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Tragédia nuclear pode acontecer no Brasil? O que o país aprendeu com Fukushima

Central Nuclear de Angra dos Reis realizou ao menos 10 modificações técnicas depois do acidente no Japão; confira os cuidados nas usinas nucleares de Angra 1 e 2

Natália Martins|Natália MartinsOpens in new window

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Vista geral das Usinas de Angra 1 e Angra 2 Tomaz Silva/Agência Brasil - 21.06.2024

Há 15 anos acontecia a segunda maior tragédia da história da geração de energia nuclear no mundo. As explosões que derreteram o núcleo do reator na usina de Fukushima Daichi (número 1), depois da completa perda de energia para manter a refrigeração, podiam ser evitadas.

O blog procurou especialistas e técnicos que atuam em pesquisas e na geração de energia nuclear no país para saber: A energia nuclear continua sendo uma boa alternativa na relação custo-benefício? Ela é segura? E o que o Brasil aprendeu com Fukushima?


Para o professor de engenharia nuclear da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Aquilino Senra, a necessidade de descarbonização do planeta torna a geração de energia nuclear ainda mais atual e urgente.

“Tanto a geração de energia eólica quanto a solar é intermitente. Se não tem vento ou não tem sol, não tem energia. Mas a gente consome 24h, assim como a energia nuclear, que fornece energia limpa e contínua.”

A geração de energia nuclear existe há 72 anos. Dentro de sete décadas dessa existência, o mundo assistiu a três graves acidentes no mercado de geração.


  • Em 1979, em Three Mile Island, nos Estados Unidos
  • Em 1986, o mais grave deles, em Chernobyl, na então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas
  • Em 2011, em Fukushima, no Japão

Depois da tragédia, o aprendizado. Com Chernobyl, organismos internacionais surgiram para trazer mais regras, fiscalizar de perto todos os procedimentos e compras importantes e compartilhar informações entre as usinas existentes.

Sala de controle de Angra 1 na Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA), em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro Tomaz Silva/Agência Brasil - 21.06.2024

A WANO (World Association of Nuclear Operators), associação mundial de produtores de energia nuclear, em tradução livre, surgiu para auxiliar nessa troca. Ao contrário de outras indústrias, não existe segredo industrial na geração nuclear. Tudo é compartilhado.


A WANO tem uma área só para receber “eventos reportados” de cada uma das 217 usinas em atividade todo mundo. No ano passado, o vazamento de líquido refrigerante do primeiro selo para o vaso coletor do reator em Angra II, divulgado pelo blog, foi um dos incidentes reportados ao organismo.

A engenheira Mônica Jansen, da Superintendência de Coordenação da Operação do Complexo Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis, diz que “o sistema é conservativo” e, por isso, reportar toda anormalidade é imprescindível para o objetivo número um da usina ser atingido, a “segurança”.


Mônica contou ao blog que a Eletronuclear, que opera o complexo nuclear em Angra dos Reis, em resposta ao acidente em Fukushima, realizou uma série de pesquisas com o que ela considera hipóteses improváveis e reforçou que “não existe o impensável, nada é impossível”.

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Nessa pesquisa nomeada “Plano de resposta ao acidente de Fukushima”, a empresa contratou universidades e empresas especializadas para refazer todos os cálculos: sismológicos, hidrológicos, geológicos, risco de inundação, velocidade de ventos, deslizamentos de encostas, entre outros.

Nas análises, os pesquisadores e calculistas afirmam que, mesmo que ocorra a maior chuva dos últimos cem anos, acompanhada de forte inundação e ruptura total das encostas ao redor de Angra 1 e 2, os sistemas de segurança do complexo não seriam atingidos.

Entre as soluções apresentadas pelo plano, foi implementado um “guia de gerenciamento severo” e, pelo menos, dez modificações técnicas no complexo brasileiro de geração nuclear.

Entre as principais mudanças, está a compra de 12 geradores a diesel móveis, que agora ficam numa área próxima mais elevada em relação ao mar, no morro do Urubu. Quatro deles são destinados a Angra I e outros oito, sendo quatro pequenos e quatro maiores, são para Angra 2. Os geradores servem para ligar a usina à energia externa.

Normalmente ela funciona refrigerando os núcleos dos reatores com a própria geração de energia, mas em uma situação em que haja necessidade de desligar a usina, os reatores continuam esquentando a um grau capaz de derreter o núcleo.

Para isso, geradores são colocados à disposição da usina e mantêm os reatores refrigerados em um eventual desligamento.

