Advogado acusa PM de agressão com soco nos testículos
Exame médico apontou trauma na região; policial militar diz que sofreu desacato
São Paulo|Juca Guimarães, do R7

O advogado Bruno Cerqueira Gomes, de 28 anos, afirma que foi agredido e ameaçado por policiais militares durante uma abordagem no bairro de Cidade Líder, na zona Leste da capital. Bruno conta que levou dois socos nos testículos, que fizeram ele urinar sangue. Exame feito em uma UPA indicou lesão na área.
Bruno diz ainda que foi levado à delegacia do bairro pelo PM agressor e uma equipe da Força Tática chamada para dar apoio à ocorrência. Lá o advogado foi indiciado por desacato.
"Eu tinha que levar a minha filha pequena na escola e estava atrasado. Então sai de casa vestindo moletom, meia e chinelos para não perder o horário. Na volta, eu parei o carro em frente de casa e desci. Fiquei uns dois minutos olhando as mensagens no celular quando os três PMs surgiram do nada, já gritando", disse.
De acordo com o relato do advogado, os três PMs que faziam uma ronda a pé, foram extremamente agressivos e gritaram: "Levanta as mãos c**zão!". Logo na sequência, ainda segundo Gomes, um dos policiais gritou para o advogado virar de costas e depois empurrou o corpo dele contra o portão.
Durante a revista, Bruno disse que um policial, que ele identifica como sendo o soldado Rafael Masson Dias, deu dois socos nos seus testículos, causando muita dor e indignação.
Depois dessa agressão, Bruno apresentou a carteira de identificação da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e, segundo ele, o tom da abordagem mudou. "Aí um dos PMs chegou e disse 'Erramos desculpas'", disse. Porém, ainda conforme Bruno, neste mesmo momento eles tiraram as tarjetas de identificação dos uniformes. Indignado com o tratamento recebido, o advogado falou que iria atrás dos direitos dele e criticou o modo como foi tratado pelos policiais.
O trio de PMs chamou o reforço de uma viatura da Força Tática, onde estavam os policiais identificados como tenente Marques e soldado Robinson da Silva. O adovogado conta que o PM Rafael teve uma conversa reservada longe dele com os polícias da viatura. Depois ele voltou dizendo que estava dando voz de prisão para o advogado por desacato.
A mãe do advogado foi até o portão para saber o que estava acontecendo e teria sido tratada como ironia pelo PM Robinson. "Ele disse para minha mãe assim: 'isso é que dá morar em favela'", contou Bruno.
Chiqueirinho
O advogado disse para o tenente que queria ir até a delegacia mais próxima para denunciar os PMs, mas que iria no banco de passageiros da viatura e não no compartimento de presos, pois ele era a vítima. A entrada do advogado na viatura, no banco dos passageiros, foi gravada por moradores e familiares. Um dos vizinhos do rapaz, que ouviu os PMs chamá-lo de "c**zão", foi depois prestar depoimento como testemunha e confirmou o xingamento em depoimento.
No caminho o advogado ficou surpreso porque os policiais reduziram a velocidade e fizeram um trajeto mais longo até a delegacia. "Ali começou uma pressão psicológica muito forte. O PM Ismael me chamou de burro", disse Bruno.
No pátio do 53 DP (Parque do Carmo), o advogado diz ter sido algemado e colocado no compartimento de presos. "Fecharam os vidros e me deixaram lá por mais de 30 minutos. Estava difícil para respirar e eu pedi para sair, mas o PM Robinson me deixou lá sem motivo", afirmou Bruno. O advogado só foi retirado do chiqueirinho quando o pai dele chegou na delegacia e questionou pelo paradeiro do filho.
O caso foi registrado como desacato pelo delegado Guilherme Leonel Santos, que pediu um exame de corpo delito para o advogado e ouviu a testemunha que confirmou a abordagem violenta. Também foi ouvida a versão dos PMs.
Versão dos policiais
Em depoimento, os policiais afirmaram que estavam fazendo o patrulhamento e suspeitaram do rapaz por "se tratar de local com alto índice de tráfico de drogas". Os PMs disseram também que o advogado não deixou que fosse feita a busca pessoal e a identificação. Também dizem que foram chamados de moleques, de recrutas e que eles "não sabiam trabalhar".
O tenente Marques, que era o oficial da viatura da Força Tático, testemunhou que o advogado estava alterado, gesticulando com as mãos e gritando. O tenente disse então que combinou de levá-lo até o DP no banco traseiro e sem algemas, porém, no caminho o advogado estava gesticulando muito e, por isso, foi colocado no porta-presos.
Exames
Após o registro da ocorrência, o advogado foi até o IML (Instituto Médico Legal) onde fez o exame solicitado pelo delegado. Como ainda sentia muitas dores e urinava sangue, o advogado foi por conta própria à uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento), da rede municipal de Saúde, em Itaquera. A médica Shirley Penarrieta atendeu o advogado e diagnosticou que houve um "trauma na bolsa escrotal". Região onde o rapaz disse que foi atingido pelo policial Rafael Dias.

Caso é investigado
A Secretaria de Estado da Segurança Pública, afirmou, em nota que "a Polícia Civil informa que o caso segue em investigação por meio de inquérito policial pelo 53º DP".
Foi requisitado exame de corpo de delito à vítima e foram solicitadas as imagens da abordagem dos policiais militares gravadas durante a ação pelo advogado", diz a nota.
"A Polícia Militar esclarece que também foi instaurada investigação preliminar para avaliar a conduta dos policiais, lotados no 28º BPM/M", prossegue a SSP.
"O comando do Batalhão também convidou o advogado para ser ouvido formalmente, que não quis fazê-lo na ocasião. Tanto o comando do 28º BPM/M quanto a Corregedoria da Polícia Militar estão à disposição para formalizar queixa, se o advogado assim desejar", diz o texto.
O caso aconteceu no dia 7 de agosto. O resultado do exame do IML deve ficar pronto em duas semanas.
O R7 solicitou à SSP entrevista com os PMs citados, mas obteve como resposta apenas a nota oficial. A reportagem não conseguiu contato por telefone com os policiais envolvidos no batalhão em que atuam.
Nesta quarta-feira (23), o advogado registrou uma denúncia contra os policiais militares no Ministério Público de São Paulo.















