Com "consultório" sob viaduto, morador de rua do Rio se diz "terapeuta de casal em crise"
Nas ruas há 20 anos, Romário de Souza sonha em voltar a tocar na bateria do Salgueiro
Rio de Janeiro|Rodrigo Teixeira, do R7

O Romário de Souza Faria, o Baixinho, craque do futebol e atual senador pelo Rio de Janeiro todo mundo conhece. Mas hoje vamos falar de outro Romário, um que é só de Souza, tem 57 anos e há 20 faz das ruas do Rio o seu lar. A casa do nosso Romário, que é salgueirense de coração, se localiza embaixo do viaduto São Sebastião, praticamente ao lado do final da passarela do samba carioca, a praça da Apoteose.
— Esse é o meu lugar. Por aqui todo mundo me conhece. É o meu mundo, onde eu busco a minha paz. Amo tanto o meu Salgueiro que acabou que hoje moro praticamente ao lado da passarela do samba.
Romário brinca que, como todo brasileiro, “não desiste nunca” e, em meio a lágrimas, vestindo a camisa do samba enredo de 2015, defende sua escola do coração, o Acadêmicos do Salgueiro. Ele diz que um de seus sonhos é voltar a tocar surdo na bateria da agremiação.
— Sempre morei na Baixada Fluminense antes de vir para a rua, mas estava sempre no Salgueiro. A última vez que eu toquei e desfilei pelo Salgueiro foi em 1995, mas, quando você ama o samba, nunca esquece o batuque. O coração bate junto e a escola te leva. Deus vai permitir que um dia eu volte a defender a minha vermelho e branco da Tijuca.
Ao chegarmos para falar com Romário, o sol esquentava o Rio numa bela manhã de outono. Ele tirava um cochilo no seu colchão de casal que ganhou de um amigo e disse que confundiu nossa equipe com técnicos da prefeitura que fazem o recolhimento de pessoas em situação de rua pela capital fluminense.
— Fiquei muito feliz em saber que você é um jornalista, pensei que fosse do Choque de Ordem. Eles são o nosso pesadelo às vezes [risos]. Pera aí que eu vou até levantar para falar. Na maioria das vezes, eu é que escuto, sabia que eu sou uma espécie de terapeuta por aqui?
Sim, Romário se autointitula “terapeuta de casal em crise” e apontou para o dizer que ele mesmo escreveu na coluna do viaduto onde mora: "Dr. Romário - Psicólogo e terapeuta de casal em crise - Consulta R$ 50".
— Já vi de tudo aqui na rua. Uma vez um cara queria se suicidar por causa de mulher e eu tirei isso da cabeça dele. O problema de muitos relacionamentos tem a ver com sexo ou a falta dele, outros a falta de conversa. As pessoas complicam demais coisas simples. Nunca ganhei dinheiro com meus conselhos, mas quem sabe um dia, né?
Romário desconversa ao ser perguntado o motivo real que o levou a sair de casa e parar na rua. Ele para, pensa um pouco, olha para o horizonte e lágrimas vêm aos seus olhos ao relembrar da família.
— Conversar e falar de um problema dos outros é uma coisa, mas o da gente... Não tenho vício, só a bebida. Te digo uma coisa, cara, meu coração é bom, mas magoei quem mais me amava. Não aconselho a ninguém vir pra rua, às vezes, um vazio toma conta da gente e não se tem para onde fugir.

Pai de 11 filhos
Romário é pai de 11 filhos, que faz questão de frisar que são de “uma mulher só”.
— Fui pai pela primeira vez aos 14 anos. O meu filho mais velho tem 43 anos. Tenho oito filhas mulheres e três homens. Eles me visitam aqui e estou sempre em contato. Tenho seis netos e três bisnetos também.
Na rua, Romário disse que já viu “de tudo um pouco”. Mas uma coisa que o orgulha é poder ajudar. Contou que, em muitos acidentes de trânsito, os primeiros a socorrerem as vítimas e a pegar no pesado são eles.
— Já ajudei a resgatar uma família que capotou o carro aqui em frente. Há praticamente um ano e meio foi um ônibus que se acidentou e teve muita gente ferida. As janelas não se abriram e tiramos todos pela janela de trás. Um bebê eu resgatei e foi do meu colo para a ambulância. Depois os pais depois vieram aqui falar comigo. Prefiro ser conhecido pelas coisas boas que eu faço.
Uma coisa que deixa Romário chateado é taxar qualquer morador de rua como bandido. Ou dizer que essa onda de crime com faca é coisa de morador de rua.
— Tem gente do mal na rua? Tem! Mas a maioria é gente do bem que não quer incomodar nem ser incomodado. Vou te dizer uma coisa sobre essa onda de crime com faca: querem colocar tudo na conta do morador de rua, mas não é bem assim porque tem muita gente que rouba para ostentar o que não é. Não tenho casa, mas aqui é o meu lar eu estou aqui sobrevivendo sem pegar o que não é meu, questão de princípio, né?
Romário disse que já trabalhou de carteira assinada, mas que, atualmente, “a coisa tá braba”. O que ele quer é uma oportunidade.
— Eu tenho todos os meus documentos, carteira de trabalho e tudo. O que falta é emprego. Vira e mexe aparece um bico para eu fazer, mas tem lugar que nem te chama mais quando você não tem um comprovante de residência. E eu estou aí, mais um pintor de parede, ladrilheiro e marceneiro parado. Quem sabe isso não muda, né?















