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Diário de bordo: viagem Central-Japeri em pé dura quase 2 horas, diz estudante

João Paulo Barbosa diz que superlotação e atrasos já viraram rotina no ramal Japeri

Rio de Janeiro|Do R7

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O estudante João Paulo Barbosa fotografou e escreveu sobre as dificuldades que enfrenta no dia a dia nos trens
O estudante João Paulo Barbosa fotografou e escreveu sobre as dificuldades que enfrenta no dia a dia nos trens

Panes que interrompem a circulação de trens viraram rotina e revoltam passageiros no Rio. A pedido do R7, usuários relataram durante uma semana de setembro suas viagens de ida e volta ao trabalho/escola/faculdade nos ramais Saracuruna, Japeri e Santa Cruz.

Morador de Japeri há 12 anos, o estudante João Paulo Barbosa fotografou e escreveu sobre as dificuldades que enfrenta no dia a dia para chegar à faculdade e voltar para casa. A estação Japeri, na Baixada Fluminense, é a última do ramal. De acordo com ele, superlotação, atrasos, defeitos nas composições e prestação de serviços ruins já viraram rotina.


Leia o relato a seguir:

"Quem mora em Japeri pega o trem entre 4h e 8h, se quiser chegar a tempo no trabalho. Nesses horários, a estação e os vagões ficam cheios e, por isso, muito desconfortáveis. Para mim, o retorno às 18h é o grande problema. As composições já saem superlotadas da Central e a viagem demora mais. No dia 17 de setembro, por exemplo, o trem saiu às 18h14 da Central e só cheguei a Japeri às 19h55. No total, foi uma hora e 39 minutos de viagem, a maior parte, em pé.


Na hora do embarque, é aquele tumulto de sempre dos passageiros brigando para se sentar. Na Central, há uma plataforma para idosos, deficientes, grávidas e pessoas com crianças de colo que têm preferência para entrar nos vagões. Porém, é muito comum haver jovens e adultos que provavelmente têm o acesso facilitado por conhecidos que trabalham na SuperVia.

Ao longo da semana, os trens ficaram parados por vários minutos aguardando liberação de tráfego, cruzamento ou a boa vontade de quem impediu o fechamento das portas. Algumas não fechavam ou não abriam por falta de manutenção. No dia 18, num vagão com oito portas, havia três emperradas.


O sistema de áudio e vídeo também não funcionou direito. Nas composições velhas, quase não foi possível entender os anúncios sonoros devido ao chiado ou baixo volume. Nos trens novos, nenhuma televisão estava funcionando. Para quê então a televisão!?

Lâmpadas quebradas, blackout, janelas emperradas, ventilação quebrada, muita sujeira, falta de lixeiras e falta de sinalização também foram comuns na última semana. Em um dos vagões, o local do extintor de incêndio estava vazio. Muitas composições não têm cabines e as pessoas têm que segurar bolsas e mochilas pesadas durante toda a viagem. Como a jornada é longa e demorada, duas mulheres carregavam uma pilha de papéis e aproveitaram para trabalhar ali mesmo no trem.


Camelôs autorizados geralmente vendem suas mercadorias na própria Central. No trecho entre Deodoro e Japeri, há muitos camelôs irregulares que acabam suprindo as necessidades dos passageiros durante a longa viagem. Às sextas-feiras, a venda de bebida alcoólica no interior dos trens se torna prática comum. Além dos camelôs, há muitos mendigos e deficientes pedindo dinheiro.

A falta de educação dos passageiros é outro grave problema. O cheiro de urina em estações sem banheiro é muito forte. Um homem viajava com a mochila nas costas, impedindo a passagem de outras pessoas. Uma idosa viajou em pé. No banco que cabiam oito pessoas, sete estavam sentadas confortavelmente, e ninguém ofereceu lugar para a senhora.

