São Paulo Afastamento é o 1º sinal dado por vítimas de violência doméstica

Afastamento é o 1º sinal dado por vítimas de violência doméstica

Mulheres que vivem rotina com agressores precisam de ajuda. É necessária a insistência de parentes e amigos, mas o principal é não julgá-las

  • São Paulo | Joyce Ribeiro, do R7

Vítimas de violência doméstica precisam de ajuda e não devem ser julgadas

Vítimas de violência doméstica precisam de ajuda e não devem ser julgadas

Reprodução / Pixabay

A pandemia do novo coronavírus evidenciou um problema que, muitas vezes, ficava restrito aos lares: a violência doméstica. Mesmo com as mulheres confinadas com os agressores por mais tempo, é possível ajudá-las. O primeiro sinal emitido pela vítima é o afastamento do convívio familiar, de amigos e até do trabalho.

"Elas criam uma série de expectativas com o amor da vida delas, apresentam para a família e têm vergonha de ter que expor que estão apanhando em casa porque acabam sendo julgadas pela sociedade, que não tem pudor de verbalizar isso", explica a coordenadora de Políticas para Mulheres da Secretaria Municipal de Direitos Humanos de São Paulo, a assistente social Ana Cristina de Souza.

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As mulheres tendem a se afastar das pessoas porque, em geral, carregam marcas e hematomas pelo corpo. Primeiro, passam a se ausentar de compromissos familiares, evitam encontrar amigos e depois começam a faltar no trabalho. 

Para Fernanda Lelis, coordenadora nacional do projeto Raabe, criado pela Universal em 2011 e voltado ao acolhimento de mulheres, são vários os sinais de que a vítima precisa de ajuda, entre eles a perda de vaidade. "A gente vê que aquela mulher deixou de se cuidar para tentar agradar o marido. Ela muda de comportamento no trabalho ou até para [de trabalhar], dependendo da atitude do agressor. Às vezes, eles as seguem e vão para a porta do emprego", explica Fernanda.

Oferecer ajuda a essas mulheres é essencial. "A insistência é sempre o caminho. Até porque a pessoa começa a adoecer, desenvolve problemas de saúde, como síndrome do Pânico. Sempre é a conversa, o bater na porta, o estar junto sem ser juiz ou algoz. Ela está tão fragilizada nas emoções e convicções que não tem condições de decidir nada. O agressor já tirou tudo dela. É mostrar que ela pode contar com você", afirma Ana Cristina.  

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No entanto, a abordagem quase nunca é fácil. "Muitas vezes, falta entendimento ou orientação a essas mulheres e elas acham que precisam ficar no relacionamento abusivo. As agressões são emocionais antes até da agressão física e nem todas querem denunciar ou sair de casa", diz Fernanda Lelis.

Assim que a vítima demonstrar que aceita a ajuda oferecida, o ideal é encaminhá-la a um dos serviços especializados de atendimento à mulher, como o Centro de Defesa da Mulher, Centro de Cidadania e Centro de Referência da Mulher. A prioridade é salvar a vida dela no primeiro momento. A formalização de uma denúncia contra o agressor é um segundo passo.

"O acolhimento é sempre o mais importante. Ela precisa estar fortalecida até chegar na denúncia. O processo é doloroso, ela precisa de orientação para estar segura do que vai acontecer. É a chamada rota crítica. Se ela não estiver forte o suficiente, ela não chega ao fim do processo e retorna ao relacionamento abusivo após ouvir promessas de mudança", revela a assistente social.

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Voluntários do Raabe oferecem acolhida e orientação a mulheres

Voluntários do Raabe oferecem acolhida e orientação a mulheres

Divulgação / Raabe

O fundo do poço

A cabeleireira Ana (nome fictício), de 36 anos, que não quer ser identificada, foi casada por dois anos e meio com um homem que nunca a agrediu fisicamente, mas que a induziu a se prostituir em programas de chat na internet. "Eu tinha depressão, síndrome do Pânico, abandonei o trabalho e ficava em casa. Tomava muito medicamento. Ele sabia e também não trabalhava. Pelo contrário, usava o dinheiro com vício: apostas na internet e pornografia", conta.

