A logística e as histórias de quem leva a vacinação para as regiões mais remotas do Brasil
R7 Planalto traz detalhes sobre a Operação Gota, estratégia que leva imunização para povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Viagens de barco, longas caminhadas e diversos dias nas aldeias. Essa é a realidade dos profissionais de saúde que garantem a vacinação nas regiões mais remotas do país. No ano passado, segundo o Ministério da Saúde, 14 mil pessoas em 236 comunidades e aldeias foram atendidas pela Operação Gota, ação da pasta responsável pela força-tarefa que age em prol da imunização.
Ao todo, 29.220 doses foram aplicadas em nove missões, com um total de R$ 15 milhões investidos. Graças a dedicação desses profissionais, os Dseis (Distritos Sanitários Indígenas) hoje contam com 90% de cobertura em diversas vacinas estratégicas.
Quem faz parte dessas ações é Thayla Galvão, 35 anos, ponto focal de imunização do Dsei Alto Rio Solimões. Na região, vivem povos principalmente das etnias Ticuna, Kocama, Kaixana, Kambeba, Kanamari, Witoto e Maku-Yuhup.

Thayla é de Tabatinga, município amazonense situado na fronteira entre Peru e Colômbia. “O acesso até o município de Tabatinga pode ser feito por via fluvial ou aérea. Ficamos a cerca de dois dias de viagem de Manaus, se a pessoa vier de barco”, explica.

O Dsei Alto Rio Solimões atende os municípios de Tabatinga, Benjamin Constant, São Paulo de Olivença, Amaturá, Santo Antônio do Içá e Tonantins, além de Vila Bittencourt, região que pertence a Japurá, mas pela logística o acesso é mais fácil para a equipe de Tabatinga.
“A sede do distrito fica em Tabatinga, a parte de gestão, mas temos polos bases e UBSis [Unidades Básicas de Saúde Indígena] em diversos outros pontos”, explica.
Para chegar a cada um dos polos bases distribuídos pelo Dsei, os profissionais enfrentam realidades diversas. Alguns, estão há poucos minutos de barco, outros podem levar até nove horas de condução ou exigir caminhadas pelo território em épocas de seca.
Quando conversou com o R7 Planalto, Thayla estava no Polo Base de São Sebastião, região a nove horas de viagem de onde reside. “Saindo bem cedo, umas cinco ou seis horas da manhã, a gente chega no fim da tarde”, conta.

A estadia da equipe é pensada de acordo com o objetivo. “Se for campanha de vacinação, a equipe fica de três a quatro dias. Outras vezes, é necessário ficar até 20 dias. A escala geralmente é 20 dias em área, e 15 dias de arejamento”, detalha.
Thayla conta que eles planejam a estratégia de imunização de acordo com os dados do ano anterior. “A gente costuma colocar na Operação os polos bases que não conseguiram alcançar a meta no ano que passou, intensificando as ações nessas áreas que não atingiram a meta”, informa.

Ano passado, ela acompanhou a equipe no Polo Base de São Sebastião, onde passou sete dias em área para adentrar três aldeias atendidas pela UBSI São Pedro. “Nessa região não tem energia elétrica 24h. Na UBSI São Pedro eles ligam o motor de energia umas seis horas da noite e fica ligado até 21h. Durante o dia não temos acesso a energia”, pontua.
Por isso, as equipes se preparam com caixas térmicas e gelo para armazenar e monitorar a temperatura das doses dos imunizantes. As mudanças climáticas, no entanto, afetam diretamente o acesso do grupo às regiões mais remotas.
“Na cheia a gente consegue ter acesso a todas as aldeias, mas na época da seca, na aldeia de Torre de Missão, por exemplo, temos que andar mais de duas horas para ter acesso a calha do igarapé que dá acesso a aldeia, carregando material, caixas de vacinação, medicamentos, insumos e alimentos”.
Thayla confessa: “é um trabalho bem desafiador, mas gratificante. Principalmente, porque sabemos que estamos levando saúde. O que nos motiva é saber que estamos levando prevenção, fazendo a promoção do cuidado, prevenindo que as pessoas fiquem doentes. A imunização é o principal meio para evitar que a pessoa tenha a forma grave de diversas doenças”.
No entanto, ela ressalta que não basta chegar nas aldeias, é preciso realizar o trabalho de conscientização das comunidades.
“Nosso objetivo é sempre trabalhar com a educação em saúde. Todas as equipes estão preparadas e realizam diariamente esse cuidado. Se eu for fazer uma visita, por exemplo, a gente prepara a população, explica o porquê de se vacinar, orienta e fala da importância da vacina. Hoje temos muita ajuda das escolas e também dos Condisis (Conselhos Distritais de Saúde Indígena) para fazer essa sensibilização”
Mais de 36 horas de deslocamento

A enfermeira e coordenadora regional de Imunização da Secretaria de Saúde do Pará, Francine Marques, também relatou ao R7 Planalto os desafios enfrentados no município de Chaves, que abrange uma área de aproximadamente 12 mil km², em uma região litorânea, conectada ao Oceano Atlântico, que sofre influência da pororoca — encontro violento entre águas fluviais e as correntes oceânicas durante a maré alta —, o que torna a navegação entre as comunidades um desafio e, às vezes, impossível para embarcações de pequeno porte.
“70% da população do município encontra-se espalhada pelas comunidades rurais e somente 10% na sede. Essa condição geográfica torna o município relativamente isolado, o que representa um desafio para o fornecimento de serviços públicos, como saúde, educação e logística de abastecimento. E quando pensamos em ação de vacinação o principal desafio é o acondicionamento e armazenamento deste material termolábel para que chegue até o braço de cada pessoa em condições imunogênicas adequadas, já que a maioria das comunidades não têm energia elétrica 24hs”, explica.

