Logo R7.com
RecordPlus
‌

Comissão da Verdade suspeita que ditadura planejava morte de Glauber Rocha; dossiê do SNI é entregue à família no Rio

Documentos encontrados no Arquivo Público do Rio expressam intenção de militares

Rio de Janeiro|Da Agência Brasil

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
Durante apresentação do dossiê no Rio, documento sobre Glauber Rocha com a palavra "morto" foi exibido pela Comissão da Verdade
Durante apresentação do dossiê no Rio, documento sobre Glauber Rocha com a palavra "morto" foi exibido pela Comissão da Verdade

Acusado de difundir calúnias contra o regime militar no Brasil e classificado como "um dos líderes da esquerda no cinema", sendo o que "mais atuava na campanha contra o País, na Europa", o cineasta Glauber Rocha foi vítima de espionagem e perseguição pela ditadura. No sábado (16), a Comissão Estadual da Verdade revelou documentos produzidos pelas Forças Armadas contra o diretor.

A entrega do dossiê militar à família foi feita no parque Lage, na zona sul do Rio de Janeiro, com uma série de atividades que marcaram os 50 anos do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, completados no último dia 10. Glauber morreu de septicemia, uma infecção generalizada, na década de 1980.

‌

Produzidos pelo SNI (Serviço Nacional de Informações), os documentos compilam atividades do cineasta, declarações dadas aos jornais de fora do País e lista artistas ligados a Glauber e que criticavam o regime militar, como, também o cineasta Luiz Carlos Barreto, apontado como "porta-voz da esquerda cinematográfica nacional".

Um dos documentos lembra que Glauber foi preso por ter vaiado o presidente Castello Branco, em 1965, e acusa o diretor de ter "difundido calúnias" ao denunciar a jornais ingleses torturas e perseguições no Brasil pela ditadura.

‌

O ator Othon Bastos, um dos personagens principais do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol é mencionado no dossiê do SNI como o favorito de Glauber e citado por "conhecido envolvimento político e ideológico". Presente ao evento na Comissão da Verdade, Bastos disse que ficou surpreso com a revelação.

— São tantas pessoas famosas aqui e estou entre um deles, eu não sabia de nada.

‌

A presidente da Comissão Estadual da Verdade, Nadine Borges, destacou que os documentos encontrados no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro contêm marcas que expressam a intenção dos militares de eliminar Glauber. Ela se referia à palavra "morto", em lápis, no alto do dossiê, na primeira página.

— Recebemos a informação de um agente da repressão que atuou na época, que, em geral, era hábito escrever à mão um indicativo de ordem. Então, isso nos faz pensar que ele estava marcado para morrer. Por sorte, ele se exilou antes.

‌

A presidente cobra que o general José Antonio Nogueira Belham, que assina um dos documentos, preste depoimento para esclarecer esse e outros casos.

Durante a revelação dos documentos, o cineasta Zelito Viana, parceiro de Glauber no filme O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, prêmio de melhor diretor no Festival de Cinema de Cannes de 1969, e em Terra em Transe, que concorreu no mesmo festival poucos anos antes, lembra os tempos difíceis da ditadura.

— Viver era arriscado no Brasil.

Ele levou Terra em Transe clandestinamente para participar do festival na França. Amigo de Glauber, Silvio Tendler destacou a perseguição a Glauber, que se exilou em 1971, e às pessoas que contestavam o regime prejudicou o Brasil.

— Aliás, prejudicou os artistas, os estudantes, os sindicalistas. A ditadura foi um preço muito alto para a nação. Sou de uma geração que desaprendeu a falar e estamos aprendendo a falar depois de velho. Antes, era tudo proibido.

Tendler lembrou também que Glauber foi um artista brilhante, mas não o único alvo da ditadura.

— Eu e muito outros fomos perseguidos, como Joaquim Pedro de Andrade, que foi preso, e Olney São Paulo, barbaramente torturado.

No dossiê, estão transcritos ainda trechos de artigos de Glauber. Entre eles, uma justificativa para sua atuação, contra o regime. "O cinema não será para nós uma máscara, porque, o cinema não faz revolução — o cinema é um dos instrumentos revolucionários e para isto deve [se] criar uma linguagem latino-americana, libertária e reveladora", disse à revista Cine Cubano, em 1971, segundo o SNI.

Siga R7 no Google e fique por dentro de tudo que acontece

Seguir no Google

Últimas

‌

Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.