Em 2018, por vários meses, ela ouviu que "só servia para fazer programa e ajudar  nas contas da casa". Para manter o casamento, ela decidiu atender ao pedido do marido e se expunha em câmeras aos clientes. Ela ganhava por minuto no chat. Com o dinheiro sustentava a casa e os vícios dele.

"Eu me submeti a isso. Me sentia humilhada e ainda mais depressiva. Às vezes, eu misturava bebida com os remédios para não lembrar de nada. Me cortei, tentei suicídio algumas vezes. O risco de morrer era iminente. Uma vez sangrei muito e fui pedir ajuda para ele, que nem reagiu vendo futebol na TV. Foi o fundo do poço", lembra.

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A situação se arrastou por alguns meses até que ela decidiu contar tudo para a mãe: "Foi ela quem me ajudou. Se ela não tivesse me tirado de lá, não estaria mais aqui para contar essa história e ajudar outras mulheres. Foi um alívio, como se eu tivesse saído da prisão", diz.

De comum acordo, eles se divorciaram. Mas foi aí que a jornada começou. Ela voltou para igreja e conheceu uma amiga que lhe apresentou o Raabe, um grupo de apoio a mulheres, com suporte emocional, além de cursos para elevar a autoestima e incentivar o amor próprio. 

Ela fez o curso que dura um mês e teve atendimento individual com psicóloga e ajuda espiritual. "Não tive apoio igual em outro lugar. Sabia que eu tinha que voltar todas as forças para cuidar de mim. Não foi fácil, mas tive amparo. Foi muito choro, eu não entendia porque eu passei por aquilo, mas hoje não guardo mágoa ou pesar. Já superei", desabafa.

Hoje ela é voluntária no Raabe, venceu a depressão, tem o próprio salão de beleza e vive com a mãe. Desde então, não se envolveu em outro relacionamento.

Projeto Raabe

O projeto Raabe Rompendo o Silêncio nasceu dentro da Igreja Universal e é voltado para mulheres que sofrem violência doméstica e abuso. O programa conta com voluntárias, advogadas e psicólogas que dão orientações jurídicas e pessoais a quem necessita de ajuda.

O projeto não tem uma casa de acolhida a essas vítimas, algumas em situação de rua, mas trabalha com parcerias em abrigos e outras entidades. "O projeto abrange a área social, mas também emocional. Não é um curso religioso. Ensina a importância de se autoconhecer, de rever as referências que tiveram na vida. Essas mulheres são emocionalmente dependentes de um homem e aceitam a opinião dos outros", enfatiza a coordenadora do Raabe.

Curso é sobre auto conhecimento para mulheres

Curso é sobre auto conhecimento para mulheres

Divulgação / Raabe

O curso é mensal, gratuito, tem 8 aulas de terça e sexta-feira às 19h. Começa sempre na primeira terça do mês, quando é possível fazer a inscrição.

"Às vezes, a gente é impossibilitada de ajudar porque a mulher é dependente financeiramente do marido. Mas a gente mostra que o caminho é difícil, mas possível. Sempre a decisão final é dela. Ela não pode mudar o passado, mas pode tirar forças dele, superar para seguir em frente", ressalta Fernanda Lelis.

O objetivo do projeto é também evitar que as mulheres retornem aos relacionamentos abusivos: "Às vezes, é o 2º ou 3º relacionamento que elas perdoaram. Muitas se cuidam por fora, mas estão vazias por dentro", destaca a coordenadora.

Agressão aos filhos

Não há um tempo comum a todas as mulheres vítimas de violência. Algumas suportam as agressões uma vida inteira sem registrar queixa. Outras resolvem terminar o relacionamento quando os filhos passam a ser também alvos do pai ou companheiro. 

