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Documentário "Nós Carolinas" fala sobre as mulheres na periferia

Pré-estreia é hoje, em São Paulo; filme foi produzido pelo "Nós, mulheres da periferia"

São Paulo|Juca Guimarães, do R7

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Renata Ellen Soares conta sua história no documentário
Renata Ellen Soares conta sua história no documentário

Acontece hoje (8), a partir das 19h, na sala da Galeria Olido, em São Paulo, a pré-estreia do documentário "Nós, Carolinas", realizado pelo coletivo de comunicadoras "Nós, Mulheres da Periferia", em comemoração ao Dia Internacional da Mulher.

O filme narra as lembranças de quatro mulheres que vivem nas periferias de São Paulo. Pelas histórias particulares dessas personagens, o documentário revela de forma sensível e cativante alguns instântaneos de vida que são comuns a muitas outras mulheres lutadoras e periféricas.


Uma senhora que rememora a infância no interior, uma adolescente que se orgulha do empoderamento do cabelo black power, uma estudante que tem mais de 50 anos e muita garra para aprender e uma educadora que multiplica o seu tempo entre o trabalho e a vida.

Uma a uma, Joana Ferreira, Carolina Augusta, Renata Ellen Soares e Tarcila Pinheiro, falam sobre o que é ser mulher na periferia. E o que implica nisso as questões de raça, classe social e gênero. No todo, surgem suas consequências e reflexões.


Mais do que a identificação direta com os depoimentos, o documentário apresenta uma visão ampla, sem os já manjados estereótipos superficiais, sobre as periferias das grandes cidades do Brasil.

O nome do projeto foi inspirado na vida e obra da escritora Carolina Maria de Jesus, autora do clássico "Quarto de Despejo: Diário de uma favelada", um dos relatos mais contundentes e verdadeiros sobre a vida da parcela mais pobre da sociedade paulistana. Em 1960, quando a obra foi lançada, Carolina era uma mulher pobre, catadora de papel, que vivia na favela do Canindé, no centro de São Paulo. O diário de Carolina descreve a dor, as angustias e o sofrimento de quem vive na favela, sem qualquer tipo de amparo do estado. 


Assim como a escritora Carolina Maria de Jesus, que encontrou na escrita um instrumento para superar sua invisibilidade, essas outras Carolinas também invisíveis aos olhos do centro, usam a potência de sua voz para romper os silêncios.

Desde as oficinas de pré-produção até a montagem final, o documentário levou dois anos para ficar pronto. Foram nove dias de filmagens e a equipe contou com Daniele Menezes, Elis Menezes, Edison Rodrigues Galindo Júnior, Naná Prudêncio, Vinícius Bopprê e Yasmin Santos na produção e captação de imagens.


A trilha sonora é a música "Mulher do Fim do Mundo, da cantora Elza Soares, escolhida pela Ananda Radhika que fez a curadoria musical do projeto.

O coletivo

O coletivo "Nós, Mulheres da Periferia" é formado por sete jornalistas que vivem, assim como as entrevistadas do filme, em bairros da periferia de São Paulo. Elas mantêm um site de notícias e uma rede para ampliar a representatividade da mulher periférica. Confira a entrevista exclusiva com a jornalista Lívia Lima, uma das fundadoras do coletivo.

Além da Lívia, que mora em Arthur Alvim, o coletivo é formado por Jéssica Moreira (de Perus), Semayat Oliveira (da Cidade Ademar), , Bianca Pedrina (de Carapicuíba), Mayara Penina (de Paraisópolis), Regiany Silva (da Cidade Tiradentes) e Aline Kátia Melo (da Jova Rural).

R7: Como surgiu o "Nós, Mulheres da Periferia"?

