebros e a Física quântica estão aí sendo testados e/ou aperfeiçoados, e já começaram a revolucionar o que sabemos sobre nós apontando para um futuro incerto dos feitos humanos.
O certo é que áreas como a de transportes/logística, entretenimento, saúde, finanças, meio ambiente, serviços de reparos, agronomia, comércio, informação, química, astronomia, indústria de chips e ótica, telecomunicações, recursos humanos, automação e a feira de hortifruti defronte ao seu portão já estão na rota de giro de 180 graus; virarão de ponta-cabeça, mas sem destino exato de onde irão parar.












