Logo R7.com
RecordPlus

Em entrevista, Criolo comenta polêmica de "pedágio" em praias do Rio: "A gente é barrado desde que nasce"

Rapper lotou festival na Marina da Glória com o show de Convoque seu Buda

Rio de Janeiro|Silvia Ribeiro, do R7

  • Google News
Criolo tocou Convoque seu Buda em show na Marina da Glória
Criolo tocou Convoque seu Buda em show na Marina da Glória

Criolo voltou ao Rio de Janeiro com o show do disco Convoque seu Buda. Ele tocou para plateia lotada no festival Rider Weekends 2015 na madrugada de sexta-feira (16). Mais cedo, entre uma entrevista e a passagem de som, ele falou ao R7 sobre o novo disco, processo criativo, redes sociais e, como não podia deixar de ser, crítica social.

Sob calor de quase 40ºC na Marina da Glória, Criolo suspendia a fala de ritmo calmo à medida que aviões partiam e chegavam no Santos Dumont, enquanto os músicos de sua banda faziam os ajustes para a passagem de som.


Com maior peso hip hop, Convoque seu Buda (2014) segue a linha de Nó na Orelha (2011), com crônicas cotidianas e crítica social. Criolo passou pela Cidade Maravilhosa na mesma semana em que propostas da colunista social Hildegard Angel provocaram polêmica.

A jornalista propôs reduzir o transporte público — ônibus e metrô — da zona norte para a zona sul e a cobrança de taxa de acesso às praias após um fim de semana de roubos e arrastões na cidade. As medidas provocaram revolta nas redes sociais e Hildegard acabou por apagá-las de seu site.


O R7 levou essa e outras questões a Criolo. Leia a seguir a íntegra da entrevista:

R7 - Gostaria que você falasse sobre a acolhida do público do Rio ao seu trabalho e ao hip hop paulistano.


Criolo - É maravilhoso. A palavra que eu tenho é gratidão. De verdade. Já vim pra cá em 2004, 2008, e sempre tinha alguém me acolhendo, oferecendo lugar para dormir, dando alimentação, sabendo que você está na correria, sem nada, correndo atrás de um sonho. O Rio de Janeiro sempre foi assim comigo. Só tenho gratidão.

R7 - Você tem parceria com músicos do Rio?


Criolo - A gente sempre conversa, né? Mas nada em registro.

R7 - Tem vontade de gravar? O som do BNegão dialoga com o seu.

Criolo - Toda vez que eu vejo o BNegão, eu quero abraçar ele, a gente nem fala de música. [risos] Mas é muito especial, o Rio. Tem uma energia maravilhosa, é uma coisa impensada, sempre me emociona muito. As pessoas são talentosas, humanas, especiais. Ainda tem aquela piada de que não gosta de trabalhar, não consigo entender isso... Pessoal trabalhador pra caramba. Todo mundo que eu conheço trabalha muito para conquistar suas coisas, sua vida, sua história. Identificação monstra com o Rio de Janeiro.

R7 - O rap nacional vem em constante evolução desde os anos 80, passando por Racionais MC, e agora com o seu trabalho, que acrescenta uma nova linguagem ao rap. Como você vê esse movimento e onde o rap está hoje a partir da sua produção?

Criolo - Independente da escolha estética, da sonoridade, do modo como você rima, do modo como você constrói as instrumentais, eu penso como evolução musical quando você se conecta com o seu coração. Isso é uma evolução porque você humaniza a coisa, você se percebe humano, você percebe seus defeitos, você tenta conviver com seus defeitos, com um pouco de virtudes que você tem, você divide com os outros... Eu enxergo como evolução esse processo. E a parte musical é tudo o que a gente vive, né? É tudo aquilo que você escutou quando criança, o que você foi atrás por curiosidade, o que lhe apresentaram, as coisas que você se aprofunda por uma afinidade maior. Eu imagino dessa forma.

R7 - Como você definiria o seu estilo? Acho difícil rotular, mas gostaria que você falasse sobre o seu estilo, sobre o que você agregou para essa evolução do rap brasileiro.

Criolo - Eu não sei se eu agreguei muito... Eu não sei que nome dar. Eu posso dizer que sou uma pessoa que ama música e que viveu e vive intensamente música. E que teve no rap um berço, um apoio, um ombro amigo, uma energia de irmão mais velho para ser quem eu sou. E aí você vai, cada um tem sua história. Vai misturando o lance de meus pais serem nordestinos e eles têm uma cultura linda, uma cultura brasileira nossa, maravilhosa. Tenho amigos baianos, de Porto Algre, de Curitiba. Esses amigos, essas pessoas a todo momento estão nos influenciando e isso acaba fazendo parte da sua vida e vai para a canção. Mas eu não sei, eu deixo as pessoas livres para dizerem o que elas acham, o que elas pensam. A gente está vivendo uma construção ainda.

R7 - O que mudou de Nó na Orelha para Convoque seu Buda. Gostaria que você falasse sobre essa evolução e o que ela envolveu?

