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"Absolvição de PM é uma barbárie", diz pai de jovem morto no ABC

Por por 4 votos a 3 no júri popular, major é inocentado da morte de dois adolescentes. Crime ocorreu em novembro de 2011, em São Bernardo

São Paulo|Fabíola Perez, do R7

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Adolescentes Douglas e Felipe mortos após perseguição policial em 2011
Adolescentes Douglas e Felipe mortos após perseguição policial em 2011

“O desfecho do julgamento foi uma barbárie”, afirmou José Valdo da Silva, pai de Douglas da Silva, em relação à absolvição do major Hebert Saavedra, que coordenava a equipe de policiais militares na noite em que o adolescente morreu. Ele e o amigo Felipe Macedo Pontes e Douglas Silva, ambos de 17 anos, foram abordados por três policiais militares da Força Tática, em 2011, no bairro Demarchi, em São Bernardo do Campo.

De acordo com o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), o major Saavedra, da Polícia Militar, foi absolvido das duas acusações de homicídio qualificado contra Felipe e Douglas. O julgamento ocorreu na quarta-feira (29), no Fórum de São Bernardo do Campo. Ainda não há previsão de julgamento dos outros dois policiais envolvidos.


Em 2015, os três policiais se tornaram réus no processo criminal pelos dois homicídios. Segundo a denúncia apresentada pela promotora de Justiça, Thelma Tahis Cavarzere, os policiais “mataram Douglas para assegurar a ocultação e a impunidade do homicídio que praticaram contra Felipe.” Com isso, ela denunciou os três policiais militares pelos homicídios qualificados.

O pai de Douglas, que acompanhou o julgamento, afirma que o local do crime foi modificado. “Ele foi retirado da cena, levado para alguma outra situação de desova e depois apresentado a uma unidade médica, sob a alegação de que teria ocorrido uma troca de tiros”, afirmou José. “No júri, percebi que quem tem o melhor discurso é o vencedor. Isso não é justiça.”


De acordo com o inquérito do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), Felipe foi morto no momento da abordagem e Douglas, a caminho do hospital, logo depois de ter falado a uma testemunha que temia ser morto pelos policiais no trajeto, pelo fato de ter presenciado a morte do amigo.

O pai de Felipe, Cícero Siquera Pontes, 55 anos, assistiu somente a uma parte do julgamento que resultou na absolvição do major. “Foi um massacre, não tive condições de acompanhar. A gente sabe quando vai ser massacrado”, afirmou. “Hoje em dia não existe justiça, é um salve-se quem puder”, disse.


Para o coordenador da Comissão da Infância e Juventude do Condepe-SP, o advogado Ariel de Castro Alves, o resultado do Júri é um estímulo à violência policial. “A decisão dos jurados contraria frontalmente as provas dos autos”, afirmou. “Um frentista de um posto de gasolina que trabalhava em frente ao local disse que viu a abordagem e disse que os jovens saíram da moto com as mãos na cabeça e desarmados, quando os policiais fizeram vários disparos contra eles”, diz.

Segundo ele, a testemunha teria presenciado os PMs forjando provas no local do crime, para simular um suposto confronto. “A testemunha afirmou ter visto os policiais tirando armas de fogo de dentro da viatura da PM e colocando-as nas mãos dos jovens. Felipe foi atingido por 4 disparos e Douglas por 5 tiros.”


O caso

No dia 30 de novembro de 2011, Douglas e Felipe saiam de moto da escola estadual no bairro Demarchi, em São Bernardo do Campo, quando foram abordados por três policiais. Segundo a polícia, eles eram suspeitos de roubo. “Esse suposto roubo jamais ocorreu, já que nenhuma ocorrência do tipo foi registrada na delegacia da área”, afirma Alves.

Segundo o DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) Felipe foi assassinado na abordagem e Douglas foi morto a caminho do hospital após ter dito a uma testemunha que temia ser morto pelos PMs no caminho por ter presenciado o assassinato de seu amigo na abordagem policial.

“Existem fortes indícios de que os adolescentes foram executados pelos PMs, já que conforme os laudos do IML, Douglas levou 5 tiros e Felipe recebeu 4 disparos”, afirma Ariel. O laudo residuográfico do Instituto de Criminalística não constatou resíduos de pólvora nas mãos das vítimas.

Defesa

De acordo com o advogado Celso Vendramini, que representa a defesa do major Saavedra, o processo conta com testemunhas presenciais que teriam visto duas vítimas armadas que dispararam contra os policiais. “Um vigilante que trabalhava em uma empresa em frente ao local viu os dois desceram da moto com a arma em punho e atirando. Os policiais revidaram”, disse.

“O depoimento do frentista foi desmentido pelo Instituto de Criminalística. De onde ele estava não poderia ter visto tampouco ouvido os disparos. Essa testemunha mentiu”, afirma o advogado.

Segundo Vendramini, os meninos teriam passado em frente a uma pizzaria e eram suspeitos de terem cometido roubo. “A viatura estava atrás deles por isso”, diz o advogado do PM.

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