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Com RJ em crise, Uerj sofre com cortes e precarização

Governo do Estado afirma não ser culpado pela crise da universidade

Rio de Janeiro|Do R7*

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Uerj sofre com falta de repasses do RJ
Uerj sofre com falta de repasses do RJ

“A UERJ precisa resistir, para manter vivo o sonho de uma universidade popular. Ela foi a primeira a abrir as portas para o estudante trabalhador”, quem diz isso é João Edilson dos Santos, estudante de Letras, que destaca o pioneirismo da instituição ao adotar medidas afirmativas como a criação do turno da noite e a implementação das cotas sociais. Criada em 1950, hoje ela é considerada a 11ª melhor universidade do Brasil e figura entre as 20 melhores da América Latina. Apesar desses quadros positivos, ela vive, desde 2015, a mais grave crise de sua história. Com salários atrasados e dívidas com empresas de serviços terceirizados, a reitoria anunciou na última terça-feira (07) o quarto adiamento do início das aulas, que dessa vez não tem previsão de data para o retorno das atividades.

De acordo com a carta publicada pela reitoria nesta semana, a universidade enfrentaria dificuldades para garantir o seu funcionamento regular. A limpeza, coleta de lixo e manutenção estariam comprometidos por atraso ou não pagamento das prestadoras dos serviços. A reitoria destaca também que a empresa que administrava o “bandejão” teria fechado as portas do restaurante, o que causaria transtornos para os jovens que desempenham atividades de ensino, pesquisa, extensão e estágios. O governo do Estado declarou que havia repassado cerca de R$180 milhões para o pagamento desses serviços. No entanto, a reitoria afirma que apenas R$15,5 milhões teriam sido direcionados para essas contas.


Os departamentos técnico-administrativos também estão comprometidos, devido à greve dos servidores, que estão com seus vencimentos atrasados. O corpo docente, além de não saber quando os salários serão depositados, também convive com o corte de verbas de incentivo à pesquisa e com a falta de manutenção de seus laboratórios e gabinetes. Os universitários cotistas alegam, por sua vez, que não teriam condições de ir à faculdade caso ela estivesse com as portas abertas, pois falta dinheiro para pagar as passagens. Segundo David Gomes, estudante de História, o último depósito que tiveram foi em novembro.

— A gente nem se lembra de quando foi a última vez que recebemos a bolsa na data correta — afirmou João, que disse que já vem convivendo com a incerteza do pagamento desde 2015.


Por meio de nota, a assessoria do gabinete do governador Luiz Fernando Pezão declarou que enviou R$578,2 milhões para pagamento de pessoal. O governador disse ainda, durante uma entrevista para a radio CBN, que a administração do Estado não seria culpada pela crise da Uerj. Segundo ele, a universidade não teria realizado os cortes de despesas necessários, assim como, teria aumentado o seu corpo de funcionários. Já a reitoria, informou que durante o ano de 2016 todos os contratos de fornecedores e prestadores de serviço foram revistos, resultando em uma economia de 30% das despesas. Sobre o aumento da folha salarial, ela lembra que houve uma determinação do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, que exigia a realização de concursos públicos para a ocupação de cargos que estavam sob regimes de contratos temporários.

A presidente da Asduerj (Associação dos Docentes da Uerj), Lia Rocha, disse ao R7 que a universidade apresentava um déficit estrutural no quadro de docentes. Ela revelou que havia mais professores substitutos do que o permitido por lei e que eles exerciam atividades não previstas em seus contratos. Segundo Lia, eles deveriam assumir as aulas apenas em ocasiões excepcionais, como falecimento ou aposentadoria de titulares.


— Eles cumpriam a mesma carga horária que a gente [concursados] e não recebiam por atividades como correção de provas e planejamento de aulas. Era uma situação ilegal.

Lia também destaca que ainda há setores que necessitam de aumentar o seu efetivo e que tem encontrado dificuldade de abrir concurso devido à falta de candidatos. Ela também lembra que após a empresa terceirizada responsável pela limpeza rescindir o contrato com a universidade, cerca de metade dos trabalhadores foram demitidos. Para ela, o governo não pode culpar a universidade pela sua crise. O estudante de Letras, João Edilson, concorda com a professora e diz que o governo não pode acusar a Uerj de estar inchada.


— O estado precisa rever suas prioridades. Hoje, diz que não tem dinheiro para a universidade, mas ela nunca foi prioridade do governo.

Uerj mobilizada

Na última tarde de quinta-feira (09), professores e estudantes da Uerj fizeram manifestação em frente à Alerj, juntamente com servidores da Cedae. Segundo uma publicação feita em uma rede social pela Asduerj, a polícia teria reagido à manifestação de forma violenta, atirando com balas de borracha e soltando bombas de gás lacrimogêneo. Um jovem foi ferido e levado para o hospital Souza Aguiar, onde segue internado. Já a PM informou, no Twitter, que pessoas mascaradas teriam iniciado investidas violentas por volta das 15h40 e que cinco policiais teriam ficado feridos.

Durante este final de semana o movimento Uerj na luta irá realizar uma série de eventos em favor da recuperação da universidade. A programação contará com rodas de debate e shows com apresentação de artistas variados. Na ESDI (Escola de Desenho Industrial) acontecerá a reabertura da unidade, que fica na rua do Passeio, na Lapa, neste domingo (10). Além de atividades lúdicas como oficina e o mutirão para a pintura de um muro localizado na rua Evaristo da Veiga, 14 músicos irão se apresentar ao final das atividades, entre eles Jards Macalé, BNegão, Frejat, Kassin e Domenico. Na próxima terça (14), a Concha Acústica do campus do Maracanã será palco para artistas como Leoni, Jesuton e Isabela Taviani.

*Colaborou Samuel Costa, do R7 Rio

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