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Luiz Fara Monteiro

Entre a crise econômica, a política e a guerra: o colapso da Spirit Airlines

No caso de empresas de baixo custo, modelo de negócios de margens apertadíssimas, os números importam ainda mais. Artigo de Rafael Petracioli

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Spirit Airlines: realidade econômica inesperadamente moldada pela política. Spirit Airlines

A Spirit Airlines, companhia americana de transporte aéreo low cost quebrou nesta semana. Em um sentido mais técnico, a empresa, que tentava uma nova negociação com os credores nos termos do Chapter 11 americano, nesta semana decidiu por um regime de liquidação programada, com interrupção imediata das atividades e o fechamento de mais de 15 mil vagas de emprego.

Em toda crise empresarial, a narrativa tradicional aponta, quase sempre, para questões como endividamento e falhas de gestão. No caso de empresas de aviação civil de baixocusto – modelo de negócios de margens apertadíssimas muito difundido na Europa enos Estados Unidos, os números, em cada vírgula, importam ainda mais.


Mas a insolvência empresarial também possui, e muitas vezes isto é ignorado, um ingrediente catalisador da crise: o contexto. E, no caso da Spirit, questões geopolíticas e econômicas foram a pá de cal em sua tentativa de soerguimento.

A crise empresarial, inicialmente, atingiu a Spirit há mais de cinco anos: o modelo de negócio de baixíssimas margens, combinado com o alto endividamento, gerou sucessivos prejuízos acumulados, ano após ano, culminando em 2024 com o seu pedido de proteção e reestruturação via Chapter 11, na legislação brasileira, o seu paralelo seria o pedido de recuperação judicial.


Em menos de um semestre, surpreendentemente, a empresa saiu do regime recuperacional, para poucos meses depois precisar retornar, mas agora com o endividamento em quase o dobro de quando buscou sua primeira reestruturação.

Está claro, portanto, que a crise da Spirit, como a maioria das crises empresariais, tem origem e fundamento em seus números de péssimo desempenho. O nicho específico das companhias aéreas de baixo custo é um modelo de negócio ainda mais dependente da competência de gestão do que a maioria. A excelência no nível de ajuste e controle de custos, além da precisão do planejamento de curto, médio e longo prazos, são divisores de água entre o sucesso e a retumbante derrocada.


E não se deve esquecer que essas baixíssimas margens ainda deveriam dar conta dos custos de dívida. Ao praticar malabares com cinco bolinhas é possível até que se insira mais uma no meio da apresentação, mas outras cinco, ao mesmo tempo, derrubam as demais e inviabilizam o show. A Spirit estava, em seu malabarismo, buscando uma nova negociação com seus credores, já com cada vez menos possibilidade de sucesso.


A geopolítica, dando um empurrãozinho na economia global, jogou cinco bolinhas de uma só vez. É difícil, até para os melhores gestores do mundo, prever eventos contextuais muito fora da curva. E, como já dito, um negócio de margens muito apertadas depende muito do sucesso do planejamento. Mas como prever, para poder planejar, um entrave que surpreendeu o mundo inteiro?

O ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, com todos os seus desdobramentos políticos e econômicos, acertou um forte golpe em quem já estava cambaleante: o preço do petróleo, em tantas subidas e descidas diárias, chegou a dobrar. O aumento, óbvio, chegou ao combustível de aviação. E o combustível não é qualquer linha de despesa nesse negócio: é a principal. Um custo determinante da própria viabilidade da atividade.

Pelo lado do espectro jurídico, é conhecida a lógica dos processos recuperacionais: ganhar tempo, reorganizar dívidas, reajustar a operação, afinar o planejamento. Mas há uma premissa nesse modelo, implícita e inafastável, seja na experiência brasileira ou americana: a de que o problema é, em alguma medida, solucionável dentro do ambiente econômico existente. Quando esse ambiente está sendo pressionado por fatores externos, como conflitos internacionais que elevam sobremaneira os custos estruturais, o espaço de solução diminui drasticamente.

Fechadas as portas para fusões, pensar que a Frontier Airlines fez várias propostas de aquisição em um passado bem recente, com uma proposta de salvamento via governo que não atingiria o objetivo de salvamento da empresa, e a impossibilidade de alterar a rota com o avião em voo, o seu Conselho decidiu pela liquidação programada.

O colapso da Spirit Airlines ilustra como decisões e eventos políticos, especialmente em nível internacional, têm o poder de redefinir a viabilidade econômica de setores inteiros, derrubando os players que não estão esbanjando saúde financeira. A guerra, mesmo do outro lado do mundo, tornou o desfecho inevitável.

Do ponto de vista jurídico, fica uma lição: instrumentos como o Chapter 11 americano ou a recuperação judicial brasileira são sofisticados, e, muitas vezes, eficazes. Mas operam dentro de um limite fático que não pode ser ignorado, o limite da realidade econômica.

E a realidade econômica pode ser profunda e inesperadamente moldada pela política.

Rafael Petracioli é mestrando em Direito pela Universidade Católica de Salvador e mestre em Direito pela Universidade Federal da Bahia. Possui forte atuação no setor bancário e expertise dos dois lados da operação, tanto pela atuação profissional no sistema financeiro quanto pela atuação jurídica.

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