Lívia Lima: As mulheres que integram o coletivo se conheceram na Agência Mural de Jornalismo das Periferias, e após serem convidadas a escrever um artigo no jornal Folha de S. Paulo para o dia Internacional da Mulher em 2012, passaram a se reunir e pensar em suas vivências e experiências como mulheres da periferia. Resolveram então criar o coletivo e desde 2014 mantém um site no ar com notícias sobre e para as mulheres das periferias de São Paulo.

R7: Atualmente, a luta das mulheres, principalmente aquelas que vivem na periferia, é uma sobreposição de várias lutas. O coletivo vê uma evolução em alguma delas? Quais os avanços mais notáveis até agora?

Lívia Lima: Acreditamos que um dos grandes avanços foi a ampliação do acesso à educação, incluindo Ensino Superior. As gerações estão avançando e nós do coletivo fazemos parte dessa mudança. Com estudo, a gente atravessa a ponte mais consciente do nosso lugar, e mais preparadas para lutar por ele.

R7: Por que existem tão poucos coletivos de mulheres nas periferias?

Lívia Lima: Acreditamos que existem bastante coletivos e ações das mulheres nas periferias, mas nem sempre temos a mesma visibilidade que outros coletivos, nem recursos para dar continuidade nas atividades, mas as mulheres estão cada vez mais mobilizadas, principalmente as que estão engajadas. Mas claro que não somos a maioria, as periferias são diversas e as ações das mulheres também. Quando uma mulher luta por saúde, por creche, mesmo que não esteja em um coletivo, ela está defendendo suas causas.

Dona Carolina Augusto é uma das entrevistadas no documentário
Dona Carolina Augusto é uma das entrevistadas no documentário

R7: O documentário parte de histórias particulares de quatro mulheres para falar de problemas coletivos, por que foi escolhido este tipo de narrativa?

Lívia Lima: Defendemos que as histórias de cada uma das mulheres que vivem nas periferias, naquilo que tem de mais individual e particular, tem sua importância, por isso, com o documentário temos o objetivo de dar destaque para essas narrativas, sobretudo porque é aquilo que elas mesmas contam, como protagonistas de suas histórias.

R7: A mulher na periferia precisa ser múltipla para enfrentar grandes desafios: como mãe, estudante, trabalhadora, independente etc. Por outro lado, ela é cercada de solidão. Como a invisibilidade é tratada no documentário?

Lívia Lima: A invisibilidade está em pequenos detalhes das histórias delas, desde quando uma personagem nos conta que nunca tinha comemorado aniversário, ou quando outra revela que sente que as mulheres são muito cobradas. As mulheres da periferia geralmente são representadas como vítimas na mídia, ou julgadas, tachadas de barraqueiras, vulgares, ignorantes, são despersonalizadas. No documentário as histórias pessoais são valorizadas e com isso elas resgatam sua humanidade.

R7: O livro Quarto de Despejo talvez seja o retrato mais fiel das agruras e preconceitos enfrentados pelos favelados de São Paulo. No entanto, é uma história da década de 60. Por que mudou tão pouca coisa desde então?

Lívia Lima: Apesar de considerarmos que algumas coisas mudaram, as periferias se transformaram e são lugares com mais condições, ainda existe muita pobreza, que continua sendo ignorada. Reconhecemos no documentário que ainda somos Carolinas nesse sentido de que as condições são ainda difíceis, os problemas e dilemas, apesar das alegrias e superações e também nos colocamos como autoras de nossas próprias histórias.

Pré-estreia

Data: 8/3, às 19h, grátis

Local: Galeria Olido - Av. São João, 473 - Centro, São Paulo

Ingressos devem ser retirados no local antes do evento

Circuito de exibições do documentário "Nós, Carolinas"

11/3 - Centro de Formação Cultural da Cidade Tiradentes - Cidade Tiradentes

16/3 - CIEJA Campo Limpo - Parque Santo Antônio.

18/3 - Biblioteca Cora Coralina - Guaianases

24/3 - Biblioteca Padre José de Anchieta - Perus

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