Após 32 casos de bala perdida, polícia do RJ precisa atirar menos e planejar mais as operações
Para especialistas, bala perdida é um efeito colateral de conflitos armados
Rio de Janeiro|Bruna Oliveira, do R7

O aumento de casos de balas perdidas que tomou conta do Rio de Janeiro no primeiro mês do ano desafia a segurança pública. Em janeiro, foram ao menos 32 casos noticiados. Uma média de uma pessoa baleada por dia. Desse total, quatro vítimas morreram, sendo duas delas crianças. Os casos ocorreram perto de áreas de UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), de territórios disputados por facções rivais e também longe de locais de confronto.
Segundo especialistas consultados pelo R7, os episódios apresentam características muito diferentes e a falta de registros oficiais dificulta a análise. Entretanto, alguns índices de violência urbana revelam um aumento no número de conflitos com uso de arma de fogo.
De acordo com o professor Ignácio Cano, coordenador do Laboratório de Análise de Violência da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), nos últimos dois anos, houve um crescimento da taxa de homicídios dolosos [com intenção] e, além disso, também aumentaram as mortes em decorrência de intervenção policial. O professor afirma que esses dois índices costumam gerar como consequência balas perdidas.
— Isso é sinal de que tem mais gente atirando e se matando. Isso significa uma maior probabilidade de quem participa ou não do confronto de ser atingido.
Dados divulgados pelo ISP (Instituto de Segurança Pública) mostram que o total de homicídios dolosos cresceu 4% e de mortes em decorrência de intervenção policial aumentou 39% em 2014 ante o ano anterior.
Segundo Silvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, a bala perdida é considerada um dos efeitos colaterais dos conflitos armados.
— Me parece que atingimos um nível muito alto, um ponto limite dos tiroteios que acontecem de maneiras absolutamente inaceitáveis. Além de matarem e ferirem policiais e criminosos, os tiroteios provocam esses efeitos colaterais.
Foco em inteligência
Para conter casos em série de balas perdidas, os especialistas defendem uma revisão nas operações policiais. Cano sugere foco maior da Secretaria de Segurança Pública em intervenção e contenção da violência armada. Segundo ele, o ideal é investigar e planejar ações com o objetivo de evitar os conflitos armados.
— Existe uma tradição de fazer operação policial que gera confronto. Na verdade, o que precisa é de uma ação planejada para prender as pessoas e evitar que possam reagir. A operação policial tem que se desenhar para evitar o confronto.
Silvia Ramos concorda e lembra que a segurança pública deve adotar ações que deram certo no início das instalações das UPPs, em 2009.
— O caminho é investir em operações de inteligência, articuladas entre as polícias Civil e Federal, com escutas telefônicas. Os grupos armados são desorganizados e não têm nada de inteligentes. Ações planejadas desarticulam essas quadrilhas em pouco tempo.
Anos 90 e cortes em segurança
As balas perdidas assustaram o Rio de Janeiro nos de 1990. Silvia Ramos evita comparações com os casos ocorridos há 20 anos, quando a taxa de criminalidade era muito maior e havia uma política de confronto apoiada pela população.
— Naquela época, a taxa de homicídios era de 62 por 100 mil habitantes; hoje, são 28 por 100 mil habitantes. Nos anos de 1990, o policial era premiado por matar bandidos. Hoje, sinto que há um freio e uma indignação maior da sociedade a esse tipo de prática.
Além dos desafios no plano de ações, a Secretaria de Segurança Pública vai precisar superar redução de investimentos. O governo do Rio de Janeiro anunciou o "congelamento" de parte do orçamento para 2015. A redução é de R$ 8,3 bilhões e afeta todas as secretarias.
De acordo com a Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão, os recursos temporariamente retidos da Polícia Militar são de R$ 1,1 bilhão, na Polícia Civil, de R$ 169,8 milhões e, na Secretaria de Segurança, de R$ 20,8 milhões. O total corresponde a investimento de R$ 1,3 bilhão que será retido, mas pode ser liberado de acordo com a necessidade de cada órgão.
João Trajano Semto-Sé, pesquisador do laboratório da análise da violência da Uerj, diz acreditar que a crise pode se agravar diante do novo cenário financeiro.
— É muito preocupante como será o ano de 2015. Ainda mais com uma redução enorme de investimentos.
O motivo do ajuste foi a nova estimativa da receita para este ano feita pela Secretaria de Estado de Fazenda em razão da queda da arrecadação do principal tributo estadual, o ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços), e da redução do preço internacional do barril de petróleo, que repercute sobre a arrecadação de royalties e participação especial sobre a produção de petróleo no Estado.
Apesar do corte no orçamento, o governador Luiz Fernando Pezão reafirmou que as áreas de saúde, educação e segurança são prioridades da sua gestão e reiterou que os investimentos para as três estão garantidos.
— Vamos avançar nas UPPs: as novas bases começarão a ser construídas em breve. Assim como os batalhões de Nova Iguaçu, Itaguaí e Araruama. O policiamento de proximidade está mantido e os 6.000 policiais militares concursados serão efetivados. Vamos trabalhar para que a Secretaria de Segurança Pública e as polícias Civil e Militar possam executar todo o seu orçamento de 2015.
Procurada pelo R7, a Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro não respondeu a questões sobre os casos de balas perdidas e congelamento do orçamento da pasta.















