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Bem-vindo à Vila Autódromo, símbolo da resistência das desapropriações olímpicas

Novas habitações marcam uma luta de quase três anos de dezenas de famílias

Rio de Janeiro|André Avelar e Dado Abreu, do R7, no Rio

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A pacata Vila Autódromo e, ao fundo, o centro internacional de imprensa dos Jogos Olímpicos
A pacata Vila Autódromo e, ao fundo, o centro internacional de imprensa dos Jogos Olímpicos

O segurança José Ronilson da Silva já sabe onde vai ficar a churrasqueira na casa 14 da Vila Autódromo. Ele ainda não comprou o “item obrigatório”, mas já reservou o lugar para receber os amigos. No quintal da frente, com vista para a rua recém asfaltada na qual crianças jogam bola como se estivessem no interior do Rio de Janeiro. Estamos em Jacarepaguá, zona oeste da cidade. 

O churrasco é só pretexto para muito o que José tem a comemorar. O ambiente pacato e acolhedor dos dias atuais em nada lembra os anos de terror que ele e sua família viveram para poder permanecer em sua terra, há poucos metros do Parque Olímpico da Barra da Tijuca.


Os Silva e outras dezenove famílias são os únicos remanescentes da antiga comunidade de quase 3 mil pessoas que resistiram à remoção do local para dar lugar às instalações olímpicas. Os resistentes escolheram ficar e receberam casas novas em troca de seus terrenos, como parte de acordo extrajudicial firmado por intermédio da Defensoria Pública do Estado. As antigas unidades, algumas com mais de 40 anos, foram quase todas demolidas.

“O processo foi muito desgastante. Depois que as primeiras famílias aceitaram o acordo, as que ficaram começaram a sofrer na base do ‘ou vai pela alegria, ou pela dor’. Fomos sendo pressionados de todas as formas possíveis, até chegar as vias de fato, para aceitar na marra os termos da Prefeitura”, conta José Ronilson.“Os valores oferecidos variavam. Quem tinha advogado recebia até o triplo de quem não tinha. Eu mesmo tentei negociar três vezes e o que me ofereceram não era suficiente para comprar outro imóvel na região”.


José conta que as represálias aconteceram diariamente durante meses. “Isso aqui virou um cenário de guerra, cheio de entulhos. Eles iam derrubando as casas, com intimações judiciais, e faziam questão de não jogar água no chão para que a poeira entrasse na casa do vizinho. Virou um caos. Arrancavam os fios de luz, de telefone, quebravam os canos de água”.

Penha, na sede do Museu da Remoção
Penha, na sede do Museu da Remoção

O pior aconteceu no dia 8 de março de 2016. Além de comemorar o Dia Internacional da Mulher, Maria da Penha Macena, de 50 anos, seria homenageada pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) como símbolo feminino da comunidade. No entanto, Dona Penha, como é conhecida, teve sua casa demolida pela Prefeitura do Rio e o nariz quebrado por oficiais da guarda municipal.


“Poderíamos ter ficado sem ter passado por tanta violência. É um direito nosso. É igual ao índio. O homem branco chegou, expulsou, e até hoje o índio não tem terra”, lembra Dona Penha, que diz não ter nada contra a realização dos Jogos. “Eu não tenho raiva das Olimpíadas, mas não estou curtindo porque eu não vou ser hipócrita. Não fui convidada para essa festa e nem fui consultada se eu queria que ela acontecesse”.

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A Prefeitura do Rio reconhece a remoção da Vila Autódromo como a única diretamente ligada aos Jogos Olímpicos. O Comitê Organizador, no entanto, afirma que tudo aconteceu dentro da lei.

“O caso da Vila Autódromo tornou-se o mais emblemático porque está muito perto do Parque Olímpico. Mas, todos que quiseram permanecer ali receberam novas casas”, ressaltou Mario Andrada, diretor de comunicação da Rio 2016. “Entendemos que é muito traumatizante para as famílias deixarem suas casas, os lugares onde vivem e, em alguns casos, nasceram. Mas, nós fizemos, e ainda estamos fazendo, o máximo possível para minimizar o impacto na vida dessas pessoas”, completou.

Andrada se refere à continuidade das obras no local, que ainda ganhará praça, escola, área de lazer para crianças e uma base para a associação dos moradores.

Para a Defensoria Pública, a permanência das 20 famílias é uma “vitória da resistência”. Em geral, os moradores alegam que as negociações foram injustas, que sofreram pressão psicológica e intimidação de agentes da própria prefeitura. Construída em três meses, a nova vila inclui habitações de até dois quartos, que podem ser expandidas em terrenos de até 180 metros, erguidos ao longo de uma via única.

“É uma luta árdua, difícil, mas não impossível. Eu sou feliz aqui. E se eu sou feliz e tenho o direito de permanecer, por que então eu tenho que sair?”, finaliza Dona Penha, que interrompe delicadamente a reportagem para seguir com os compromissos de líder comunitária. Enquanto isso, na casa 14, José Ronilson da Silva se arruma para ir trabalhar. Por ironia do destino, durante as Olimpíadas ele atua na equipe de segurança de um dos centros de imprensa dos Jogos.

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Vista aérea da Vila Autódromo (esq.). Nome faz referência ao antigo circuito de Jacarepaguá, que ficava no local
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Mensagem para os estrangeiros no fundo da Vila: "Chega de remoção étnica e Jogos de limpeza social"
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