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Copa do Mundo será escudo para Putin diante de crise diplomática

Fato de esporte magnetizar multidões deverá ajudar presidente a evitar boicote e tentar refazer laços após acusações de envenenamento

Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky, do R7

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Rússia expulsou diplomatas meses antes da Copa do Mundo
Rússia expulsou diplomatas meses antes da Copa do Mundo

Uma das obras russas mais críticas, à própria Rússia, é o melhor cartão postal e a melhor propaganda que uma nação pode ter. A obra "Os Irmãos Karamazov" (1879), de Fiódor Dostoiévski, critica a situação econômica do país mas, por outro lado, eleva a um grau altíssimo o potencial humano que se destaca no enredo e, por conseguinte, dá à cultura russa uma dimensão gigantesca que, ao mundo, só resta aplaudir.

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A verdade, portanto, liberta. Mesmo que ela seja, no início, uma má notícia. Passando para os dias atuais, onde a Rússia dos castelos czaristas se mantém, agora mesclada com modernas construções e multidões que se aglomeram pelas ruas das grandes cidades, o presidente Vladimir Putin quer fazer da próxima Copa do Mundo uma espécie de "Os Irmãos Karamazov".

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E justamente neste momento, pouco depois dele ter convidado o mundo a aproveitar a hospitalidade russa e as confortáveis instalações do país, uma crise diplomática, próxima até de uma tensão geopolítica, se instaura entre o governo russo e mais de 20 países.

Por considerarem a Rússia responsável pelo envenenamento do ex-espião russo, Sergei Skripal, internado em estado grave com a filha Yulia, de 33 anos, após ambos serem encontrados inconscientes na cidade de Salisbury, no último dia 4 de março, estes governos expulsaram nos últimos dias uma grande quantidade de diplomatas russos. O governo russo, em atitude recíproca, também expulsou diplomatas destas nações.


Destes 20 e tantos países, nove irão participar do próximo Mundial, três deles representados por seleções que já foram campeãs: Inglaterra, França e Alemanha. O Kremlin acredita que a iniciativa dos países é uma forma de pressionar o governo de Putin antes da Copa do Mundo.

O cenário, em tese, apontaria para uma situação complicada e paradoxal, que poderia até levar a um boicote, como aconteceu com os Estados Unidos na Olimpíada de Moscou, em 1980, e com a União Soviética deixando de ir à Olimpíada de Los Angeles, em 1984. Mas um fracasso do Mundia de 2018 também não seria bom para a imagem das nações.


Interesses distintos têm causado conflitos, desacordos, refregas semelhantes às que culminaram com as duas guerras mundiais. A Segunda Guerra (1939-1945), não se deve esquecer, impediu a realização de duas Copas do Mundo (1942 e 1946).

Neste caso, porém, acima dos conflitos, há uma força que impele os participantes a não desistirem, a não se deixarem levar pelas mesquinharias da política internacional. É a força do futebol, que desta vez, e também por causa dos milhões de dólares envolvidos, será mais forte do que a da guerra.

Esse esporte que magnetiza multidões, tem o poder de, em se tratando de seleções, trazer a esperança nos jogadores. Todos eles, a maioria composta por milionários, anseiam por mostrarem o que seu país tem de melhor. É aquela velha pergunta, neste mundo que anda meio sem sentido: o que você tem de bom para nos mostrar hoje? Longe do racismo, longe da xenofobia, longe do envenenamento.

Algo semelhante ocorreu recentemente, quando os Jogos de Inverno de 2018, em PyeongChang, foram o propulsor da abertura entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte, levando possivelmente até os Estados Unidos ao diálogo com os norte-coreanos.

A Copa do Mundo tem servido mesmo como uma plataforma para Putin. Trata-se do Mundial mais caro da história, com gastos chegando a US$ 13,2 bilhões (R$ 43,7 bilhões). Como em todo este tipo de evento, estádios ainda não estão prontos, o governo processa construtoras e parte da população se queixa do uso político e dos gastos excessivos.

Mas a partir do momento em que as disputas começam, são os jogadores os maiores diplomatas do mundo. E Putin irá utilizar este escudo para evitar um aprofundamento da crise. O país-sede, de certa maneira, perde suas fronteiras e se torna terra de todos. O futebol, no mais alto grau, ganha o caráter de linguagem universal.

Como foi a literatura para a Rússia. Com uma outra configuração, a mensagem cheia de bondade de Aliocha, no último capítulo de "Os Irmãos Karamazov", pode novamente ser entoada. E seria altamente atual, nessa fase de intolerância e de falsas notícias.

Aliocha, que é um dos irmãos Karamazov, fala até para aqueles que se tornarem maus e zombeteiros, mergulhados em suas rotinas mecanizadas. Até eles, no discurso de Aliocha, não se esquecerão da pureza de Iliúcha, o menino morto e enterrado junto com seus sapatinhos remendados, que, naquele momento, uniu todos os meninos do bairro e toda a comunidade em uma comoção repleta de amor e humildade.

Sigmund Freud (1856-1939) dizia que "Os Irmãos Karamazov" é o maior romance de todos os tempos. A Copa do Mundo, por sua vez, é o maior espetáculo da Terra. Ambos trazem, em sua essência, aquela verdade que liberta.

Semelhanças que não servem para esconder mazelas de outros tempos. E nem dos atuais. Mas fortalecem a certeza de que no homem, ainda, prevalece algo de bom, quando instigado. Ok, o mundo passa mesmo por um turbilhão de conflitos. Estou, por isso, sendo otimista e ingênuo para alguns? Pode até ser. Mas somos eu, Dostoiévski e, quem sabe, você.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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