Logo R7.com
RecordPlus
Nosso Mundo - Blogs

O dia em que quase peguei uma carona com o Casagrande

Eram outros tempos, em que os jogadores podiam sair de seus carros como cidadãos comuns, sem a distância e a redoma de hoje

Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky, do R7

  • Google News
Morumbi ficava lotado em dias de grandes jogos
Morumbi ficava lotado em dias de grandes jogos

Ir ao Morumbi nos anos 70 e 80 era uma verdadeira aventura. Inesquecíveis são as cenas das multidões se movimentando pela subida da Giovanni Gronchi, contornando lentamente as curvas, cortando caminho por terrenos baldios e desfrutando a paisagem em que cidade e natureza se mesclavam.

Leia mais: Chácara Klabin tem ruas que parecem conversar com o tempo


Até avistarmos de longe o estádio, imponente, como uma montanha sob o sol. Hoje só um clube lá manda seus jogos. Torcida única. Outros tempos.

Leia mais: Eu e meu cão sozinhos no feriado


Eu ia muito a jogos com meu amigo da classe. Na escola, na maldade presente nesta fase, ele era considerado estranho. Eu ficava no meio do caminho, entre os meninos visto como normais e os tidos como esquisitos.

Mas a estranheza do meu amigo era muito mais por ele não se conformar com a normalidade aparente dos outros meninos, que apenas escondia as estranhezas deles. Era, na verdade, uma vantagem. 


Meu amigo, por exemplo, podia morder a camisa, mas era exímio em Matemática, Geografia e História.

Mesmo parecendo não prestar atenção. Formou-se economista e administrador, nas melhores faculdades.


E era um grande amigo. Por ter aprendido a lidar com as próprias fragilidades, sabia entender a alma humana melhor do que os outros.

Criança, até fez um livro, escrito a caneta e com as folhas grampeadas. Criticava a estrutura hipócrita da sociedade. O nome era "A base é", contando os desafios de um menino diante da realidade. 

Leia também

Naquelas tardes de domingo, nunca nos perdíamos. Enquanto o normal era os filhos irem só com seus pais aos jogos, algumas vezes íamos de ônibus, descendo lá em cima da avenida.

Não que nossos pais não se preocupassem, apenas confiavam na nossa capacidade de discernir qual o caminho correto. O mundo não era tão enclausurado como hoje. Outros tempos.

Na saída de um dos jogos, nos deparamos, na frente do portão do estádio, com o Casagrande ao lado de seu Monza, conversando com um grupo. Estava de jeans, chinelo e uma pochete. Cabelão ainda molhado do banho.

Não havia seguranças. Os jogadores podiam sair de seus carros como cidadãos comuns, sem a distância e a redoma de hoje. Outros tempos.

Estávamos a pé. Cheguei para o Casa e, na boa, lhe pedi uma carona. Para mim e para o meu amigo. De pronto ele topou. Mas só se fosse o caminho dele. Ok.

Estávamos entrando no carro, quando um famoso torcedor do São Paulo, Hélio Silva, se aproximou da porta e perguntou para o Casa se ele podia dar carona para dois conhecidos.

Resultado, saímos do carro e novamente ficamos a pé.

O estádio já estava vazio, assim como as ruas ao redor. Somente o som do vento nas árvores, levando alguns plásticos para os matagais dos terrenos.

Nas mansões, as luzes acesas anunciavam a noite, enquanto cães latiam por trás dos portões, ainda sem câmeras de segurança.

O contorno do estádio lembrava um imenso navio à noite, perdido no mar. Fomos andando no silêncio até lá em cima, chegando às grades do Palácio dos Bandeirantes e seu gramado oblíquo.

Já estávamos planejando voltar tudo a pé, até o Itaim, atravessando a ponte sobre o rio Pinheiros. O ônibus demoraria pelo menos uma hora.

Sentamos na mureta ao lado da grade, sem que nenhum segurança nos observasse.

Lá dentro, o governador Franco Montoro deveria estar já repousando ou se preparando para assistir aos programas dominicais da TV, que eram três ou quatro, no máximo.

Desanimados, íamos dar o primeiro passo quando, do nada, um táxi branco parou na curva, bem à nossa frente, e se prontificou a nos levar. Prometemos pagar na chegada. Outros tempos.

Hoje, atribuo toda essa sorte ao meu amigo. Aliás, não foi bem sorte. Ele era mesmo um gênio. Era tão diferente que foi o primeiro a descobrir o Uber. Por telepatia.

Morumbi ganha telões de alta definição para a Copa América 2019

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.