Criolo - São momentos distintos realmente em um [momento] eu já havia praticamente dado adeus aos palcos. [Após gravar] Nó na Orelha eu não subiria aos palcos. Era um disco para ficar para a minha família, não era um disco para ser um álbum. Era um registro fonográfico para a família. Com o Convoque seu Buda, retomar o estúdio justamente também para agradecer toda a energia que eu recebi das pessoas no momento Nó na Orelha. Se teve uma evolução? Não sei. Eu estou vivendo.

R7 - Convoque seu Buda foi então um agradecimento à receptividade do Nó na Orelha?

Criolo - Também. Isso também. E a necessidade ainda de me expressar. Sempre. É sempre a necessidade de se expressar. A necessidade, a sede de se expressar. Embora ninguém esteja perguntando a sua opinião, você querer deixar ela para o mundo, sem querer ferir a opinião de ninguém, sem querer agredir ninguém, sem querer violentar o pensar do outro, mas deixar o seu pensamento para o mundo. Eu tenho essa vontade dentro de mim, no meu coração. E isso me move muito. Agora, o por que de pensar a canção de uma outra forma? Não havia a necessidade de fazer o Convoque seu Buda, porque o Nó na Orelha já me trouxe todas as felicidades que eu jamais imaginei na minha vida. Jamais imaginei na minha vida. Então, esse desejo de deixar um pouco das minhas ideias para o universo é algo que me move. Mesmo sabendo que ninguém perguntou. É importante você ter esse pé no chão, saber disso. Existe um todo, né?

R7 - Estamos falando de momentos diferentes do Nó na Orelha e do Convoque seu Buda. Em que medida o boom das redes sociais e uma maior "politização" com protestos ganhando as ruas do País, que vieram à reboque disso tudo, influenciaram o novo disco?

Criolo - Eu acho que o processo de pensar política independe de rede social. A rede social é uma ferramenta para a pessoa se expressar. E óbvio, é uma ferramenta onde você tem acesso às ideias, à escrita de uma outra pessoa. Eu acredito que fomenta [debate político] porque você imagina que, se você está na sala da tua casa com quatro pessoas falando sobre política, você vai ter quatro ideias diferentes. Em um ambiente virtual em que tem 1 milhão de pessoas falando, é uma proporção gigantesca. Mas as pessoas têm preocupação com suas questões porque isso mexe com elas, isso independe de uma rede social.

R7 - Em que medida essa efervescência influenciou o seu processo criativo? Ou não.

Criolo - Eu cresci num lugar com muita dificuldade para sobreviver. E meus pais fazendo de tudo para dar uma vida digna pra gente, mesmo no meio de tanto caos, fome, violência urbana. Então a gente sabe que a manifestação é algo diário. Respirar é se manifestar, expressar que algo te magoou é se manifestar, conversar com o outro é se manifestar. Quando um número maior de pessoas se reúne por determinado tema, isso ganha mais força e mais força e mais força desde que o mundo é mundo. Falar do que queremos sempre vai ser algo positivo e procurarmos entender o outro também, termos esse exercício de entender o outro também. Faz parte dessa construção e, nesse nosso contemporâneo, eu acredito que a gente está tentando entender o que está acontecendo. A gente vem de uma pós-ditadura em que ninguém podia se comunicar. Aí temos uma falsa ideia de conseguirmos um pouco mais. Então ainda estamos num processo de entender o que está acontecendo.

R7 - Essa semana a jornalista Hildegard Angel propôs redução das linhas de ônibus e metrô da zona norte do Rio para a zona sul e a cobrança de taxa para acessar praias da zona sul à reboque de arrastões. As propostas provocaram polêmica. Eu pergunto isso porque o rap é expressar para tirar do gueto também.

Criolo - Se for parar para pensar bem, desde que a gente nasce, a gente é barrado, né? O ser humano, o primitivo, o que seria a sua preocupação enquanto um ser vivo que nasceu aqui nessa biodiversidade? É não passar fome, não passar frio e se alimentar. O que está posto hoje parece que essa coisa básica virou detalhe, mas cada pessoa pensa o mundo do seu jeito, né?

R7 - O que você acha dessa maneira de pensar o mundo, que foi vista por muita gente como a construção de um "muro" ao restringir acesso a locais públicos?

Criolo - De repente ela foi sincera, né? Quem disse que esse muro não existe? A partir do momento em que você vê pessoas comendo do lixo, não existe um muro, existe um muro de Berlim. Eu acredito que a gente possa conseguir um Brasil melhor. Eu tenho essa esperança.

R7 - Como?

Criolo - Tem que perguntar isso para quem tem o poder na mão, para mim vai ser só inocência. Eu só vou me expor. Tem que perguntar para quem tem o poder nas mãos. Nós somos a borda, mas uma borda criativa, cheia de ideias positivas e que quer realmente contribuir, mas precisa de estrutura para isso.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.