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Luiz Fara Monteiro

Fadiga de tripulantes está relacionada à grande quantidade de acidentes, diz comandante

Paulo Licati, piloto e estudioso sobre as consequências da fadiga em tripulantes, chama atenção para as escalas de serviço excessivo

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Learjet sofre excursão de pista em Congonhas: fadiga dos pilotos? Reprodução redes sociais

O comandante Paulo Licati, piloto de linha aérea e especialista em segurança de aviação e aeronavegabilidade, chamou a atenção para a queda progressiva a qualidade de trabalho dos tripulantes devido à quantidade de dias consecutivos de operação e à exposição a estímulos estressantes de natureza variada. Instrutor de Boeing 737, Bacharel em Aviação Civil, Especialista em Segurança de Aviação e Aeronavegabilidade Continuada (ITA), MBA em Logística e Supply Chain (FGV) e Agente de Segurança de Voo pelo CENIPA), Licati tem Curso de Investigação do Fator Fadiga Humana (NTSB), Idealizador da Comissão Nacional de Fadiga Humana (CNFH - CNPAA -CENIPA). O comandante usou o recém publicado relatório final pelo CENIPA sobre a ocorrência de outubro de 2022 no Aeroporto de Congonhas com um jatinho Learjet para lembrar que, tanto esse incidente quanto a queda do voo da Voepass, em Vinhedo, podem estar relacionados ao cansaço dos aviadores. Leia o artigo que Licati publicou em uma rede social:

Comandante Paulo Licati Arquivo pessoal

Excursão de pista no aeroporto de Congonhas (SP) é considerado Incidente grave pelo CENIPA. Em 9 de outubro de 2022, um jato executivo Learjet 75 (PP-MIX) teve os pneus do trem de pouso estourados durante o pouso, o que causou a interdição da pista principal por quase nove horas.


A pergunta é: Poderia ser evitado?

O ser humano nas operações aéreas é o último elo da corrente que não deveria falhar. A fadiga esta relacionada a uma grande quantidade de incidentes e acidentes aéreos no Brasil e no mundo. Recentemente o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em relatório preliminar, apontou a fadiga dos tripulantes do acidente do VOEPASS em Vinhedo (SP) como fator presente na investigação.


Hoje o CENIPA divulgou mais um relatório onde cita a fadiga como fator indeterminado, que podemos entender como possível causa.

“Fadiga – indeterminado"


É possível que os pilotos, em especial o PIC (Piloto em Comando), estivessem vivenciando uma queda progressiva em sua qualidade de trabalho devido à quantidade de dias consecutivos de operação e à exposição a estímulos estressantes de natureza variada, tais como condições meteorológicas adversas e pressões autoimpostas.

Fica a dica para os tomadores de decisões, antes de reclamarem de um acidente da aviação executiva em Congonhas: defendam e pratiquem a gestão de riscos com relação à fadiga humana dos tripulantes brasileiros. Quando ocorre um acidente aéreo todos são afetados. Creio que o prejuízo foi grande para todos envolvidos naquele dia", conclui Licati.


O blog acesso o documento do CENIPA, que em alguns trechos embasa as suspeitas de Licati, como no parágrafo abaixo:

Os eventos ocorridos após a aterragem em SBFI [Foz do Iguaçu] e a compulsão para concluir o pouso em SBSP [Congonhas] poderiam estar associados à pressa em encerrar a jornada de voo, cuja motivação seria a intensão de evitar um conflito interpessoal e eventuais pressões devido a atrasos decorrentes de uma arremetida para um novo procedimento de aproximação”.

Outro ponto do relatório ressalta uma possível ansiedade do Piloto em Comando (PIC) pra concluir logo a jornada:

É provável que os pilotos, especialmente o PIC, estivessem em um estado de motivação elevada para encerrar a sua jornada de trabalho e que esse desejo tenha gerado uma compulsão para prosseguir com o pouso, interferindo no desempenho operacional da tripulação".

A fadiga pode ter contribuído para um suposto julgamento equivocado de um dos pilotos (PM) em sugerir parâmetros não indicados ao piloto que, de fato, executava as manobras da aeronave (PF).

“Durante a aproximação final, o PM instruiu o PF a manter velocidade superior à recomendada e retardar o comando de flapes para pouso, por suspeitar que o vento se inverteria, o que poderia gerar um aviso de Windshear [variação na velocidade e/ou sentido do vento]. Considerando que isso implicava em executar uma aproximação não estabilizada, verificou-se uma inadequada avaliação das implicações desse desvio que culminou no toque com velocidade excessiva, o que impediu a ativação de sistemas de frenagem, tais como os freios normais, spoilers e reversores, o que contribuiu para este incidente grave”.

Segundo o CENIPA, a aproximação para pouso com a aeronave não estabilizada culminou no toque com velocidade excessiva na pista de Congonhas e impediu a ativação de sistemas de frenagem, tais como os freios normais, spoilers e reversores, “o que contribuiu para este incidente grave”.

Da mesma forma, tendo em vista que o sistema de freio de emergência não contava com anti-skid, seu acionamento com velocidade elevada (aproximadamente 120 kt) resultou no travamento das rodas das pernas esquerda e direita do trem de pouso principal e no consequente estouro dos pneus, circunstância que interferiu no controle da aeronave no solo.

O Sitema Anti-skid é um controle eletro-hidráulico automático que impede o travamento das rodas durante a frenagem. O sistema utiliza sensores de velocidade das rodas para monitorar a desaceleração e liberar momentaneamente a pressão de frenagem nas rodas travadas, garantindo máxima eficiência de frenagem, distâncias de parada mais curtas e prevenindo estouros de pneus, especialmente em pistas molhadas ou com gelo. O dispositivo compara a velocidade de cada roda com a velocidade da aeronave em relação ao solo, modulando a pressão hidráulica para manter os pneus girando com a taxa de deslizamento ideal, similar ao ABS automotivo, porém crucial para a estabilidade e o controle da aeronave.

O Learjet 75 perdeu o controle ao pousar na pista 35L (esquerda) do Aeroporto de Congonhas em 9 de outubro de 2022 e só foi parar próximo ao barranco que separa o pátio da área urbana. Além dos 2 pilotos, 3 passageiros estavam a bordo. Ninguém ficou ferido.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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