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Boliviana vítima de estupro e trabalho escravo foge por medo de retaliação

Bolivianos almoçaram ontem em lanchonete pela primeira vez em três anos

São Paulo|Lumi Zúnica, especial para R7

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Cunhado e as irmãs da vítima de estupro entram pela primeira vez em um estabelecimento comercial no Brasil
Cunhado e as irmãs da vítima de estupro entram pela primeira vez em um estabelecimento comercial no Brasil

Glória Catari Villca, de 21 anos, vítima de estupro na oficina de costura onde trabalhava em condições análogas a escravidão, foi embora para Bolívia apos se sentir ameaçada.

Assustada com a violência praticada contra ela, Glória resolveu retornar ao país de origem sem sequer ter recebido os salários atrasados nem qualquer tipo de indenização.


Ela é boliviana e morava com duas irmãs, um cunhado e pelo menos mais 11 pessoas procedentes do povoado de Camacho, La Paz, próximo a divisa com o Perú. Em depoimentos prestados hoje ao MPT (Ministério Público do Trabalho), os bolivianos denunciaram as condições desumanas nas que eram obrigados a trabalhar, mas só criaram coragem para fazer a denúncia após o estupro sofrido por Glória, que foi atacada pelo dono da confecção, Jacinto Cruz Quecana, também originário da Bolívia.

Segundo declararam, na tarde do último sábado (23), Glória foi violentada por Jacinto no dormitório que ela dividia com uma das irmãs e foi socorrida por outro funcionário da oficina. Jacinto foi preso em flagrante e responderá pelo crime de estupro, conforme boletim de ocorrência registrado na 8ª Delegacia de Polícia, no bairro do Pari, região central de São Paulo.


Em entrevista exclusiva, eles contaram que Jacinto pagava eles a cada dois ou três meses, e aos finais de semana “adiantava” entre cinco e dez reais para gastos pessoais. Melinton, cunhado de Glória, esta no Brasil há quase três anos. Ele conta que foi trazido da Bolívia, junto com a esposa, pelo dono da confecção e que o mesmo descontou o dinheiro das passagens. O mesmo fez com Gloria e Lídia, cunhadas dele e pelo menos mais 14 pessoas ao longo dos últimos dois anos, inclusive uma menor de 14 anos que veio há menos de dois meses.

Submetidos a uma jornada de 16 horas diárias de trabalho, iniciavam os trabalhos às 6h30 da manhã e só paravam


às 22h30. A alimentação se limitava a sopas e arroz com salsicha. Crianças e filhos dos trabalhadores, cujas idades variam entre 2 e 12 anos, permaneciam no local durante o trabalho e os donos não forneciam alimentação para eles. Os pais tinham que dividir o prato com seus filhos.

Melinton e as irmãs de Glória afirmaram receber entre 0,20 e 0,30 por peça confeccionada e não havia nenhum controle sobre o vestuário produzido.


Pouco antes de serem ouvidos no MPT, nossa reportagem os convidou a almoçar numa lanchonete próxima, onde confessaram que era a primeira vez desde que chegaram ao Brasil que almoçavam numa lanchonete. Florência, uma das irmãs de Glória, contou como Quecana agia.

— Quando Jacinto saía levava a chave da casa e nos deixava trancados.

A confecção foi autuada e deverá prestar esclarecimentos sobre as condições de trabalho denunciadas. 

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