"Quando a violência física chega nos filhos, em geral, a mulher toma a decisão de romper o relacionamento. Há outros tipos de violência sofrida que são negligenciados. Mesmo fragilizada, ela percebe que o agressor não é abusivo só com ela e entende que atingir a criança é outra forma de violá-la", ressalta a coordenadora de Política para Mulheres.

Quase nunca um boletim de ocorrência é registrado, mas é muito importante a formalização para saber a real dimensão das ocorrências de feminicídio no país. Em alguns casos de agressão, a Justiça permite exceções à regra. Por exemplo, se a vítima é mulher de um integrante de facção criminosa, mesmo sem o registro do B.O., ela consegue uma medida protetiva.

Vítimas podem escolher fazer o registro da agressão nas Delegacias da Mulher

Vítimas podem escolher fazer o registro da agressão nas Delegacias da Mulher

Arte R7

Boletim de ocorrência

Ameaças e agressões vividas pelas vítimas nem sempre fazem parte das estatísticas de violência pela dificuldade em convencer a mulher a fazer o boletim de ocorrência. Mas não há um número que evidencie quantos casos deixaram de ser registrados.

“É um momento em que elas estão extremamente fragilizadas. Qualquer desestímulo pode fazê-las perder a vontade de denunciar”, afirma Ana Paula Freitas, advogada do Ibccrim (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais).

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Apenas na capital paulista, são 9 unidades de polícia voltadas às mulheres. A delegada Jamila Jorge Ferrari é coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher de São Paulo e explica que “as ocorrências de violência doméstica não ficam restritas às DDMs. A mulher tem o direito de registrar a ocorrência onde quiser. A decisão é dela”.

Segundo a Lei Maria da Penha, o atendimento nas Delegacias da Mulher não precisa necessariamente ser feito por uma funcionária, mas preferencialmente sim. De acordo com a coordenadora Jamila, os três crimes mais registrados nas DDMs são: lesão corporal, ameaça e crimes contra honra, como calúnia, injúria e difamação.

A delegada Renata Cruppi, da DDM de Diadema, afirma que houve um aumento recente no número de casos registrados de ofensas e ameaças. “Esta é a primeira fase da violência contra a mulher. Antes esses crimes eram considerados de menor potencial.”

Segundo Renata, “às vezes, são necessários anos para ela dar o primeiro grito de socorro. Só uma orientação já faz diferença para que ela não se sinta tão fragilizada. Muitas chegam à delegacia com o sentimento de culpa. Nesse momento, elas precisam se sentir fortalecidas." 

Serviço público oferece atendimento multidisciplinar às vítimas de violência

Serviço público oferece atendimento multidisciplinar às vítimas de violência

Divulgação / Secretaria Municipal de Direitos Humanos

Casa da Mulher Brasileira

Uma opção que reúne todos os serviços num mesmo local é a Casa da Mulher Brasileira. Inaugurada em novembro de 2019, a unidade funciona 24 horas no Cambuci, no centro da capital paulista. Esta é a sétima no país. Mas há a promessa do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos de construir mais 25 unidades até 2021. 

O espaço abriga Delegacia da Mulher, Ministério Público, Defensoria Pública, Tribunal de Justiça e Guarda Civil Metropolitana, além de apoio psicológico e assistencial. Há ainda um alojamento para acolhimento provisório das vítimas e dos filhos em casos de iminência de morte.

Assim que chega à unidade, a mulher é ouvida e atendida por uma equipe multidisciplinar. Não é necessário um encaminhamento e nem burocracia em casos de violência.

Desde o início da pandemia, de 16 de março até 5 de outubro, só a Casa da Mulher Brasileira realizou 7.242 atendimentos. Nos demais equipamentos voltados à proteção da mulher na capital, foram 1.806 registros.

De acordo com Ana Cristina de Souza, é essencial que as mulheres saibam que existem equipamentos públicos de portas abertas para recebê-las. "Não se calem, denunciem. Há muita gente disposta a acolhê-las de forma integral. Elas não vão dormir na rua, ela terão onde ficar e não precisam se preocupar com nada, nem alimentação ou escola para os filhos".

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