Fadiga de tripulantes pode ter contribuído para queda de avião da Voepass, diz Ministério do Trabalho
Auditoria do MTE identificou falhas em escalas de serviço, risco de fadiga, descumprimento da lei e falta de mais de R$ 1 milhão no FGTS

O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), por meio da equipe de fiscalização da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE-SP), realizou uma auditoria após o acidente aéreo de 9 de agosto de 2024, envolvendo um avião da empresa Voepass/Passaredo. O acidente causou a morte das 62 pessoas a bordo, incluindo os quatro tripulantes — comandante, copiloto e duas comissárias de voo — e foi considerado um acidente de trabalho grave, que precisa de análise imediata e completa.
O relatório da auditoria analisou as escalas de trabalho do comandante e do copiloto desde 1º de maio de 2024 até a data do acidente. Foram verificados até os registros de check-in e checkout em hotéis para confirmar os períodos de descanso. O objetivo era entender se a fadiga poderia ter sido um dos fatores que contribuíram para a queda da aeronave.
A conclusão foi que a empresa montou escalas que reduziram o tempo de descanso da tripulação, o que pode ter causado cansaço em um nível capaz de prejudicar a concentração e o tempo de reação dos profissionais. Esse fator, somado a outras possíveis causas, pode ter contribuído para o acidente com o voo 2283.
Entre os principais problemas encontrados estão: falta de controle efetivo da jornada da tripulação, descumprimento da Lei dos Aeronautas quanto a limites de jornada e períodos mínimos de descanso, e violação de cláusula da Convenção Coletiva voltada à prevenção da fadiga. Por essas irregularidades, a empresa recebeu 10 autos de infração, que podem gerar multas de cerca de R$ 730 mil. Além disso, foi notificada por não recolher mais de R$ 1 milhão em FGTS de seus empregados.
O relatório também cita estudos científicos que sugerem medidas que poderiam ser adotadas pela empresa para diminuir o risco de fadiga e, assim, evitar novos acidentes aéreos.
A fadiga de tripulantes é umas das principais causas de acidentes aeronáuticos no mundo. Cerca de 75% dos pilotos europeus cochilaram enquanto operavam uma aeronave no mês passado, de acordo com uma nova pesquisa. Três em cada 4 pilotos de aéreas europeias admitem cochilar em voo.
Dos quase 7.000 pilotos entrevistados pela consultoria de segurança da aviação Baines Simmons, em nome da European Cockpit Association, pouco menos da metade relatou ter de um a quatro “microssonos”, enquanto 17% tiveram de cinco a nove microssonos. Apenas 24% dos entrevistados disseram que nunca tiveram um microssono. Microssono é basicamente quando você adormece por vários segundos sem ser capaz de controlá-lo e, muitas vezes, você pode nem perceber que adormeceu. Pode parecer que você ainda está acordado durante um microssono, mas seu cérebro não está processando informações, de acordo com a National Sleep Foundation.
No Brasil, o comandante Paulo Licati, especialista no tema, cobrou, em artigo exclusivo para o blog, que as autoridades e empresas tomem ações para mitigar a vulnerabilidade de fatores humanos no setor de aviação.
A aeronave modelo ATR-72 500, de matrícula PS-VPB, fazia o trajeto entre o Aeroporto de Cascavel, no Paraná, e o Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando já em fase de aproximação para o pouso perdeu sustentação e caiu no município de Vinhedo às 13h22 (UTC−3). Com a queda morreram as 62 pessoas que estavam a bordo, dos quais 58 eram passageiros e quatro tripulantes.
O relatório sobre o acidente, divulgado pelo CENIPA em setembro do ano passado, semanas após a ocorrência, citou a indicação de formação intensa de gelo na rota da aeronave como possível fator contribuinte para a queda, suspeita que foi publicada ainda no dia do acidente pelo blog. Reportagens publicadas na mídia após o acidente revelaram que um ex-funcionário da companhia aérea confirmou que um piloto que usou aeronave na madrugada antes do acidente disse à equipe de manutenção que sistema de degelo estava com problema.
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