Ao longo da via férrea, há vários pontos em que não há passarelas, e as pessoas se arriscam nas cancelas ou atravessam buracos no muro de acesso à linha. Há também muito lixo próximo aos trilhos no trecho entre Queimados e Comendador Soares. Em um trecho entre Japeri e Queimados, não há muro de proteção. Crianças brincam sozinhas e gado pasta ao lado da linha. Como não há elevadores para deficientes físicos em muitas estações, um senhor teve que descer uma escadaria imensa com a filha cadeirante.

Apesar de todos esses problemas relatados, a semana foi atípica e os trens estiveram menos cheios e atrasaram menos do que o comum. Isso provavelmente foi resultado da onda de protestos de dias anteriores. O pior é saber que depois que a poeira abaixa, os mesmos problemas voltam a acontecer."

Outro lado

Em resposta aos atrasos, superlotação, estações e problemas estruturais, a SuperVia disse que tem trabalhado para ampliar o número de lugares ofertados e viagens realizadas por dia. A empresa informou que, no ano passado, 30 trens novos entraram em circulação. A concessionária disse ter antecipado a compra de mais 20 novas composições, que começarão a circular em fevereiro de 2014. Como parte de seu investimento, o governo também encomendou outras 60 novas composições, que deverão começar a entrar em circulação no próximo ano.

A SuperVia ainda afirmou que o novo sistema de sinalização reduzirá o intervalo entre os trens pela metade.

Sobre o valor da passagem, a empresa lembrou que o aumento foi revogado, voltando a custar R$ 2,90. Isso aconteceu após a onda de protestos de junho passado.

Sobre a falta de informações em casos de panes e atrasos, a SuperVia disse que mantém a comunicação com os passageiros por meio do CCO (Centro de Controle Operacional).

Sobre limpeza, a concessionária conta com um novo processo de limpeza, que incluiu a aquisição de equipamentos mais modernos e o aumento da contratação de profissionais que se dedicam, exclusivamente, à limpeza dos trens. A empresa disponibiliza também cartazes informativos nas estações e adesivos em trens e plataformas para estimular os bons hábitos nos passageiros.

Todas as composições passam por manutenções e vistorias técnicas diariamente para que não circulem com portas abertas, outro fator importante para garantir a segurança durante as viagens. Por isso, para tentar coibir a atitude irregular de abertura de portas, a concessionária apoia a Operação Portas Fechadas, realizada diariamente pela Polícia Militar.

Sobre a falta de acesso aos deficientes, a concessionária tem ciência de que o sistema ferroviário conta com uma infraestrutura construída há mais de 150 anos e, por isso, disponibiliza a acessibilidade assistida em todas as estações. A SuperVia irá reformar todas as estações para que sigam os padrões internacionais de acessibilidade. As primeiras obras foram feitas nas estações Piedade, Quintino e Cascadura, que são as estações modelo para todo o sistema ferroviário. As intervenções realizadas nestas estações incluíram a adaptação de bilheterias, instalação de elevadores, piso tátil, banheiros adaptados e rampas de acesso, que melhorarão o deslocamento das pessoas com deficiência. Além dos padrões de acessibilidade adotados, reforma também englobou construção de cobertura nas passarelas e plataformas, recuperação dos pisos, nova comunicação visual e iluminação. Todas as estações serão aperfeiçoadas e o investimento previsto é de R$ 150 milhões até 2020.

A respeito da segurança na via, a concessionária negocia com o Governo do Estado a implantação do projeto “Segurança da Via”, cujo objetivo é realizar a segregação total da linha férrea, com a construção de muros, passarelas e viadutos. Trata-se de um problema de segurança pública em um sentido mais amplo, uma vez que pessoas, animais e veículos invadem a linha férrea e interferem na circulação dos trens. Com a ferrovia isolada, as composições trafegarão com velocidade média maior e o tempo de viagem será encurtado.

Larissa Kurka, Nayana Alcântara e Paulo Henrique Rosa, do R7

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