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Luiz Fara Monteiro

A turbulência invisível: saúde mental dos pilotos entra no radar da aviação moderna

Pressão constante, privação de sono, responsabilidade sobre vidas humanas e cultura de alta performance desafiam equilíbrio emocional de profissionais da aviação

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Uma das profissões mais exigentes quando o assunto é desempenho humano Wikimedia Commons

Para quem está na cabine de passageiros, o piloto costuma representar controle absoluto. Segurança, estabilidade, precisão e confiança fazem parte da imagem construída em torno de uma profissão treinada para lidar com decisões rápidas e cenários complexos. O que pouco se discute, no entanto, é o impacto psicológico de viver sob pressão contínua, responsabilidade extrema e jornadas frequentemente incompatíveis com o funcionamento natural do corpo.

A aviação civil é uma das profissões mais exigentes quando o assunto é desempenho humano. O piloto precisa manter atenção prolongada, tomar decisões sob pressão, antecipar riscos, lidar com privação de sono, mudanças de fuso horário e ainda sustentar estabilidade emocional diante de situações imprevisíveis.


Segundo a psicóloga Daisy Cangussú, especialista em saúde mental organizacional, Fatores Humanos e desenvolvimento de pessoas, os efeitos dessa rotina nem sempre aparecem de forma imediata.

“A aviação exige um estado contínuo de vigilância, responsabilidade elevada e necessidade permanente de desempenho preciso. Quando não existem estratégias consistentes de recuperação física e emocional, esse contexto pode produzir desgaste progressivo e silencioso”, explica.


Os primeiros sinais costumam surgir de forma discreta: irritabilidade, dificuldade de relaxamento, alterações do sono, fadiga persistente, sensação de funcionamento no automático, ansiedade, queda de motivação e dificuldade de concentração.

Uma pesquisa publicada no periódico científico Travel Behaviour and Society, realizada com 372 pilotos australianos e europeus, identificou níveis elevados de fadiga, dificuldades de sono, sintomas de ansiedade e piora do bem-estar psicológico entre profissionais da aviação. O estudo aponta que jornadas intensas, mudanças de escala e privação de descanso adequado afetam diretamente não apenas a performance operacional, mas também a saúde emocional dos pilotos.


Além do desgaste operacional, existe uma dimensão subjetiva frequentemente invisível: a responsabilidade constante sobre vidas humanas.

“O piloto aprende desde cedo a não errar, antecipar riscos e sustentar controle emocional. Mas quando essa exigência não encontra espaços saudáveis de apoio, escuta e recuperação, ela pode se transformar em autocobrança excessiva, tensão acumulada e dificuldade de reconhecer vulnerabilidades”, afirma Daisy.


Durante décadas, falar sobre sofrimento psicológico dentro da aviação foi cercado de silêncio. Em parte da cultura aeronáutica, demonstrar fragilidade emocional ainda era interpretado, equivocadamente, como ameaça à capacidade operacional.

Nos últimos anos, no entanto, organismos internacionais como a ICAO, FAA, EASA e a própria ANAC passaram a reconhecer saúde mental como parte importante da segurança operacional. Programas de apoio entre pares, chamados Peer Support Programs, vêm ganhando espaço justamente para reduzir estigmas e oferecer acolhimento confidencial a profissionais em sofrimento emocional.

Daisy Cangussú é psicóloga, escritora e especialista em gestão de pessoas Arquivo pessoal

Para Daisy Cangussú, uma das maiores mudanças da aviação contemporânea está justamente nessa nova compreensão.

“Hoje entendemos cada vez mais que cuidar da saúde mental não enfraquece desempenho. Pelo contrário. Fortalece capacidade adaptativa, tomada de decisão, equilíbrio emocional e segurança operacional”, diz.

A grande reflexão talvez seja simples, mas necessária: pilotos operam máquinas complexas, mas continuam sendo humanos. E reconhecer limites emocionais pode ser tão estratégico para a segurança quanto qualquer instrumento de bordo.

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