São Paulo Após pressão popular contra fechamento, Belas Artes reabre as portas neste sábado

Após pressão popular contra fechamento, Belas Artes reabre as portas neste sábado

Tradicional cinema de rua da região central fechou em janeiro de 2011

Após pressão popular contra fechamento, Belas Artes reabre as portas neste sábado

Ainda em obras, cinema reabrirá para o público neste sábado

Ainda em obras, cinema reabrirá para o público neste sábado

16.07.14/RENATO MENDES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

Salvatore Di Vita, o memorável protagonista de Cinema Paradiso, ficaria orgulhoso. Depois de três anos projetando apenas lembranças e saudades a portas fechadas, o Cine Belas Artes vai reabrir ao público no próximo sábado (19), depois de uma grande pressão popular que convenceu a iniciativa privada e a Prefeitura de São Paulo.

O septuagenário cinema de rua localizado no encontro da Consolação com a avenida Paulista, na região central da cidade, foi rebatizado de Caixa Belas Artes, o que caracteriza a parceria entre o proprietário André Sturm, a Caixa Econômica Federal e a prefeitura.

O retorno foi viabilizado tanto política quanto financeiramente: a fachada foi tombada em 2012 pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico), o que facilitou a retomada do espaço para a sétima arte. Além disso, um investimento privado de R$ 7 milhões e um patrocínio anual da Caixa, na quantia de R$ 1,8 milhão, deram novo fôlego a uma história de amor com o cinema autoral.

Com exceção das paredes, toda a estrutura foi repaginada, incluindo a parte elétrica, o ar condicionado, as poltronas, e todo o sistema de som, projeção e iluminação, afirma Sturm. Nesta quarta-feira (16), o R7 visitou o espaço, ainda em obras e com detalhes a serem finalizados, como a fixação dos telões e de carpetes. No sábado, serão reabertas as salas 2 (Cândido Portinari), 3 (Oscar Niemeyer) e 4 (Cine Aleijadinho). Esta última será dedicada a filmes nacionais, entre estreias, obras sem distribuição no mercado e clássicos.

A sala 1 (Villa-Lobos), com a maior capacidade de público — 316 pessoas — deverá ser reinaugurada no próximo domingo (20), enquanto as demais, 5 (Mário de Andrade) e 6 (Carmen Miranda), são esperadas em um prazo de 15 dias a partir do sábado, informou Sturm.

A sala 2 terá um palco para eventos mensais relacionados a outras expressões de arte,  como pocket shows, videoinstalações ou até mesmo peças de teatro. A reabertura inaugura também o "Drive-in Riviera", uma parceria com o Riviera Bar que terá sessões de filmes para exibição para turmas particulares, com bebidas e comidas do bar.

Todas as salas terão cadeiras numeradas, rampas de acessibilidade e assentos próprios para cadeirantes e obesos, além de projetores digitais. Três delas terão projetores de película 35mm.

Cerca de 90 funcionários trabalham para a finalização das obras. Segundo Barbara Sturm, programadora do cinema, o espaço terá pelo menos três novidades que destacam a relação entre o Belas Artes e o cinema autoral. Uma delas é um mural de fotos em agradecimento à mobilização popular feita para que o cinema voltasse. A outra é uma vinheta de segurança gravada com trechos de filmes clássicos como Nosferatu, Cidadão Kane, Metrópolis, Caixa de Pandora e Cão Andaluz. Por fim, as paredes terão painéis temáticos com reprodução de pôsteres do cinema italiano, de Alfred Hitchcock e do expressionismo alemão.

— O objetivo da reforma, das cadeiras com nome aos painéis temáticos, é fazer com que ir ao Belas Artes seja tão legal quanto no começo, há 70 anos.

Em todo o cinema, percebe-se a inclusão das cores vermelho e verde à decoração. Mas é o hall que demonstra as mudanças mais evidentes, com a instalação de um espelho e com mais iluminação.

A administração promete o famoso combo pipoca e refrigerante a preço mais acessível que os concorrentes. Além disso, a lanchonete terá opções para dieta vegana (sem consumo de carnes ou derivados de leite ou ovo).

Para Sturm, a mobilização popular que aconteceu quando o Belas Artes foi fechado, em janeiro de 2011, teve muita importância para a reabertura do cinema. Na época, um documento com 20 mil assinaturas foi entregue ao Condephaat, além de uma manifestação na porta do cinema e  90 mil assinaturas em um abaixo-assinado digital promovido pelo Movimento Belas Artes.

— Não imaginava que fossem ocorrer passeatas, abaixo-assinados e manifestações no Facebook. Em dois anos, fomos batendo de porta em porta para o cinema continuar.

Para Juca Ferreira, secretário municipal de Cultura, a reabertura foi um processo importante e “didático”.

— Quando o Belas Artes foi fechado, a cidade reagiu. O cinema se tornou um emblema de São Paulo, que está perdendo muitos equipamentos públicos. O Cine Belas Artes é um patrimônio afetivo.

O apoio da população também se manifestou financeiramente, por meio da campanha Belas Artes, Meu Amor. Nela, interessados em se tornar sócios do cinema poderiam pagar R$ 3.000 e batizar uma das poltronas da Sala 1, com direito a assistir uma sessão por dia, com acompanhante, durante um ano, além de uso de guichê especial na retirada dos ingressos. É por isso que algumas das poltronas hoje "pertencem" a nomes como Eduardo Suplicy, Gilberto Dimenstein, Fernando Henrique Cardoso, Nando Reis e Marcelo Rubens Paiva.

Uma opção mais econômica, de R$ 800, também foi oferecida. Nesse plano, a sociedade permitia um filme por semana, durante um ano, além de outros benefícios.

Ingressos

No sábado e no domingo, as sessões de cinema terão ingressos com o preço fixo de R$ 5, excepcionalmente. Serão exibidos clássicos e pré-estreias.

Os ingressos regulares para o Caixa Belas Artes custarão R$ 20. Estudantes têm o benefício diário da meia-entrada (R$ 10), e os trabalhadores pagarão metade do valor às segundas-feiras — basta apresentar um comprovante do trabalho.

Correntistas da Caixa Econômica Federal também terão 50% de desconto no pagamento por cartão de débito ou com dinheiro, mediante comprovação de que é cliente.

Iniciativas clássicas do Belas Artes, como o Noitão e o cineclube, estarão de volta em agosto. Nos próximos meses, o cinema receberá retrospectivas dos diretores Jia Zhangke, da China; do norte-americano Gus Van Sant, e também mostras de filmes paraguaios e africanos.

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