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Aniversário de aposentada aumenta festa de Natal em ocupação

Moradora de prédio ocupado por sem-tetos, a poucos metros da esquina das avenidas São João com a Ipiranga, faz aniversário em 25 de dezembro

São Paulo|Kaique Dalapola, do R7

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Dona Vera comemora aniversário no dia de Natal
Dona Vera comemora aniversário no dia de Natal

Os rojões do centro de São Paulo anunciam que é 0h do dia 25 de dezembro. Dentro de um prédio ocupado por sem-tetos, na avenida Ipiranga, a poucos metros da famosa esquina com a avenida São João, o abraço mais solicitado é da dona Vera Helena Rodrigues de Souza. Neste Natal, ela completa 66 anos.

Dona Vera mora no primeiro dos seis andares do prédio da Prefeitura de São Paulo, ocupado há três meses por antigos moradores da Ocupação Prestes Maia (incendiado no mês passado). Os antigos inquilinos aos poucos têm deixado esse edifício, que passará por uma reestruturação. A ideia é que eles voltem para os apartamentos reformados e regularizados.


Na noite de segunda-feira (24), à véspera do Natal, o som alto no térreo do prédio, o entra e sai de crianças e os trajes especiais mostravam que a festa estava apenas começando. Entre funk, samba e sertanejo, moradores de outras ocupações também iam chegando.

Das 48 famílias que moram na ocupação da Ipiranga, quatro são do sangue da dona Vera. Ela tem cinco filhas, 18 netos e três bisnetos, todos — desde a infância — estão na luta por moradia. Uma filha dela, a MC Lua Rodrigues, 34 anos, segue morando na ocupação da Prestes Maia.


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No apartamento de cômodos improvisados, os descendentes de Dona Vera não param entre os preparativos da festa que está prestes a acontecer. Assim que o relógio aponta meia-noite, o bolo de aniversário e as bebidas começam a ser levados para o térreo. Lá, as crianças já tomam conta das brincadeiras e do estouro de bombas. 


Até chegar no aniversário em uma ocupação no centro de São Paulo, a caminhada da família foi longa. Começou em 1999, ainda quando morava no Campo Limpo (zona sul de São Paulo). Dona Vera atuava no trabalho por moradia na região de Embu (Grande São Paulo). Lua ainda era criança, mas acompanhava a mãe e lembra um pouco do que vivenciaram. "Ajudou muito na minha formação", diz a rapper.

As filhas, que hoje têm entre 24 e 40 anos, foram os motivos para tomadas de decisões importantes na vida dessa senhora. Em 2002, quando estava separada do pai das filhas, desempregada e pagando aluguel, decidiu participar de um grupo dirigido por mulheres que ocuparia o prédio na avenida Prestes Maia.


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Na ocupação na região central e com apoio do movimento de moradia, a mulher conseguiu um emprego para atuar com a população de rua e criar as filhas. Anos depois, em 2011, decidiu voltar estudar e fazer faculdade. "Eu precisava me atualizar para passar mais ensinamentos para as minhas filhas, que tinham evoluído e precisavam que eu evoluísse também para ajudar", disse.

Ela se formou em Serviço Social em 2015 e apresentou como TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) o movimento de luta por moradia. E ela explica: "Esse trabalho é importante porque tem um déficit muito grande de moradia. Se tivesse política habitacional que atendesse essa demanda, não precisaríamos ocupar."

Depois de passar 16 anos morando na ocupação Prestes Maia, dona Vera está prestes a ganhar o presente de Natal e aniversário que espera por toda vida. Os moradores devem assinar o contrato de regularização da ocupação para, daqui mais ou menos dois anos, voltarem a morar no prédio reformado. "Depois de todo esse tempo de luta, isso seria para fechar com chave de ouro", comemora dona Vera.

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