“Os desafios para realizar a missão começam muito antes da chegada das equipes ao município, começamos a pensar a próxima missão ao finalizarmos a missão em execução, visando corrigir as falhas e melhorar o desempenho das equipes. Estado e município trabalham juntos na organização dos recursos humanos e materiais pelo menos cinco meses antes da data, com reuniões de planejamento e provisão de imunobiológicos baseados nas populações das comunidades a serem atendidas”, acrescenta.

Para chegar a Chaves, as equipes enfrentam cerca de “28 horas de barco de Belém até a cidade de Santana (Amapá)”. Dali, eles pegam “um táxi por mais ou menos 30 minutos até Macapá” e depois pegam “mais nove horas de barco até o município”.
“Em virtude disso, os imunobiológicos são transportados de avião até Macapá (AP) e de lá seguem de via fluvial até o município. São pelo menos 19 dias de missão, levando em conta o deslocamento e os 15 dias de missão propriamente dita”, pontua.

Durante a missão há a equipe de terra responsável pela separação, acondicionamento e organização dos imunobiológicos/insumos e as equipes de campo/execução, que seguem no helicóptero até as comunidades.
Francine detalha que durante a primeira metade da missão, eles atendem duas comunidades por dia, e as equipes do estado e município se dividem com coordenadores, vacinadores e registradores.
“Depois nas comunidades maiores seguimos todos juntos. Acordamos cedo, às 5h da manhã, para que tudo esteja devidamente arrumado e todos prontos para embarque às 7:30. O retorno ao município acontece até as 17hs devido à autonomia de voo da aeronave”, informa.
Ela confessa, ainda, que a viagem no helicóptero, “diferente do que a maioria pensa, não é nada confortável”. “Somos uma equipe de 20 pessoas e vamos sentados uns por cima dos outros, juntamente com as caixas térmicas, insumos e alimentação para o dia de trabalho, algumas viagens chegam a durar de 30 a 40 minutos até as comunidades”, afirma.
A paixão pela saúde

Francine informa que o trabalho tem que ser executado com rapidez. “Quando chegamos a população já está à nossa espera e depende de maré para retornar às suas residências. Algumas vezes pousamos e ainda precisamos de barco ou rabeta, outras enfrentamos lama e locais alagados para chegar até o ponto de vacinação, as condições de pouso e embarque não são fáceis”, conta.
Ela afirma, contudo, que a missão é muito mais do que aplicar vacinas.
“É olhar com carinho essa população, de proporcionar dignidade, de garantir o direito básico dessas pessoas. É um privilégio participar, e ninguém entende a dimensão de tudo isso até estar lá, no dia a dia vendo a realidade dessa população ribeirinha, que nos recebe com carinho, cuidado e gratidão e no fim de tudo, quando você escuta uma criança te agradecer por ter levado essa vacina, esse cuidado faz com que o cansaço, a sede, o calor, o aperto no helicóptero, a saudade de casa tenha valido a pena
Logística complexa

Em nota, o Ministério da Saúde reforçou que as Operações Gota demandam uma operação logística complexa, “articulada entre o governo federal, estados, municípios e o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena”.
“A principal estratégia para alcançar populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas, rurais e comunidades isoladas é a Operação Gota, integrada ao PNI [Programa Nacional de Imunizações] desde 1996. A iniciativa assegura que o direito à imunização chegue aos territórios por meio de transporte aéreo e fluvial, com manutenção rigorosa da cadeia de frio e atuação de equipes multiprofissionais em campo”, afirma.

Carlos Augusto Fernandes Bêta, coordenador municipal de Imunização de Oriximiná (PA), detalha que para este ano já há programada mais uma ação da Operação Gota na região. “Essas ações são importantes para o municípios porque complementam as ações já desenvolvidas de imunização em áreas rurais, indígenas, quilombolas, e área de planalto”, pondera.
Para isso, há parceria do Ministério da Saúde com a FAB (Força Aérea Brasileira), que garante a logística de deslocamento das equipes, além do apoio técnico e operacional das secretárias de saúde dos estados, do Ministério da Saúde e da Defesa.

“Ele tem limites com os municípios do próprio estado e ao norte com a Guiana e o Suriname, além de fazer também divisa com os municípios do Amazonas, caracterizado por um grande mosaico de áreas e territórios protegidos. São três territórios indígenas que ocupam mais de 32 mil quilômetros, 3,100 indivíduos, e também territórios quilombolas, com cinco unidades de conservação de proteção integral e sustentável”, explica.
Ao todo, são cerca de 72 mil habitantes dispersos em todo o território, que conta com 140 comunidades ribeirinhas e quilombolas, e 45 comunidades indígenas dispersas em três rios da região. “Há grande dificuldade de deslocamento, principalmente nos períodos sazonais de chuva e seca. Por isso, a missão Gota é o que garante a recuperação da cobertura vacinal, de uma forma complementar”, finaliza.
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