Em Fukushima, os geradores da usina estavam no subsolo quando o complexo foi inundado pela água do mar depois do terremoto. Sem energia interna e externa, os reatores esquentaram a ponto de provocar derretimento do núcleo e explosões que causaram o vazamento de radioatividade para o meio ambiente.

Por isso, internamente, na Eletronuclear, chamam os novos geradores do morro do Urubu de geradores Fukushima.

Para Mônica Jansen, a segunda medida mais importante, aprendida com os japoneses, é o processo de tomada de decisões. No Japão, a quantidade de pessoas envolvidas na decisão de crise de Fukushima foi um agravante.

“Para uma mensagem urgente passar por todos na hierarquia desde o supervisor na sala de controle, aos chefes da empresa e até ao primeiro-ministro do Japão, já era tarde demais.”

No Brasil, o processo de tomada de decisão começa pela classificação da emergência. Dependendo da urgência, convocam-se o chefe da usina e o corpo técnico e “atacam o problema”, apenas fazendo uma consulta ao órgão regulador brasileiro, que desde 2025 é a ANSN (Autoridade Nacional de Segurança Nuclear).

A mudança no órgão fiscalizador também foi um avanço recente. Antes, a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) era responsável pela fiscalização. A mudança ocorreu por meio de um processo legislativo e administrativo, segundo fontes na área, para alinhar o Brasil às recomendações da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica).

O objetivo central foi separar quem fiscaliza (regulação) de quem executa (pesquisa e produção), evitando conflitos de interesse.

Hoje, apenas Angra 1 e 2 são responsáveis por produzir energia suficiente para, por exemplo, manter 100% da iluminação pública do país ou 45% do abastecimento de energia de todo o estado do Rio de Janeiro. Mas ainda assim, o Brasil está na contramão do resto do mundo, que amplia o uso de energia nuclear em suas matrizes energéticas.

O Brasil tem apenas 2% da matriz energética composta pela geração nuclear. Na França, a energia nuclear é responsável por 75% da matriz energética. Nos Estados Unidos, esse tipo de energia já é responsável por 20% do abastecimento. Em todo o mundo, a energia nuclear representa, com 217 usinas em atividade, 11% do consumo da energia elétrica.

Para o pesquisador e professor da UFRJ, a segurança sempre estará em primeiro lugar e a produção nuclear ainda não foi superada em qualidade, limpeza e geração. Para o doutor Aquilino, não há risco iminente de uma tragédia no Brasil, mas há muito atraso no desenvolvimento e ampliação do uso desse modelo no país.

Obras de Angra 3 Reprodução/Record News - 01.10.2025

As obras da terceira usina de produção de energia nuclear brasileira estão paradas desde 2015. A conclusão de Angra 3 era esperada para a partir de 2028 e hoje tem aproximadamente 70% das obras concluídas, mas um passivo que chama atenção. Angra 1 e 2 têm trabalhado para pagar os juros do empréstimo tomado para a construção, que hoje é de cerca de R$ 1 bilhão ao ano.

Se há, hoje, uma insegurança dentro do complexo nuclear de Angra, vem do fator orçamentário. A insatisfação de servidores e os problemas para fechar as contas levam a ocorrências, como a desta segunda-feira (10).

Servidores terceirizados contratados para apoio na manutenção da usina, que ocorreu entre janeiro e março, não teriam recebido os pagamentos e fecharam parte da frente da usina, atrapalhando a entrada dos servidores para trabalhar. Um plano de demissão voluntária recente também fez com que o complexo perdesse muitos de seus funcionários com expertise e bons currículos.

Veja a seguir a lista das 10 mudanças técnicas após Fukushima, que também inclui a troca dos selos para estanqueidade de líquido que refrigera o reator:

Entre as principais modificações técnicas nas usinas brasileiras

• Construção de tanque sísmico de água doce e sistema sísmico de suprimento de água de emergência para as usinas;

• Sistemas para extensão da capacidade de B&F (Bleed and feed – Alimentação e drenagem em português);

• Fontes alternativas de água para resfriamento pelo secundário;

• Conexões para os grupos geradores diesel móveis (250 e 625 KVA);

• Instalação de recombinadores auto catalíticos passivos na contenção;

• Sistemas alternativos para resfriamento da PCU (Piscina de Combustível Usado) e reposição de nível;

• Troca dos selos das BRR (Bomba de Refrigeração do Reator) de Angra 1 (estanqueidade em blackout);

• Proteções adicionais contra inundação de prédios em Angra 1;

• Proteções diversas contra tornado;

• Sistema de alívio filtrado do prédio de contenção das usinas

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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