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Em fuga num campinho de futebol, adolescente morre com tiro no tórax

Suspeito de roubo de veículos, jovem foi atingido durante perseguição de PMs e morreu ao lado da trave de futebol na comunidade Vietnã, em SP

São Paulo|Fabíola Perez, do R7

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Adolescente de 17 anos foi alvejado pela PM em trave de futebol
Adolescente de 17 anos foi alvejado pela PM em trave de futebol

Uma partida de futebol foi brutalmente interrompida na manhã do sábado (21) por uma perseguição policial seguida de tiros na Vila Santa Catarina, zona sul de São Paulo, na comunidade Vietnã. Um adolescente de 17 anos morreu após ter caído em uma rede do gol e ter sido atingido no tórax por um policial militar. “Eles chegaram atirando. Dá pra ver o sangue dele no chão”, diz um dos moradores da Comunidade Vietnã.

Na rua, onde é possível ver o desenho de uma quadra de futebol no chão, crianças e adolescentes haviam se reunido para jogar bola pela manhã. Mas não houve futebol. “Escutei o barulho dos tiros e me tranquei em casa com medo”, afirma um morador da rua. Segundo relatos de vizinhos da comunidade, policiais teriam cercado as ruas próximas e atirado contra um garoto menor de idade. “Íamos começar a jogar bola, quando policiais vieram de todos os lados sapecando tiros, diz Eduardo, de 13 anos.


O caso que deveria ter sido registrado no 35º DP (Jabaquara), mas em função do feriado do Dia da Inconfidência foi encaminhado ao 16º (Vila Clementino) e a DHPP (Departamento Estadual de Homicídos e de Proteção à Pessoa), ainda será investigado. Segundo policiais militares que participaram da perseguição e estavam presentes na delegacia para depor, a perseguição teria ocorrido a dois adolescentes suspeitos de terem roubado três veículos na manhã do sábado.

“Estavámos fazendo o patrulhamento e fizemos o cerco na rua Rodolfo Garcia, um dos indivíduos correu para a rua Franklin Magalhães com uma arma em punho e o outro correu para a rua Atos Damasceno e foi detido ao passar por uma viela”, afirmou o policial militar que não quis se identificar.


Segundo a polícia, o adolescente que teria corrido para a rua Franklin Magalhães teria tentado disparar contra eles. Os policiais teriam então revidado e atingido o jovem no tórax. O adolescente detido pela polícia, acusado de roubo, foi levado ao 16º DP. Três veículos teriam sido roubados por volta das 9h45. Policiais que participaram da operação afirmaram ainda foram encontradas carteiras nos veículos e com o jovem que morreu, um revólver raspeado 38, com cinco munições. 

Veículo supostamente roubado por adolescentes na comunidade Vietnã, em SP
Veículo supostamente roubado por adolescentes na comunidade Vietnã, em SP

O primeiro veículo, segundo os policiais, se tratava de um Gol, o segundo, de uma Toyota Ethios e o terceiro, de uma Mitsubishi. Os três roubos teriam levado cerca de 30 minutos e todas as vítimas eram moradores do bairro Vila Santa Catarina. “Meu marido estava saindo da garagem com o Gol quando foi abordado pelos rapazes. Eles mandaram ele descer e levaram o carro”, diz uma senhora moradora da rua Giuseppe Moscati. “Costumamos levar minha neta de um ano no carro mas hoje não coloquei. Fiquei muito assustada.”


De acordo com o delegado do 16º DP Stefan Uszkurat, o jovem que dirigia os veículos será encaminhado à Fundação Casa. “O boletim de ocorrência está sendo feito, mas a apuração das circunstâncias da resistência seguida de morte será feita no DHPP.”

Comunidade Vietnã


Os novos prédios da rua Franklin Martins, na Vila Santa Catarina, quase escondem a comunidade Vietnã. Mas para quem percorre a rua até o final, é possível ver, de um lado, crianças correndo pelas ruas, de outro, marcas de bala na parede de algumas casas. “Não é a primeira vez que os policiais chegam atirando. Já atiraram no meu portão e mataram um gari aqui”, diz Maria Ignácio, 22 anos.

Maria Ignácio mora em uma das casas localizadas ao lado das traves do gol em que o adolescente teria caído e sido alvejado. “Vi o moço morto, estava tendo jogo de futebol, o menino caiu na rede e depois na rua.”

Assustados, alguns moradores tentaram socorrer o garoto caído. “Minha avó ligou para o Samu para pedir socorro, mas teve que falar que ele foi atingido por uma bala perdida. Quando falam que é morte por policiais eles demoram muito para vir”, diz Eduardo. O atendimento, segundo outro morador, chegou por volta das 10h30 e levou o garoto ao Hospital Sabóia, na região.

PMs abordam moradores enquanto aguardam perícia
PMs abordam moradores enquanto aguardam perícia

“Agora os policiais querem a imagens das câmeras da casa de um homem que mora bem em frente ao lugar que ele foi atingido”, relata Eduardo. Em meio ao clima de tensão, moradores reunidos de um lado da rua relatam que perseguições como essas ocorrem com frequência na comunidade. Do outro lado, policiais aguardavam até a chegada da perícia ao local. “Ele saiu correndo e levantou os braços, não precisavam atirar”, diz Michele, moradora da comunidade.

Pouco mais de uma hora após a perseguição e a morte do jovem de 17 anos, as ruas de entrada à comunidade do Vietnã estavam cercadas por policiais. O garoto Eduardo, que teve o futebol interrompido pela perseguição, caminha pelas ruas isoladas por faixas e diz: “só não acho justo eles chegarem atirando. Mas Deus ajuda a gente, né?”

A SSP (Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo) enviou, às 20h51 de segunda-feira (23), a seguinte nota:

"A Polícia Civil informa que o caso está sendo investigado por meio de inquérito policial instaurado pela Equipe C Sul da 1ª Delegacia da Divisão de Homicídios do DHPP. A Corregedoria da Polícia Militar acompanha as investigações, como de praxe em ocorrências de morte decorrente de oposição à intervenção policial.

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