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Eduardo Olimpio

Viver para sempre... até morrer 

Estratégias não nos livram da mais pura certeza da vida

Eduardo Olimpio|Do R7

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“A morte tem lá sua valia

Senão, não existiria


Mas que tipo de morte tratamos?

Será que é a morte dos insanos,


desses que vagam e já não sentem a vida,

ou daqueles de morte carnal, ferida?


Apenas a morte e a plateia têm senso

Pois a morte, de denso, só em cadáver


Se morre o caráter, morto está já faz tempo.”

Comecei assim, com um poema autoral escrito num tiro só em 1998 e usado numa prova na faculdade de jornalismo, a responder a uma questão com base, aí sim, num genial texto (e música) da década de 1970 para o qual meu professor, então, pedia uma interpretação. O título da obra? “De Frente pro Crime”, de João Bosco. E lá se vão muitos anos que mudaram tanto a minha leitura da morte e, sem trocadilho, imortalizaram a obra deste grande artista brasileiro.

Ela, a morte, o passamento, o falecimento ou qualquer outro sinônimo é a maior certeza que carregamos conosco a vida toda para lá e para cá sem sabermos exatamente em que momento a ela seremos apresentados. Quando, enfim, a conhecem, povos dos quatro cantos do planeta tratam-na de diferentíssimas formas. Daria livros e mais livros se descrevêssemos este fenômeno, que nos escancara como somos fracos diante dela. Aliás, todo mundo tem uma frase de efeito sobre o tema e isso é natural para que possamos amenizar ou mesmo refletir, de forma mais racional, algo que mexe profundamente com as emoções, lembrando sempre que o que as pessoas mais desejam no mundo — além de tudo que elas querem — é não sofrer.

Ocorre que, se as mortes ficassem somente no plano do outro e não no nosso, tocaríamos a vida sem (quase) nunca sentirmos na pele a força bruta com que nos bate. Democrática que é, ao fazer-se presente pertinho de nós, por exemplo, nos subtrai os nossos queridos causando dores e lutos de diversas ordens e intensidades. Mas, sendo franco e humano com a frase inicial, a morte de outra pessoa desconhecida, a depender das circunstâncias, nos toca sim, profundamente. Bobagem negar isso enquanto temos pulso e sangue correndo nas veias.

Em uma leitura dentre outras do próprio cotidiano, tão incrivelmente narrada na canção que citei, o padecimento é mais real do que a realidade. São muitos os corpos estendidos em incontáveis superfícies, vítimas de causas naturais ou violentas. As chamadas naturais englobam as esperadas por conta de doenças terminais ou ‘fadiga do material’, interrelacionadas ou não. O problema da morte violenta é o caráter da surpresa com que se apresenta.

Fica uma sensação amarga na mente das pessoas no momento que sabem que uma morte foi por causa de um acidente de trabalho ou de trânsito. Pior (sem comparações porque aprendi que não são grandezas comparáveis as dores devidas da morte), socialmente ao menos, é quando acontece um latrocínio (morte após um roubo), matricídio (matar a própria mãe), parricídio (matar o próprio pai), fratricídios (matar irmão ou irmã) e demais horrores...como fica a cabeça de alguém que perdeu, por alguma forma de violência, um parente amado em tais circunstâncias? Como continuar vivo? Como não pirar?

Perdi meu pai há 6 meses. Idoso e doente, caiu no chão e não mais conseguiu se restabelecer. Pensei que jamais conseguiria sobreviver sem ele. Se não estou enganado, ainda estou aqui. Augusto dos Anjos, poeta do início do século 20 tachado de ‘macabro’ por fazer ‘troça’ com a morte e outros símbolos da finitude, acho que entendeu e, de alguma forma, sintetizou em sua curta porém visceral obra, que de nada adianta afrontar uma força ‘desumana’ que brota não sei de onde e nos põe de joelhos diante dela, seja pra questionar o ‘por que comigo’, orar pelos que se foram, nos mostrar que temos começo, meio e fim e que somos tolos em tentar dela escapar.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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