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"É quase impossível vencer essa guerra", desabafa mãe após absolvição de PM que matou seu filho 

Frase do jovem após ser baleado virou símbolo da luta: "Por que o senhor atirou em mim?" 

São Paulo|Giorgia Cavicchioli e Juca Guimarães, do R7

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Douglas Martins Rodrigues morreu aos 17 anos na zona norte de SP
Douglas Martins Rodrigues morreu aos 17 anos na zona norte de SP

Mais de três anos depois de ter ouvido a frase “senhor, por que o senhor atirou em mim?”, o policial militar Luciano Pinheiro Bispo escutou que o Tribunal de Justiça Militar do Estado de São Paulo, por decisão do juiz Ênio Luiz Rossetto, o absolveu pela morte do estudante Douglas Martins Rodrigues, que na época tinha 17 anos, por falta de provas.

O assassinato aconteceu no dia 27 de outubro de 2013 quando o policial abordou o adolescente e o irmão dele no Jardim Brasil, zona norte de São Paulo. Bispo e um colega foram atender a um chamado de perturbação do sossego quando suspeitaram dos meninos e saíram da viatura para fazer a averiguação.


Segundo uma entrevista dada no ano do crime pelo irmão da vítima, que tinha 12 anos na época, os dois jovens não esboçaram nenhuma reação em relação à abordagem e o policial saiu com a arma em punho e atirando. Foi nesse momento que o menino, segundo a família, disse suas últimas palavras que questionavam o motivo do tiro que atingiu seu tórax. O policial, que deixou a corporação e respondeu todo o processo em liberdade, sempre alegou que o disparo foi acidental.

A decisão sobre a absolvição do PM foi divulgada nesta segunda-feira (5) e foi sentida como um “tapa na cara” pela mãe de Douglas, Rossana de Souza. Ela afirma que vai recorrer da decisão porque considera que ela “não foi justa”.


— No caso do meu filho, a gente sabe quem é o assassino. Mas por ser alguém do governo fica quase que impossível a gente ver atrás das grades. Lutar contra o Estado... é quase impossível vencer essa guerra. Mas Deus é justo. Deus vai fazer essa justiça. É nele que eu me agarro. É nessa fé que eu me seguro.

A mãe do jovem, que hoje já seria um adulto de 20 anos, diz que “é o certo” exigir a prisão do policial. Segundo ela, “quando a pessoa erra, ela deve ter uma pena, um castigo”.


— Quando um filho da gente faz algo de errado, a gente chama atenção. Dependendo do que ele faz, você castiga tirando um vídeo game... se ele, como um policial adulto, consciente de suas atitudes, ele tira a vida de alguém, ele tem que estar preso.

O policial foi julgado pela Justiça Militar pelo crime ter sido considerado homicídio culposo — aquele que não há intenção de matar. Porém, Rossana também questiona a finalidade do PM. Ela afirma que “têm provas, como dedo no gatilho. O assassino, na hora que desce da viatura, ele aponta a arma na direção ao peito do meu filho”.


— Quando aconteceu isso com o meu filho eu falei que a única culpa dele era ele ter nascido pobre e morar em um lugar pobre. Quem fez isso com ele continua gozando da liberdade, curtindo finais de semana e meu filho perdeu a vida. E nós, levando flores para o tumulo.

A defesa do policial alega que a morte do menino foi culpa da arma utilizada pelo agente. A fabricante Taurus foi responsabilizada diversas vezes sobre acidentes que chegaram até a ferir policiais. Reportagem divulgada pelo R7 em julho deste ano traz denúncias de policiais que afirmam que as armas da marca não têm qualidade e são uma ameaça. Porém, esta versão também é questionada pela mãe da vítima.

— Como uma pessoa que não tem a intenção de matar fica com o dedo no gatilho? Não tem a intenção?

Mesmo assim, o pedido da mãe é para que os responsáveis pela morte de seu filho sejam punidos: “Se é assim, eu vou atrás da Taurus. Como dispara só pelo fato de ela tremer”? Para ela, “o mínimo” que pode acontecer com um ser humano que tira a vida de outra pessoa “é pagar pelo o que fez”.

— Eu quero conhecer nossa Justiça brasileira. Para o que a gente quer lei se elas não são cumpridas? Elas são cumpridas para quem não é de classe alta. Ela só existe para o pobre, para quem não tem condição financeira, pra quem mora numa periferia.

Ainda cabe recurso da decisão, que será pedido pela família do jovem. Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) disse que "em 2013, foi instaurado um IPM para investigar a conduta do policial militar Luciano Pinheiro Bispo. O IPM foi relatado à Justiça Militar e encaminhado para a Justiça comum. Na esfera administrativa, o acusado foi expulso da Polícia Militar por erros de abordagem durante a ocorrência".

Taurus

Procurada pela reportagem, a Taurus afirmou que não tem conhecimento sobre o caso de Douglas e que "sempre que tem notícia de algum fato, incentiva que sejam feitas análises técnicas, por peritos experientes e conhecedores das características do equipamento. A ocorrência de qualquer tiro é sempre decorrente do acionamento do seu mecanismo de disparo, acionamento esse que pode ter ocorrido de forma acidental, involuntária ou voluntária. Somente por meio da realização da perícia é possível esclarecer os fatos".

Ainda na nota enviada ao R7 por e-mail, a empresa diz que "está empenhada para tomar todas as medidas que estiverem ao seu alcance para diminuir os riscos associados ao uso de armas de fogo, e que tem adotado diversas iniciativas para se aproximar ainda mais de seus clientes".

A empresa cita, também, medidas que implementou nesse sentido, como a expansão do time do Serviço de Atendimento ao Consumidor, e diz que "lamenta profundamente qualquer acidente com armas de fogo e se solidariza com as vítimas".

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