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Luiz Fara Monteiro

Acordos comerciais, codeshare e participações cruzadas entre American-Azul levam consumidores ao Cade

IPSConsumo diz que acordo entre American e Azul exige exame mais profundo sobre coordenação entre envolvidos na Operação. GOL também pede análise

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Acordo entre American e Azul: IPSConsumo diz que acordo exige exame profundo William Alves

O Instituto de Pesquisas e Estudos da Sociedade e Consumo (IPSConsumo) protocolou pedido para ser admitido como terceiro interessado no processo em que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) analisa a compra de participação de 8% da Azul pela American Airlines (AA). Além do IPSConsumo, a ABRA, controladora da GOL, também pediu para entrar como terceira parte.

A presidente do IPSConsumo e ex-secretária Nacional do Consumidor, Juliana Pereira, explica que o caso apresenta riscos relevantes à coletividade, além de fortes indícios de gun jumping (consumação prematura de atos de concentração de mercado).


A participação como terceiro interessado tem três objetivos centrais: que o Cade investigue a prática de gun jumping e, se confirmado, que as empresas sejam multadas por prática ilegal e claro desrespeito institucional; clareza de que a presença da AA na Azul é muito maior do que ‘uma mera aquisição’, mas um arranjo que envolve também a United Airlines e tem repercussões que podem alcançar a própria concorrente Gol. “É imprescindível uma atuação detalhada e com claros remédios para manter a concorrência e proteger os consumidores”, explica Juliana.

Além disso, o pedido da GOL, como terceiro interessado, torna as preocupações manifestadas pelo IPSConsumo ainda mais urgentes. “ABRA, holding que controla a GOL, passou a reconhecer publicamente todos os conflitos de interesses existentes. Há meses alertamos sobre o risco de concentração no mercado aéreo. Finalmente, isto começa a ser reconhecido por todos no mercado”, afirma Juliana Pereira.


Interesses distintos, alarme comum

No entanto, a reclamação da Gol parece focada no risco ao próprio negócio, que alega poder ser prejudicado pela aliança entre Azul e American Airlines. A preocupação do IPSConsumo, por sua vez, é essencialmente com o impacto da concentração sobre o consumidor brasileiro, sobre tarifas e sobre a qualidade do serviço aéreo como um todo.


Mas tanto IPSConsumo quanto GOL apontam para a mesma raiz de problema, que são os claros conflitos de interesse e a hiperconcentração do mercado nas rotas Brasil-Estados Unidos, de modo que, sem uma análise profunda do Cade, há o risco da concorrência passar a existir apenas no papel. “O risco não está no tamanho da fatia adquirida, mas em quem a compra e em quantos lugares essa compradora já está e influência ao mesmo tempo”, explica Juliana.

Pelo acordo com a Azul, American e United Airlines (UA) passarão a indicar membros para o Conselho de Administração e para o Comitê Estratégico da Azul. Ao mesmo tempo, a American mantém representante no conselho da Gol e um codeshare com a concorrente da Azul. A UA detém participação indireta de cerca de 7% na Gol, complicando ainda mais o cenário de desejada independência.


O resultado, segundo o IPSConsumo, é que, no fim do dia, as mesmas duas companhias americanas terão acesso simultâneo a informações estratégicas de Azul e Gol, rivais diretas no mercado doméstico, sem que nenhuma fusão entre as brasileiras precise ser declarada. Os incentivos à coordenação são evidentes.

“É necessária uma análise rigorosa sobre o seguinte fato: AA e UA, duas rivais estrangeiras da Azul, passam a controlar acompanhia e a ter acesso simultâneo a informações estratégicas de Azul e Gol, em um ambiente estruturalmente propício à coordenação entre as duas maiores aéreas brasileiras, para não falar sobre os próprios efeitos ao mercado americano na rota EUA-Brasil,”, diz Juliana.

Azul tarjou como confidencial toda a sua resposta sobre diretoria cruzada

O IPSConsumo explica que a Azul tarjou como confidencial toda a sua resposta sobre diretoria cruzada na versão pública do formulário de notificação ao CADE. Em nenhum momento da peça pública aparecem os nomes de Jeff Ogar, diretor de Parcerias Aéreas da AA eleito ao Conselho de Administração e ao Comitê Estratégico da Azul em fevereiro, nem de Patrick Wayne Quayle, vice-presidente sênior de Planejamento de Malha e Alianças da UA, também com assento nos dois órgãos.

A presidente do IPSConsumo afirma que, sem alguém olhando os bastidores em nome da coletividade, o Brasil corre o risco de manter, no papel, a concorrência entre Azul e Gol e ter, na prática, duas empresas conectadas por meio de suas parceiras americanas, AA e United Airlines (UA), que dividem assentos nos órgãos de governança das duas brasileiras.

IPSConsumo vê contradições em atuação de executivo da AA na GOL

No formulário do ato de concentração, a American Airlines declarou ao Cade que Anmol Bhargava, vice-presidente sênior de Alianças Globais da AA, teria sido membro do Conselho de Administração da Gol apenas até a privatização da empresa pelo Grupo Abra, em 2022/2023.

No entanto, Bhargava aparece no site de Relações com Investidores da Gol como “membro efetivo” do conselho. Além disso, ata arquivada na Junta Comercial de São Paulo em 25 de fevereiro de 2026 mostra Bhargava compondo a mesa do conselho da Gol em deliberação realizada em 21 de janeiro de 2026. Nessa reunião, há documentos assinados por ele.

Se confirmado, o Cade terá em mãos um caso clássico de interlocking directorates: a AA, ao mesmo tempo, com representante no conselho da Gol (Bhargava) e com representante no Conselho de Administração e no Comitê Estratégico da Azul (Ogar). “Como a AA pretende operacionalizar dois acordos de codeshare com rivais, Gol e Azul, sem que informações estratégicas circulem entre as duas brasileiras pela ponte americana? O Cade não pode fazer uma análise à jato sobre essas questões. Apenas para ficar na rota Brasil-EUA, Azul, AA e UA deverão alcançar mais de 60% de market share. Se colocar a participação da Gol aí dentro, chegaremos a quase 70%. Isso é muito, sobretudo, em um mercado estruturalmente complexo e com passagens cada vez mais caras”, diz Juliana.

Ameaça velada ao CADE

No ato de concentração, a Azul alega que uma análise prolongada do Cade colocaria em risco a saúde financeira da empresa. “Esse pleito não se sustenta. A própria Azul anunciou ao mercado, em 20 de fevereiro de 2026, que concluiu com sucesso sua reestruturação no Chapter 11, com redução de US$ 1,1 bilhão em dívida de empréstimos, captação de aproximadamente US$ 1,375 bilhão em notas seniores e US$ 950 milhões em compromissos de equity”, lembra a presidente do IPSConsumo.

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